domingo, 18 de agosto de 2013

Missionary Man -Day 6

Apercebi-me que hoje é domingo...
A noite não foi má. O calor na tenda, no entanto, torna o sono desconfortável.
Não houve formigas... A fumigação que fizemos ao cair da noite aparentemente resultou.
Adormeci a ouvir as hienas que não deviam andar longe... cheirou-lhes o gado.

Para matar o tempo, ontem à noite, depois do jantar ainda fizemos um intenso jogo de UNO... Intenso porque era um português, um queniano, uma norueguesa, uma chinesa e dois franceses. Quando as baterias acabaram, continuámos o jogo à luz das velas e das luzes frontais. Parecia um grupo de mineiros na batota... A multiculturalidade proporciona momentos verdadeiramente hilariantes e de boa disposição!!!

O dia tem sido calmo. Uma chuvada tropical desde a hora do almoço, com a respectiva trovoada, mantém os doentes afastados do hospital. Ainda assim, acabei de receber uma pequena de dois anos com queimaduras de água a ferver... a vida nestas paragens não é fácil.

Continua a chover torrencialmente. Há quem diga que este acampamento é "way bellow standards"... mas a missão é importante. Estamos numa encruzilhada de caminhos onde converge muita gente, não só por causa da assistência medica, mas também porque este é um dos pontos de distribuição de alimentos do WFP.

Amanhã já há cirurgias programadas. Como a maior parte das intervenções é feita em dois tempos, vou terminar aquilo que a equipa anterior começou, enquanto em Bor, eles devem estar a fazer o mesmo com os doentes que deixámos.

A pouco e pouco, o corpo e o espirito começam a habituar-se...






sábado, 17 de agosto de 2013

Missionary Man - Day 5

A noite no acampamento foi complicada...
Nada de leões ou hienas, mas por volta das 3 da manha uma dos elementos dos MSF acordou coberto de formigas... e na verdade elas estavam por todo o lado, aparentemente excepto na minha tenda. Acho que o acampamento está montado sob um daqueles enormes ninhos de formigas, e à medida que as estacas foram sendo cravadas no chão elas começaram a emergir.

Fez-se o que se pode para controlar a situação, mas isto é literalmente a selva e como tal esta é uma guerra perdida à partida. De resto, tenho atrás da tenda um qualquer bicho que faz um bip, bip, bip irritante... parece um dispositivo electrónico...mas quando somos vencidos pelo sono, nem o bip, bip incomoda.

Experimentei o duche pela manhã. Basicamente coloca-se um jerrycan de 5 litros sobre uma plataforma, abre-se a torneira, molha-se o corpo, fecha torneira, ensaboar, abre torneira, tira-se o sabão... Há coisas piores, e está tanto calor que a água sabe deliciosamente bem.

Ontem à noite recebemos um doente novo. Uma queda de uma árvore... aparentemente uma das poucas árvores num raio de um quilómetro. Suspeito de uma pequena fractura vertebral, mas fiquei intrigado, pela razão de ser da queda. Então é mais ou menos assim. Estamos a mais de 100 quilómetros da cidade mais próxima, e sem rede de telémovel, pelo menos pensava eu. Aparentemente no alto da árvore que segundo eles tem lá um pau, e que por sinal vê-se, dizia eu que no alto da árvore há rede de telemóvel, e então, para falar com o chefe da tribo, sobem à arvore para ligar. É uma espécie de jungle phone.

O dia foi tranquilo. Estive a suturar a rede mosquiteira da colega que foi formigada durante a noite, para ver se não entram mais formigas. Almoço, ração de combate norueguesa (comida indiana).

O helicóptero do WFP trouxe material que estávamos a aguardar. Sabe sempre bem ver o helicóptero a chegar... ajuda a quebrar a sensação de isolamento.

Choveu torrencialmente uma boa parte do dia. Está tudo enlameado. As condições são duras. Não deu para acabar o projecto do frigorifico, talvez amanhã.

Passámos visita à enfermaria, alguns casos complicados. Estou a aguardar novo helicóptero na segunda com material para poder fazer alguns enxertos de pele e outros procedimentos menos habituais. A equipa tem uma boa moral, não vale a pena refilar, ninguém veio obrigado, ninguém disse que ia ser fácil.

