quarta-feira, 25 de março de 2020

COVID-19... as contas que ninguém fez

Este poderia ser apenas mais um texto alarmista sobre o dito cujo virus, mas quiseram os meus 2 neurónios (Tico e Teco) fazer as contas que aparentemente os nossos governantes (e os dos outros) ainda não fizeram.

Um estudo, recentemente publicado por um professor de finanças do Instituto de Estudos Sociais e Económicos, traça 3 cenários económicos para Portugal conforme a duração deste AIT económico (acidente isquémico transitório). No cenário optimista o PIB cai 4% e o desemprego sobe para 8,5%. No cenário intermédio o PIB cai 10% e o desemprego sobe para 10%. No pior cenário o PIB cai 20% e o desemprego atinge 13,5%.

Para terem uma ideia, 4,5% do PIB são cerca de 10 mil milhões de euros, qualquer coisa como todo o orçamento do estado para a saúde em 2019 (actualmente são cerca de 11 mil milhões). Isto são apenas as perdas do PIB. A somar a isto há todos os apoios que serão prestados ás empresas, actualmente no valor claramente insuficiente de 3 mil milhões. Ou seja, assim como quem não quer a coisa, num cenário optimista isto vai custar-nos pelo menos 13 mil milhões de euros. Este é o custo, da falta de preparação...

Andamos agora a comprar ventiladores à pressa, a expandir e equipar unidades de cuidados intensivos, "a criar hospitais de campanha", a recrutar médicos e enfermeiros e outros profissionais de saúde. Faz-me sempre lembrar a história do seguro automóvel. Fazemos um seguro contra terceiros, porque é mais barato, e esquecemos que no dia em que o carro levar uma cacetada à seria, gostaríamos de ter feito um seguro contra todos os riscos...

Então não teria sido mais sensato, preparar o serviço nacional de saúde ao longo dos anos? Quantos hospitais e unidades de cuidados intensivos e centros de saúde poderíamos ter construído com 13 mil milhões de euros ??? Dezenas... que teriam servido melhor a população no dia-a-dia, e nos garantiriam um elevado estado de preparação para quando a desgraça acontece... e pronto, nem vou falar no próximo sismo de Lisboa. A realidade é esta, temos 4,2 camas de cuidados intensivos por cada 100.000 habitantes quando a mediana europeia é 11,5 por cada 100.000, e no extremo temos a Alemanha com 29,2. Poderíamos ter no mínimo o dobro,  se o dinheiro fosse bem utilizado.

Mas a questão que está verdadeiramente aqui a baralhar o Tico e o Teco é outra: qual é a taxa de letalidade que nos faz mudar procedimentos, rotinas, e nos coloca a todos em casa ???

Não é uma questão nada simples. A gripe matou em Portugal 3000 pessoas o ano passado. Poderíamos ter evitado estas 3000 mortes se tivéssemos lavado as mãos, ficado em casa e colapsado a economia, mas não o fizemos. Talvez porque influenza já é um título batido e a comunicação social não lhe pega... este era novo, tem direito a telejornais inteiros. O número de mortos em Portugal, pelo dito cujo, conta-se no momento pela meia centena. Imagino que não chegará nem perto dos 3000... e agora? O que faremos na próxima época de gripe? 

Desconfio que vamos aprender muito quando isto passar. A futura análise serológica da população vai provavelmente revelar que a mortalidade afinal fica abaixo de 1% dos casos infectados (quanto mais testarmos, maior será o denominador, menor será a mortalidade), e nem toda a população foi infectada... Se algum membro do Governo ou do parlamento estiver a ler isto, recomendo uma sessão de reflexão... decidam se faz favor qual é o gatilho para fechar um país? 1%, 5%, 10% ?

E já agora, da próxima vez que pensarem em (des)investir na saúde, lembrem-se do CORONA...o País agradece, o pessoal de saúde agradece, o turismo agradece, os desempregados agradecem... e os pais dos alunos em casa também.



quinta-feira, 12 de março de 2020

O copo meio-cheio

Estamos naquele ponto de saturação onde já ninguém pode ouvir falar de #$%&#-19 e no entanto mais do que nunca é importante falar sobre o medo, a realidade, e a esperança.

Nos últimos dias várias pessoas me têm perguntado se mantenho o meu optimismo em relação ao que se está a passar, e a resposta é invariavelmente a mesma. Sim, acredito que não vai ser o fim do mundo. E não, não estou a desvalorizar os factos, mas sim a colocá-los em perspectiva. 

Revoltei-me contra o papel da comunicação social enquanto veículo do medo, e mantenho a opinião de que encontraram um filão de audiências que vai durar umas largas semanas. No entanto, já vejo por entre alguns jornalistas um esforço crescente para combater a desinformação e mais do que fornecer números, prestar informação útil a quem dela realmente precisa. Mas infelizmente, nos dias que correm, propagar a realidade, não chega.

A realidade nua e crua é no mínimo um gosto adquirido, e não é algo para a qual a maioria das pessoas esteja minimamente preparada ou equipada para interpretar. Aquilo que até há bem pouco tempo era um léxico quase exclusivo dos profissionais de saúde, quartos de pressão negativa, ventilação assistida, quarentena, isolamento, curvas epidemiológicas, solução alcoólica, hoje faz parte do quotidiano e das conversas de grande parte da população. Mas será que esta injecção forçada de realidade, de novos conceitos,  de novos medos está devidamente digerida ? Não me parece.

Levei vários anos, até que um copo com água pelo meio, me parecesse um copo meio-cheio. Durante muito tempo via os copos meio-vazios. Do ponto de vista meramente técnico, aquilo a que chamarei a realidade, o copo, de facto, tinha água pelo meio, mas aprendi que não havia qualquer vantagem em vê-lo meio vazio... pelo contrário. A ideia do vazio é como uma âncora que não nos deixa partir, impede-nos de ver mais além.

Reportar esta pandemia de forma nua e crua como vejo todos os dias, com números exactos que crescem a cada hora tem exactamente o mesmo efeito. A maioria das pessoas verá o copo meio vazio, e não há como escapar, é inato. Estamos a trazer à superfície o que há de pior da espécie humana... o egoísmo, o medo e a agressividade.

Portanto, vou continuar neste meu canto, a ver as coisas da seguinte forma: há 1,4 mil milhões de pessoas na China que não foram infectadas e o número de novos casos continua a diminuir de dia para dia. Há 60 milhões de Italianos que não foram infectados. Dos que se infectaram, e especialmente aqueles com mais de 80 anos, 86% estão em casa com os filhos e com os netos a ver televisão. As crianças continuam a não desenvolver doença grave. O número de infectados em Portugal ao dia de hoje não enche um autocarro da Carris. Somos 7 mil milhões de pessoas na terra, mas o número de infectados em todo o planeta, ainda não enche o maior estádio de futebol do mundo, e o número total de mortos até hoje, é inferior ao número de pessoas a bordo de alguns navios de cruzeiro. As medidas tomadas pelas autoridades de saúde em Portugal têm conta peso e medida. Há erros, mas há também lições aprendidas, e temos capacidade técnica para lidar com este surto, mesmo com os recursos disponíveis. Haverá escolas fechadas e tele-trabalho, mas há quanto tempo não têm tempo de qualidade com os miúdos ? Há quanto tempo não lêem um livro em conjunto ?  Façam isso ! Lavem as mãos como os cirurgiões ! E pensem que há meio mundo a investigar uma vacina, e outro meio mundo a trabalhar na cura. 

Lembro-me, aqui há uns anos atrás, daquela onda de patriotismo futebolístico que uniu todos os Portugueses á volta de uma ideia, de um sonho, de uma vontade de vencer... bandeiras em cada janela... esperança em cada esquina... Será que não é esta a hora para levantar a cabeça ? Acordem porra ! O copo está meio-cheio !!!






quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Coronavirus e porque vamos todos morrer...

Basta um título sensacionalista para enganar o povo.
Sim, vamos todos morrer... um dia. E isto, porque aparentemente e até hoje, nunca ninguém sobreviveu à própria vida, mas não me parece que vamos todos morrer com o coronavirus.


Diariamente tenho visto os meios de (des)comunicação social num verdadeiro e incauto festim de alarmismo público à conta deste coronavirus. Imagino que os mesmos não façam a menor ideia do mal que estão a causar e ainda não vi nenhum esforço para acalmar as hostes. Estamos no limiar do ridículo e não há ninguém que se atreva a dizer que o rei vai nu.

Pior, a comunicação social ainda não percebeu que à sua conta os politicos estão a ser pressionados a tomar decisões estúpidas para não parecer que não fizeram nada...