Hoje o principal problema foi mesmo a gestão da energia, porque com chuva o painel solar não carrega a bateria que por sua vez não carrega os equipamentos, ainda assim deu para ver a família :) e é bom saber que estão todos bem.

A noite já caiu. Jantar "pasta" tipo bolonhesa sem carne... é como se estivéssemos a jantar em Roma :) Os mosquitos andam por todo o lado. Voltei à antiga rotina do repelente... Confesso que já tinha saudades do cheiro do repelente... mas estou a desconfiar que estes mosquitos não percebem que isto é repelente... Enfim, amanhã veremos o que nos trás o novo dia !

 




sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Missionary Man - Day 4

Deep down in Africa...
Provavelmente um dos últimos textos made in South Sudan...

Mais um banho daqueles a mendigar por água. Pequeno almoço - feijões :)
Mochila pronta. Partimos para o aeródromo por volta das 8.30
Carregar o helicóptero, e deixamos Bor para trás, lá vamos nós a caminho de Durain... um acampamento no meio da selva, com cerca de 3 semanas de vida. 45 min de voo a 90 knots. A baixa altitude e a janela aberta permitem ver a paisagem... Isto é no fim do mundo, é verdade, mas a paisagem é um espanto. Sobrevoámos algumas aldeias Muley. Ficam umas quantas fotos para a posteridade. Sinto-me como se estivesse num documentário da National Geographic.

Durain é mesmo um acampamento, na verdade, são 3 acampamentos, o nosso, o acampamento do MSF, e um acampamento Muley, uma das tribos que habita a região.
O pessoal do MSF faz a linha da frente, nós tratamos os casos que eles encaminham. A guerra pelo gado tem gerado inúmeros feridos. Temos uma pequena enfermaria com 10 camas e um bloco operatório. Fiz a passagem de turno com a equipa que vai para Bor durante esta semana. Ficam 9 casos, de tudo um pouco, incluído mordeduras de cobra, complicações pós cesariana...

Instalei-me na minha tenda. Estão cerca de 40 graus...

As condições estão a melhorar de semana para semana. Hoje já trouxemos um pequeno gerador a gasolina para poder ligar uma ventoinha no bloco, mas ainda não há ventoinha. O cirurgião que vim render, recomendou-me, antes das cirurgias, encharcar o fato de bloco e vestir o mesmo molhado... caso contrario não ha quem aguente.

As tendas já têm fosso à volta para escoar a água, e têm uma cobertura adicional por causa do calor e da chuva, e hoje sugeri a construção de um "frigorifico" para manter as bebidas frescas. É uma antiga receita Queniana, que aprendi na Indonésia com uma enfermeira que esteve no Mali, vamos ver... em menos de nada já cavaram o buraco que eu encomendei, mais logo vou terminar...
Tambem já temos um painel solar, e "la creme de la creme", a cereja no topo do bolo, Internet via satélite !!!!!!!!!!! Sim... Vou repetir... Internet via Satélite !!!!!!! Não é a toda a hora... Mas funciona.

Já iniciei o programa de aculturação. Estou a aprender algumas palavras em Muley.
Portanto é mais ou menos assim que se inicia uma conversa...

Olá - bona
Resposta - iiiiii 

Como estás ? - bona nina
Resposta - iiiii

Estás mesmo bem ? - bona djuro
Resposta -iiiii

Como estão as crianças ? - bona dália
Resposta - iiiii

Como estão as vacas ? - bona tang
Resposta - iiiiii

E depois invertem-se os papeis e é a vez do outro perguntar ;)
Aparentemente a resposta é sempre iiiiii ou seja, tudo bem :) não vale a pena complicar...

O frigorifico vai avançando... estou a tentar encontrar o carvão... para o revestimento... Nao há muito e o que há, temos que aproveitar para a esterilização... mas amanhã fica completo, já encomendei a um dos artesãos uma tampa em canas, para servir de armação ao cobertor...