Caro e incauto leitor atraído a este blog pelo titulo sensacionalista, aqui fica a minha mensagem: Todos os anos os virus relacionados com a gripe viajam de este para oeste, a partir da Ásia, para a Austrália, Europa, África, América do norte e América do sul... e é assim TODOS OS ANOS !

TODOS OS ANOS os virus da gripe infectam entre de 5% a 15% da população mundial, com cerca de 3 a 5 milhões de infecções graves e cerca de 500.000 mortos !!! TODOS OS ANOS temos uma PANDEMIA ! SIM ! VERDADE !

No ano passado, 3.000 pessoas morreram em Portugal devido à gripe, 11.000 pessoas morreram em Itália, e nos últimos 5 anos, 85.000 pessoas morreram no Reino Unido... devido à gripe !!!

Aconselho vivamente a olhar para a letalidade de virus comparáveis... 
MERS - 34%
SARS - 10%
Gripe 1918 - 2.5%
Covid-19 - 2.3%

Mas poderão dizer... 2.3% ainda é um valor alto. Sim é verdade, e de facto a mortalidade só pode ser calculada após o final da epidemia... mas é tudo uma questão de fazer contas e apresentar os resultados de forma compreensível, senão vejamos:

A cidade de Wuhan, epicentro da infecção tem cerca de 11 milhões de habitantes, e até agora registaram-se cerca de 78.000 casos, ou seja 0.7% da população, sim, leram bem, basta fazer as contas. Agora olhemos para a população chinesa... 1.4 mil milhões de pessoas... e 78.000 casos... logo, 0.06% da população foi infectada, e já lá vão 3 meses de surto.

De facto a mortalidade em pessoas mais idosas (acima de 80 anos) é relativamente elevada e ronda os 14.8%, mas atenção porque este número quer dizer que se a pessoa for infectada tem esta probabilidade de morrer... Acontece que se eu viver em Wuhan, no epicentro da epidemia, tenho 0.7% de probabilidade de me infectar e, se me infectar, tenho 14.8% probabilidade de morrer, se tiver mais de 80 anos. Ou seja uma pessoa de 80 anos em Wuhan tem 0.1% de probabilidade de morrer devido ao coronavirus (0.7% x 14.8%). Agora façam as contas para as outras faixas etárias, e imaginem que não estão no epicentro... porque de facto, não estão !

Meus senhores, sim vai ser uma pandemia, como todos os anos, e não, não vale a pena fazer nada de diferente em relação ao que já devíamos fazer todos os dias, isto é medidas de higiene básica, como lavar as mãos com frequência e proteger a boca com um lenço quando espirramos. E sim, a esmagadora maioria das pessoas infectadas vai ter aquilo que tradicionalmente chamamos uma constipação, e sim, muita gente nem vai perceber que já tem o virus.

Portanto, como eu costumo dizer, vale pelo esforço, e à conta disto estamos a testar mecanismos que um dia podem vir a ser necessários para algo sério, mas dito isto queria lançar um repto à comunicação social... se querem mesmo continuar por este caminho, recomendo que no próximo inverno comecem a seguir a propagação do virus da gripe a partir do sudoeste asiático, entrevistem todos os portugueses que se constiparem no estrangeiro, e já agora passem o contacto ao nosso PR e MNE para também poderem mostrar a sua solidariedade e enviar uns lenços de papel e umas aspirinas para a febre. Contabilizem diariamente a mortalidade  e verão uma realidade que aparentemente desconhecem. Como dizem os ingleses... deixem-se de merdas e façam parte da solução em vez de fazer parte do problema.





sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A eutanásia, o homem e o médico

Preferia mil vezes não ter que escrever este texto, e só o faço porque o tema toca algo que considero um direito pessoal e intransmissível, a vida humana e a sua dignidade.

É importante começar por dizer que esta é uma questão de carácter filosófico, e como todas as questões filosóficas, podemos todos argumentar, mas não há certo nem errado. Há apenas opiniões, mais ou menos sustentadas num quadro de crenças, valores e conhecimento de causa.

É indiscutível o facto de que viver é uma opção. Qualquer pessoa pode optar por terminar a vida, quando bem entender e da forma que entender, sem que para isso tenha que pedir autorização ao estado. Da mesma forma, o estado não pode condenar essa decisão. Que ridículo seria um texto legal com a seguinte forma: "Pelo crime de suicídio, o réu é sentenciado a 2 anos de prisão".