Entretanto, o céu cobre-se, a temperatura baixa uns graus... e dai a pouco, uma daquelas cargas de água que deixa tudo enlameado... Great :(

Já temos latrinas... Old fashion, buraco no chão, e uma plataforma, turkish style... é muito, muito mau para quem vem da cidade, e quando o sol vai alto e o calor aperta... bem...mas eu já vinha num processo de degradação das condições ao longo dos ultimos 4 dias portanto nao foi um choque... Foi um choquinho !

Os duches nao são maus... Amanha de manha vou experimentar. Entretanto a decisão é de começar a operar muito, muito cedo, porque a partir das 10h o calor na tenda do bloco / enfermaria é estilo sauna finlandesa... 

Pensar que há pouco mais de 15 dias estava num veleiro no meio do Oceano... Essas imagens de frescura, nao me saem da cabeça...

O sol está praticamente no horizonte... há uma pequena brisa... Acho que vou descansar um pouco. Daqui a pouco acendem-se as fogueiras e os candeeiros de petróleo. Amanhã há mais trabalho... Aliás, o trabalho nunca vai acabar...








quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Missionary Man - Day 3

Após uma noite estranha, com o ar condicionado a fazer o barulho de um helicóptero, a ventoinha do tecto descrevendo elipses e a chuva lá fora a cair como gente grande, acordei bem cedo para um banho de água fria, na verdade, a única disponível... Eu até aguento-me bem à agua fria... mas esta corre lentamente, muito lentamente e sem pressão, por um chuveiro ferrugento... Lembrei-me então dos banhos de balde que tomava na Indonésia, e isto já não parecia tão mau... Pelo menos não tenho que atirar o balde ao poço vezes sem conta até trazer a agua. Já interiorizei a lavagem dos dentes com água de garrafa... é estranho, mas tem que ser.

Pequeno almoço... feijões... e omelete... e uma coisa panada meia doce que não sei o que era, e chá... sem comentários. Já me habituei a fintar as formigas no açucareiro, e as que não finto, vêm beber chá comigo. Neste aspecto, já me deixei de m... ariquices.

Esta tudo completamente enlameado. A caminho do hospital vejo dezenas de pessoas a circular nas ruas, procurando os pontos mais secos, enquanto as crianças chapinham nas poças. As crianças são iguais em todo o lado. Dêem-lhes água, que elas agradecem. Não quero imaginar como terá sido a chuvada nas palhotas...

Hospital. Recebi a minha luz frontal que tanto falta fazia e os óculos de proteção. Pelo menos já consigo ver o fundo das feridas com um pouco mais de claridade e escuso de levar com esguichos de sangue nos olhos... Faz diferença. Operamos os 3 casos programados de ontem, mais um regresso ao bloco para o segundo tempo de uma cirurgia cuja decisão tinha deixado para hoje porque precisava de estudar a melhor opção, mais um baleado desta noite e pelo meio uns pés mordidos por ratos... Indiscritível. 

Estudar é mesmo a única opção em alguns destes casos. A maioria destas lesões, no mundo ocidental seria tratada por equipas de super especialistas de diversas áreas... aqui... sou eu, e hoje, dou graças a Deus pelo tempo que dediquei à cirurgia plástica e à ortopedia... Algumas das técnicas seriam quase impossíveis de realizar sem um mínimo de treino prévio. Provavelmente com o passar do tempo e com a experiência, já não precisarei de recorrer, tanto ás bíblias... não será para já garantidamente... Mas a tecnologia é mesmo incrível, trouxe no ipad uma biblioteca com cerca de 60 livros... Cujo peso total se fossem em papel aproxima-se dos 150 Kg !!! Já para não falar do volume que ocuparia. O trabalho humanitário está a evoluir... felizmente, e por isso mais logo consigo fazer o upload desta crónica... Via satélite :)

Acabámos já perto das 16h... tempo para ir comer qualquer coisa. Optámos pelo "hotel canal"... Chamar hotéis a estes sítios é um pouco abuso... Mas aqui ninguém liga, é um sítio para comer, e a fome é negra. Peixe frito com couve e ukali (basicamente farinha com agua numa argamassa consistente que ganha o sabor do molho que levar por cima)... Imagino que o peixe seja do Nilo... Nem quero pensar se não for...