Partindo portanto do pressuposto de que a opção de viver é pessoal, e por inerência, também o direito à morte, coloca-se aqui a questão do papel do médico. Ora os médicos são seres humanos tal como os doentes, e são todos diferentes entre si, tal como os doentes. Dito isto, aquilo que aqui escrevo, é a minha opinião pessoal como médico, num país onde a liberdade de expressão ainda é possível.

Serei contra a eutanásia, no dia em que toda as patologias tiverem cura. Até lá, acredito que, no quadro clínico adequado, a vontade do indivíduo na posse de todas as suas faculdades mentais deve ser respeitada.

Infelizmente, e falo por experiência própria, eu e outros médicos, somos confrontado com inúmeras situações nas quais, por doença ou traumatismo, a qualidade de vida e a dignidade humana ultrapassaram o limiar do tolerável para esse mesmo indivíduo.

Viver sem dignidade, sem qualidade de vida e talvez o mais importante, sem esperança, acreditem, é uma forma de tortura que não desejo a ninguém. Estar preso a uma vida que nada acrescenta, que não tem melhora possível, e que se degrada a cada dia, é uma dor que apenas poderá ser descrita como indiscritível.

Enquanto médico, jurei respeitar a vida e aliviar o sofrimento. Mas o que fazer quando não podemos atender aos dois em simultâneo ? O que fazer quando a medicina nada mais tem a oferecer e o doente pede para acabar com a tortura ? E se o pedido vier de alguém que amamos muito ? E se for aquele doente com quem temos o privilégio de uma relação aberta, franca, e de total confiança ? E se o doente formos nós próprios, médicos, conhecedores do que nos espera... ? Vamos obrigar a pessoa a um sofrimento para o qual não temos solução ? em nome do quê ???

Acredito piamente, que obrigar alguém a viver contra a sua vontade, num cenário sem opções, devia ser um crime, tal como a tortura o é, mas infelizmente, a nossa herança judaico-cristã (que, diga-se de passagem, tanto torturou no passado), na melhor das hipóteses, tolda-nos o pensamento. Somos quem somos, fruto da nossa cultura e referenciais de valores. 

Talvez porque decidi dedicar a minha vida à causa humanitária, tenho o privilégio de ser constantemente exposto a outras formas de ver a vida, o sofrimento e a morte. Acho que dar a opção de uma morte digna quando nada mais há a fazer, e é a vontade expressa pelo doente, é revelador de uma sociedade evoluída que se preocupa com os seus cidadãos. 

Não tenho filiação partidária nem clubista. Não posso, nem nunca ousaria falar por todos os médicos. Tenho bons colegas e amigos, excelentes profissionais que muito prezo, que não concordam comigo, mas como comecei por dizer, pode não haver certo nem errado, mas é importante que haja, o direito de optar. 




quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Dream Job

Algures no passado escrevi por aqui que mais cedo ou mais tarde, este blogue ia parecer morto... qual assistolia premeditada pelas circunstancias da vida. Assim foi. Faço portanto hoje o papel de Deus ou Médico (consoante a preferência do eventual leitor, se ainda os houver) e eis que ressuscitamos o dito cujo, sabendo porém que nada é eterno, a não ser o amor, a estupidez humana... e talvez a morte.
Não estou ainda preparado para falar dos últimos três anos e meio da minha vida, e talvez não seja este o lugar para o fazer. Falarei portanto sobre os últimos cinco meses, e como após uma overdose de cirurgia de guerra no Congo, dei por mim a sentir que era altura de abraçar um outro "dream job". Digo outro, porque na verdade já tinha um. O inconformismo, a busca constante pelo próximo nível, a dúvida persistente e o desafio de perceber até onde somos capazes de ir são o maior inimigo do homem de família.