Pelo caminho de volta, paragem numa mini, mini, mini, mercearia. As coisas que se vendem e encontram por aqui, são incríveis. Comprei Red Bull, Coca-Cola, sumo de goiaba, cereais e pastilhas... 99 ssp ( South Sudanese Pounds) cerca de 30 dólares. É caro, mas logo à noite e amanha de manha vai saber mesmo bem, porque amanha de manha, voamos de helicóptero para Dorein, e por aquilo que me contam... The best is yet to come :)


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Missionary Man - Day 2

Voo de avioneta para Bor, logo de manha cedo. Quatro passageiros mais carga. Voo tranquilo a baixa altitude, 40 min para norte... A selva africana, os pântanos, o Nilo Branco... algumas aldeias perdidas no meio do nada... é impressionante.

O aeroporto, melhor, o aeródromo, mais concretamente a pista de terra batida estava verdadeiramente movimentada entre avionetas e helicópteros de todos os tamanhos (Mi 6 a Mi 26... maior o número maior o tamanho) alguns dos quais só tinha visto na televisão, verdadeiras bestas de carga das várias organizações que estão no terreno. UN, WFP, CICR, MSF, etc, etc...

Se Juba era África profunda, Bor é ainda mais profundo. Não ha estradas alcatroadas, não há electricidade, e água depende...
Deixei as coisas no "hotel". Não consigo bem descrever... ha uma porta com chave e um quarto e uma cama e um mosquiteiro e uma casa de banho e uma ventoinha de tecto... Mas água e electricidade só de manha ou à noite.
Encontrei-me com a minha equipa. Anestesista, Italiana, 50s, algumas tattoos, batida nestas coisas, enfermeiro de bloco, Ugandês e enfermeira de enfermaria, Queniana, ambos já com larga experiência, Paquistão, Congo, Ruanda, Afeganistão...

Decidimos ir ao "hospital" fazer a visita medica aos doentes. O que posso eu dizer ? É como nos filmes, camas sem lençóis, suportes de soros improvisados com canas, tracções esqueléticas em cada esquina, um calor abrasador...

Passaram-me cerca de 10 casos. Desde fracturas da mandíbula com perda de osso até uma criança gravemente queimada, passando por inúmeros baleados em múltiplos locais o ultimo dos quais chegado na noite anterior com uma bala que lhe fracturou o colo do úmero...Decidimos operar 3 hoje  e 3 amanha, mais uns quantos pensos.

Peço para ligarem o gerador do hospital para que se possa por a luz do bloco a funcionar, porque sem luz, uma vez que é um espaço interior, não se vê nada. A minha anestesista a semana passada esteve várias horas a dar ao ambu...

Não consigo decrever o "bloco operatório"... Mas lá fizemos o que tínhamos a fazer com base em muita ketamina, valium, coragem e espirito de sacrifício. Acho que ficaram bem operados. Amanha veremos como evoluem.

Acabamos tarde. À frente do hospital um "bar" chamado "big dad". Teoricamente "seguro" ou seja " diarreia não obrigatoria"... Experimentei o kebab. A fome era tanta que me soube a bife do lombo.

A seguir, reunião com o director do hospital, para articular procedimentos pos-op, nomeadamente as tomas de medicação e apoio ao bloco. 

Amanha, continuamos. Na sexta de manha de partimos de helicóptero para o acampamento de Dorein. O meu pai tinha razão... não há nada de romântico nisto... apenas uma dureza indiscritível, no limiar das condições de trabalho. Ainda estou meio abananado com o dia de hoje.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Missionary Man - Day 0

Para a maioria dos Portugueses, o Sudão do Sul é um pais imaginário que só existe na televisão à hora dos telejornais. Apagada a televisão, vistas as imagens, tudo o que fica é blá, blá, blá, violência, blá, blá, blá, golpe de estado, blá, blá, blá, tiros, blá, blá, blá, tribos... E pronto, é o Sudão do Sul.

Eu próprio não estou convencido da sua existência...