Abremos (?) então um sub-capítulo denominado "As coisas inúteis que eu aprendi sobre o mundo e sobre mim próprio, incluindo o facto de me começar a faltar vocabulário em português"

Aqui vai. Pagam-me em dólares, transferem-me em francos suiços e levanto em euros. Tenho os bolsos cheios de moedas que já não sei de onde vêm. De vez em quando esvazio tudo para um saco para um dia fazer qualquer coisa artística com elas. As notas, que habitualmente também não valem quase nada, vou guardando para uma próxima viagem mas depois consistentemente esqueço-me de as levar e acho que vou acabar por fazer um quadro. Tenho dois telemóveis com três cartões SIM, de três países diferentes.
Não tenho casa. Passei a viver em hotéis. Confesso que era um sonho de jovem adulto inconsciente. Os quartos e as camas de hotéis sempre me fascinaram. As toalhas imaculadas os lençóis brancos, os colchões fofinhos, as almofadas, os frasquinhos do shampoo e os sabonetes... mas hoje quando me perguntam onde moro não sei responder. Quando me perguntam onde passo mais tempo, também não sei responder. Quando em desespero de causa desferem a questão fatal, onde estão as tuas coisas ? respondo que algumas estão na garagem dos meus pais, e as outras andam comigo a passear pelo mundo em duas malas. Sou um nómada dos tempos modernos, finalmente e literalmente um homem de mochila ás costas como diz a Marta.

Nem tudo são rosas. Descobri uma série de preocupações e irritações. É preciso planear a lavagem da roupa, porque a mesma tem que estar lavada e entregue antes do check-out, porque as malas são pequenas e logo a autonomia higiénica não ultrapassa os dez dias. Em alguns hotéis a ausência de tomadas junto à cama é desesperante. O telemóvel fica a carregar longe, e a tentativa de fazer snooze obriga-me a levantar o que logo à partida inutiliza esta maravilhosa função inventada para quem como eu aprecia o prazer de não se levantar nos primeiros minutos depois do toque do despertador. É paradoxal levantar-se para fazer snooze. Adicionalmente irrita-me acordar, e antes de abrir os olhos não saber onde estou. Logo eu que começo devagar de manhã... desata-me o cérebro a carburar intensamente para perceber em que país, em que hotel e em que dia estamos. Já nem vou referir o facto de que no médio oriente o fim de semana é à sexta e ao sábado, e o domingo é o primeiro dia de trabalho... algo que até hoje não consigo processar do ponto de vista das emoções mais primarias. Comecei a comer coisas estranhas ao pequeno almoço, tipo salada, arroz, sushi ou legumes. O porco e os derivados desapareceram da dieta. Em vez disso há humus, falafel, pepinos e azeitonas. Os sumos do pequeno almoço dão-me refluxo gastro-esofágico. Voar acentua o refluxo. Voo tanto que ja ultrapassei o limite do Start Alliance Gold Super Elite VIP Exclusivo Hiper Mega Especial... portanto evito os sumos mas tenho que voar com o omeprazol... e uma pequena farmácia. As aventuras gastronómicas já são relativamente bem toleradas, devo estar imune a quase tudo, mas pago um preço alto pelas mazelas musculares da classe económica.

Apesar de haver um certo equilíbrio entre o numero de homens e mulheres no mundo, quando voo, habitualmente tenho um homem ao lado. Há uma certa ordem estatística que me esforço inutilmente por tentar compreender, mas é assim. Voo quase sempre à janela na parte de trás do avião. A minha lógica interna diz que terei mais possibilidades de sobreviver em caso de queda... seria mais uma história para contar. Entretanto percebi que já não consigo ler sem óculos no avião. Não ha distancia suficiente entre as duas cadeiras para afastar a revista ou o jornal ao ponto de se tornar legível. Já tenho óculos espalhados em todo o lado. O telemóvel já tem as letras no máximo. Talvez seja da falta de vista, mas claramente a beleza e a forma física das assistentes de bordo deixou de ser um critério de seleção nas companhias aéreas. De todas as companhias que já voei, as assistentes mais feias do mundo são da Air Niugini... não há como não reparar... mas felizmente não tenho voado muito por ali. A beleza ainda é um critério em algumas companhias ricas do golfo, mas no oriente médio, onde me encontro, a maioria das assistente são homens com ar de poucos amigos. A turbulência não me afeta e a comida já a vejo como caseira. Comprei uns phones XPTO com cancelamento (?) de ruído e é como se estivesse em casa. O meu rabo já tem o formato de uma cadeira de classe económica e a bexiga é mega porque gosto de ir à janela e não gosto de incomodar o(s) homem(s) do lado quando estão a dormir. Estou adaptado.