Logo pela manha, auto injectei-me com uma dose simpática de Lovenox (love-nox, amor em versão depot :) uma vez que estando com uma perna a 75% não me apetece nada ser um cirurgião trombo-embólico. 

Aeroporto de Lisboa em modo de introdução dos sistemas de self check-in... cada vez temos menos contacto com as pessoas, e cada vez há mais pessoas a precisar de assistência para lidar com os sistemas que foram introduzidos para reduzir o número de pessoas... Está tudo louco !

Boa noticia do dia. Lisboa - Frankfurt em classe executiva. Imagino que os meus novos patrões tenham adiantado um bónus de primeira missão.
É classe executiva sim sr, mas german style. As hospedeiras são irrepreensíveis na sua função, mas nota-se logo a economia de sorrisos e de presença... falta ali uns genes latinos...

Chegada a Frankfurt, sob chuva.
Para mim, é impossível circular neste aeroporto sem recordar o meu primeiro parto "on the wild" que fiz aqui, a uma matrona Queniana XXL, numa casa de banho, em 2005... mas isso é uma história para outra ocasião.

Ia com intenções de me encontrar com um companheiro, piloto de "outras guerras" que por sinal também estava em transito à mesma hora, mas deixei-me levar por ideias pre-concebidas que amiúde nos induzem em erro. Tendo quase 2 horas de escala, e tendo aterrado no terminal 2, o mesmo da partida, assumi que teria tempo para tudo.
Em primeiro lugar, à medida que circulamos no terminal vamos passando por uma serie de pontos de não retorno, o que imediatamente tornou impossível o nosso encontro. Em segundo lugar, apesar de ser apenas o mesmo terminal, para ir das portas "A" para as portas "C"... nao se vai a pé... Vai-se de comboio ! É outra escala.

Chegado ás portas "C", o meu cérebro já em modo hipoglicemico, assumiu que a minha porta de partida era a C19. Andei, andei, andei, andei até achar que nao havia mais aeroporto para andar, e finalmente chego a um controle de passaportes. Rio ? São Paulo ? Pergunta-me o policia... nao, nao, Addis Ababa, respondo eu assumindo que o meu look estaria algo sul americano... Uma vez que nao sou procurado pela Interpol, e o meu passaporte nao fez disparar nenhum alarme ( tempos houve que o fazia, razao pela qual estive em tempos detido pela Policia Federal no Brasil.... adiante...) ele olhou-me assim meio de lado, e mandou-me seguir. Continuei a andar, afinal ainda havia mais aeroporto, e quando finalmente chego a um local onde nitidamente não havia mais nada, eis que surge um controlo RX. Rio ? São Paulo ? não, não disse eu, Addis Ababa, mas que raio estes hoje a embirrarem que sou da América do sul... Addis Ababa! o policia encolheu os ombros como quem diz, pois, realmente, com essa cor, bem podes ser etíope. Tira cinto, tira relógio, tira telemóvel, tira moedas do bolso, tira ipad, tira o saco com os frasquinhos de 100 ml... Passo sem apitar, mas sempre com o receio que aquela moeda de 2 cêntimos esquecida no bolso, me faça alvo de uma busca das cavidades corporais por um qualquer matulão ariano... Não apitou. Põe cinto, põe relógio, guarda o telemóvel, guarda as moedas, arruma o ipad e o saquinho dos frascos...
Andei 10 metros e agora controle de cartões de embarque... Caro Sr, o sr está no sítio errado. A sua porta é a C09. What ? Sim, sim, C09, tem que andar para trás... olhei para o relógio e já não havia muito tempo. Desatei a andar em modo "coxo com pressa" que é o melhor que nesta altura ainda consigo fazer... Andei, andei, andei... E andei cerca de 1km ou para ser mais exacto, 20 min em modo coxo, coxo com pressa.
Novo controle de passaporte, novo rx, tira cinto, tira relógio, tira telemóvel, tira moedas do bolso, tira ipad, tira o saco com os frasquinhos de 100 ml... Passo sem apitar, ainda não foi desta a busca das cavidades, põe cinto, põe relógio, guarda o telemóvel, guarda as moedas, arruma o ipad e o saquinho dos frascos... Uff, finalmente no avião e uma dupla estreia: Boeing 787 Dream Liner, e Ethiopian Airways... Pois...