Conheço os procedimentos de segurança de dezenas de aeroportos. O meu cinto não apita. Quase ninguém detecta os líquidos no necessaire. Sim, estão num saquinho de plástico, mas já não tiro para fora. Tem líquidos? Não. Ocasionalmente, habitualmente em Lisboa vá-se lá saber porquê, descobrem-me o necessaire. Digo que estão no saquinho da praxe, não sabia que era preciso tirar. Contas feitas a todos os voos, quase nunca tiro, excepto em Lisboa... têm uma fixação qualquer com os líquidos. No Cairo obrigam-me a descalçar umas duas vezes pelo menos entre a entrada do aeroporto e a porta de embarque. Dá-lhes prazer ver as pessoas descalças. Já não uso meias rotas. Fazem isso com toda a gente, mas depois são capazes de meter tudo no RX e não está ninguém a olhar para o ecran. Numa coisa são bons. Caçar isqueiros. Ja tentei passar mais de uma dezena de vezes com eles de todas as formas e feitios mais ou menos camuflados. Não adianta. Estão focados naquilo. E são bons na deteção de isqueiros. Ficam irritados, quase que obcecados. É uma espécie de ordem fundamentalista que se dedica à caça dos isqueiros, mas assim que se passa a segurança vira-se à esquerda e tem uma sala de fumadores onde toda a gente acende cigarros com isqueiros. Passei a levar fósforos e já não me irrito. Em Israel, onde a cultura de segurança é apertada, passo pela segurança como se fosse invisível, ninguém me liga. Não percebo.

No mesmo dia sou capaz de trabalhar em ingles, francês e espanhol. O meu árabe não ultrapassa a linha dos cumprimentos a que a etiqueta obriga, mas ninguém se incomoda com isso e ficam surpreendidos por eu conseguir ler e escrever em árabe sem saber o que estou a lêr ou escrever. Sou uma espécie de contra-analfabeto. Não uso taxis no médio oriente é roubo certo, quase como em Portugal. Usava Uber mas os satélites para a geo-localização da Uber ficaram marados com as areias do deserto e o desencontro com os motoristas passou a ser a regra. Mudei para o Careem, o Uber dos árabes, com satélites adaptados ás agruras da vida por aquelas paragens. No Cairo não há passadeiras nem semáforos. Atravessar uma rua a pé é um ato de fé, muita fé. Ensinaram-me o truque de atravessar ao lado de sotavento de um qualquer personagem local, de preferencia obeso e com ar de quem sabe o que esta a fazer. Tentei algumas vezes mas é arriscado porque os carros não abrandam nem se desviam. Vou para o trabalho com o Careem... são 5 minutos a ouvir passagens do Corão ou música tradicional. Entenda-se por tradicional qualquer musica que inclua a expressão "Habibi, habibi". Deixei de correr na rua. Aprendi a apreciar as passadeiras rolantes dos ginásios. Correr na rua no médio oriente é meio caminho andado para ser abatido a tiro ou deixar toda a gente em pânico. Conheço sítios fantásticos para comer, petiscar ou beber em Ramallah, Gaza, Oman, Beirute, Aman, Islamabad ou Kabul... mas o que me dá saudades é o entrecosto grelhado o cozido e o bitoque.

Eu sei... é um modelo de vida esquisito, a familia não percebe, os amigos não compreendem, e eu próprio questiono... mas o que seria a vida sem um dream job ?





sábado, 19 de abril de 2014

O dia da morte de Lual Lueth

Lual Lueth, 32 anos, morreu ontem à noite, sexta-feira santa, mas creio que não ressuscitará amanhã.
O Lual levou consigo o Gabriel Garcia Marques, e o mundo ficou mais pobre. A culpa não é do Gabriel que deixou ao mundo uma obra imensa, património da humanidade para todo o sempre, a culpa é do Lual, que deixou um filho menor, sozinho no mundo.

O Lual nem era militar, era civil. A cidade onde morava, Malakal, já mudou de mãos seis vezes nos últimos três meses. No dia 25 de Março, uma bala de Kalashnikov, custando pouco menos de 20 cêntimos, entrou-lhe pelas costas e perfurou-lhe o cólon. Nesse dia escreveu-se o seu destino.

Foi evacuado no dia seguinte para Juba, capital do Sudão do Sul, onde os cirurgiões do CICV o operaram in extremis. O caso era tão mau que pouco mais fizeram que trazer à pele o cólon perfurado, sob a forma de uma colostomia. Lual aguentou-se... estoicamente !