Lá me instalei na minha cadeirinha, com as costas muito direitinhas, muito pertinho do banco da frente... Apesar do avião ser grande, na classe económica é tudo mini. Obviamente trata-se se uma clara provocação estilo mete nojo, fazem-nos entrar junto à primeira classe, que é para vermos onde não vamos dormir ! Aquilo irritou-me ! Ainda para mais, porque tinha acabado de passar por um placar publicitário da Singapore Airways, onde anunciavam a nova classe Suite Executive ! Com cama de casal e lençóis ! O mundo não é um local justo... e nunca, nunca o será !


Missionary Man - Day 1

5366 kms depois, eis que aterramos em Addis Ababa. Tirando a dor no pescoço pela posição viciosa, e as pernas hiper inchadas, o avião é de facto um espanto... e muito silencioso. Continua a espantar-me a precisão destes aparelhos. A duração prevista do voo era de 6h e 6min, fizemos 6h e 7min.

Chuva em Addis Ababa, e um terminal de aeroporto digo de um filme. Mantenho a minha opinião que os aeroportos dizem muito sobre os países, e este não era excepção. As lâmpadas fluorescentes sem balaustres, um bar / cozinha aberta onde as duas opções de bebida são, Coca-Cola em garrafa de vidro com carica oxidada ou água... E quanto ao preço, depende do que temos... Se for dólares é um dólar, se for euros, é um euro !

Assim que pude tomei posse de uma cadeira que dava para esticar as pernas. Eram poucas e como tal a esta não mais a larguei. Foram 5 horas dolorosas. Ia passando pelas brasas no meio da multidão, treino adquirido nas urgências, mas de vez em quando acordava com uma corrente de ar que me fez lembrar que não tinha posto nenhum polar na mochila. A este respeito devo dizer que a experiência levou-me a assumir que iria perder a bagagem do porão, porque sim, ouve tempos em que isso era uma constante, e como tal preparei a mochila para 5 dias de autonomia de roupa, comida e higiene pessoal... 

Voo para Juba, num bimotor Q400. Pelo caminho conversa com um americano que anda cá e lá...
Nada me preparou para o choque de Juba. Saída do avião, e sigo aqueles que parecem saber para onde se dirigem. Era uma barracão (não em sentido figurado) onde estava uma centena de pessoas, acotovelando-se para pagar o visto, controle de passaporte e recolher as bagagens que eram lançadas por uma janela para uma pilha enorme no meio da sala... Indiscritivelmente África profunda.

Optei por não ligar à bagagem (não iria chegar de qualquer maneira) e fui para a fila do passaporte, quando finalmente chegou a minha vez... Estava na fila errada, era preciso primeiro pagar. Fui para a fila dos pagamentos. Conheci uma alemã e um brasileiro que trabalham para os MSF, e aparentemente vamos estar juntos algures no mato... chega a minha hora de pagar e as minhas notas de 50 dólares, tinham uma pequena mancha em um dos cantos motivo pelo qual não eram aceites... Inacreditável... lá me safou o brasileiro que trocou-me o dinheiro por uma nota aceitável.

Escusado será dizer, que quando isto terminou cerca de 1 hora depois, eu era o único passageiro do terminal... E olhando para trás, vejo a minha mala ali sozinha, à minha espera. Moral da história, aqui é tudo com calma... Muita calma.

Cá fora, já o motorista me esperava para levar-me à delegação. 5 briefings e uma vacina contra a raiva depois, eis-me no Rainbow Hotel, a jantar e pernoitar num quarto com mosquiteiro antes de amanha seguir cedo de avioneta para Bor...sim... porque é a época das chuvas e as estradas estão intransitáveis e não ha nenhum cirurgiao na cidade desde há 4 dias.
Os meus companheiros dos próximos dias são das tribos Dinka, Nuer e Murle... Que se guerreiam por causa do gado...Daqui a 8 dias, helicóptero para Dorein, no meio da selva, onde as preocupações de acordo com o briefing são os leões as hienas e as formigas... Enfim...