Aqui nao há cuidados intensivos, não há TAC nem rx, não há análises para além do valor da hemoglobina, nao há microbiologia, não há balanços hídricos, nao há sangue, não há alimentação parentérica, não há antibióticos de ultima geração, não há ventiladores ou monitores de sinais vitais, não há câmeras hiperbáricas, raramente há água e por vezes nem electricidade... Durante a noite praticamente nao há enfermagem, e todos os medicamentos injectáveis tentamos administrar em tomas únicas ou pelo menos duas vezes ao dia por forma a coincidir com o nosso horário de entrada e saída do hospital. Aqui nao há nada, para além de muita dedicação, e espirito de sacrifício.

Operei o Lual pela primeira vez há cerca de duas semanas, no primeiro dia que entrei no hospital. Tinha desenvolvido uma fasceite necrozante. Uma "bactéria carnívora" espalhava-se agora pelo lado direito do seu corpo "comendo" tudo o que encontrava pelo caminho. Apesar de todos os esforços a infecção espalhava-se de dia para dia até que já perto do fim, em alguma zonas, do abdômen, era possível ver as ansas intestinais, porque já nao havia parede. Todas as costelas do lado direito estavam descascadas até ao osso. Entre o joelho e a axila, ja nao havia pele, e o pouco músculo que restava era consumido de dia para dia até chegar ao osso. Operei-o oito vezes em duas semanas. Desfiz a colostomia, tirei-lhe metade do cólon, anastomosei o restante. Ao longo dos dias, consegui encerrar o abdômen e restabelecer o transito intestinal. Fui retirando todos os tecidos mortos, limpando, desbridando, lavando... Nos dias de bloco o cheiro era quase insuportável.

O Lual saia das cirurgias quase morto... Porque já entrava quase morto. A primeira vez que o operei tinha 3,7 de hemoglobina. Fizemos uma vaquinha e entre os membros da equipa fomos dando sangue à vez. Já ia com 8,2 e eu era o próximo. 

Todos os dias de manhã, era o primeiro doente que eu ia ver. Tenho a sua história toda documentada fotograficamentente, mesmo nos dias em que nao o operava. Ele ficava no nosso recobro, uma pequena enfermaria de cinco camas dentro do bloco operatório. Deitado aos pés da cama, o filho enxotava as moscas e tratava do pai quando não havia mais ninguém para o fazer. Um dia as enfermeiras resolveram mudá-lo de sítio e eu quase tive um desgosto ao ver a cama vazia...

Nos dias seguintes ás cirurgias o Lual despertava para a vida. Um dia abriu os olhos e começou a falar em inglês. Nós brincávamos a dizer que tinha sido por receber sangue de uma neozelandesa, agora iria ter um sotaque Kiwi. Nenhum órgão falhou isoladamente ao longo destas quatro semanas, mas desde há uns dias para cá, subjectivamente, sabiamos que estava pior. Os nossos melhores antibióticos nao são os melhores antibióticos... e numa das ultimas induções anestésicas fez uma pequena aspiração... que três dias depois se transformou numa pneumonia.

Operei-o ontem pela ultima vez e hoje, vinte e quatro dias depois de ter sido baleado, quando o fui visitar, à espera da tradicional melhora ele já nao estava. Nem o filho... 
e ninguém trocou as camas. Estive uns segundos ali a olhar para o local onde era suposto ele estar. Os olhos marejaram. Ele esteve sempre morto, desde o principio, eu é que não sabia.

Virei as costas quando um enfermeiro local me tocou no ombro. Doutor, preciso que venha à urgência selecionar os doentes que quer operar... recebemos trinta baleados, e vêm mais catorze a caminho... Hoje só conseguimos operar oito...




sábado, 25 de janeiro de 2014

Tempos modernos, not !

Lembro-me como se fosse ontem... mas foi em 1987 que abriu o primeiro hipermercado na região de Lisboa, o Continente da Amadora.

Durante os primeiros meses após a inauguração, uma ida ao Continente era programa para um dia inteiro. Havia filas para entrar, filas para circular no interior e filas para pagar e filas para sair. Era como se dia após dia, Lisboa se encaminhasse em peso para o Continente num ciclo contínuo, sem tréguas, sem momentos de baixo movimento. Como se de um espectáculo se tratasse, ninguém ia sozinho ao Continente, levava-se toda a família, não fossem estes perder a oportunidade de usufruir de tão singular passeio.

Levei mais de um ano até ganhar a necessária coragem para tamanha aventura. O timming fora escolhido na perfeição, poucos dias depois da inauguração do segundo grande hipermercado da região, o Jumbo de Alfragide, situado a escassas centenas de metros do primeiro.

Na minha cabeça, se toda a população de Lisboa estava no Continente, com a inauguração do Jumbo, esta massa humana haveria de dividir-se por dois, tornando a minha ida ás compras um processo muito menos doloroso. Enganei-me. O Continente continuava cheio, e o Jumbo estava a abarrotar. Ainda hoje ando a digerir este fenómeno... de onde surgiu tanta gente ?!

Passaram-se vários anos, e entretanto comecei a fazer urgências nos hospitais. Na época, havia poucos serviços de urgência na Grande Lisboa, e estes estavam invariavelmente cheios. Não havia triagem de Manchester, mas havia o olho do maqueiro que ao ver um doente com mau ar na sala de espera, tratava de avisar os médicos que aquele devia ser atendido assim que possível. Era uma triagem com muitos poucos falsos positivos e os maqueiros deste pais salvaram muita gente in extremis.

À medida que novos hospitais foram abrindo, tornava-se obvio que quanto mais nao fosse pela simples divisão administrativa de base geográfica, o volume de doentes haveria de diminuir. Enganei-me novamente. Na verdade, a abertura de um hospital era imediatamente seguida por uma ligeira diminuição do número de doentes que agora passavam a pertencer a uma outra área, mas em poucas semanas os números voltavam ao normal ou até, muito frequentemente, de forma quase paradoxal, ultrapassavam os números anteriores. Lembrei-me do Continente. As urgências, afinal, eram como os hipermercados. Eram, não... São!

Abriram-se as portas, facilitou-se o acesso, democratizou-se a assistência... e o povo abusou !

Mas já nada me espanta. Num pais onde os cozinheiros passaram a ser Chefs, os cabeleireiros, Hair Stylist, os porteiros, seguranças, e os contínuos agora respondem sob a designação de auxiliares de acção educativa, algo haveria de correr mal...

Os Hospitais responderam à letra. Os bacharéis de enfermagem passaram a licenciados, os licenciados em medicina agora são mestres e os maqueiros tornaram-se auxiliares de acção médica. Já nao temos doentes, temos utentes, e para os utentes, a urgência é uma espécie de loja de conveniência aberta 24h, ali ao virar da esquina.

Longe vão os tempos onde os galos na cabeça tratavam-se com gelo, em casa, e as pequenas feridas levavam tintura de iodo e um penso rápido, também em casa. Hoje não existem galos, existem hematomas epicranianos e os doentes querem fazer um TAC antes de fazer gelo. Hoje é frequente que um doente, após uma cabeçada, se apresente na urgência com uma simples dor de cabeça, e quando questionado sobre o que tomou para a dor de cabeça, a resposta é invariavelmente, nada. Qualquer esfoladela ou nódoa negra dá direito a rx, e os pensos são feitos no Centro de Saúde, não vá o diabo tecê-las. Mas até isso já não acho estranho. Antigamente as bebedeiras tratavam-se na esquadra da polícia... hoje é na maca do Serviço de Urgência. O mesmo se passa com a obstipação. Nunca tratei tanta obstipação na minha vida como nos últimos anos. Sim é verdade, a obstipação é para um número crescente de utentes, uma patologia de urgência e eu tornei-me um verdadeiro desentupidor de canos... Após 14 anos de formação específica e diferenciada, dou por mim a prescrever laxantes como apenas um especialista o saberia fazer. Pai, perdoa-me, a cirurgia também já nao é o que era...

Mas foi apenas nesta última noite que me senti verdadeiramente presenteado com a cereja no topo do bolo. Tinha acabado de cair no cadeirão por volta das 3.30 da madrugada. 10 minutos depois, uma urgência. Um homem, de 45 anos, com dor abdominal. Perguntei-lhe à quanto tempo tinha a dor... Respondeu-me prontamente, à meia-hora !!!! À meia hora e já está no hospital ?!?!? A minha educação impediu-me de partir para a agressão... Então e nesta meia-hora, a dor, melhorou, piorou ou está na mesma ? Por acaso melhorou... depois que deitei uns gases... Gases ???? Ó meu amigo, gases era antigamente. O senhor acabou de expelir uma combinação altamente tóxica de hidrogénio, metano e dióxido de carbono... e sabe que mais...ainda bem que o fez no Hospital !

Atirem-me areia para os olhos... ou parem este mundo... eu quero sair.