quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Missionary Man - Day 2

Voo de avioneta para Bor, logo de manha cedo. Quatro passageiros mais carga. Voo tranquilo a baixa altitude, 40 min para norte... A selva africana, os pântanos, o Nilo Branco... algumas aldeias perdidas no meio do nada... é impressionante.

O aeroporto, melhor, o aeródromo, mais concretamente a pista de terra batida estava verdadeiramente movimentada entre avionetas e helicópteros de todos os tamanhos (Mi 6 a Mi 26... maior o número maior o tamanho) alguns dos quais só tinha visto na televisão, verdadeiras bestas de carga das várias organizações que estão no terreno. UN, WFP, CICR, MSF, etc, etc...

Se Juba era África profunda, Bor é ainda mais profundo. Não ha estradas alcatroadas, não há electricidade, e água depende...
Deixei as coisas no "hotel". Não consigo bem descrever... ha uma porta com chave e um quarto e uma cama e um mosquiteiro e uma casa de banho e uma ventoinha de tecto... Mas água e electricidade só de manha ou à noite.
Encontrei-me com a minha equipa. Anestesista, Italiana, 50s, algumas tattoos, batida nestas coisas, enfermeiro de bloco, Ugandês e enfermeira de enfermaria, Queniana, ambos já com larga experiência, Paquistão, Congo, Ruanda, Afeganistão...

Decidimos ir ao "hospital" fazer a visita medica aos doentes. O que posso eu dizer ? É como nos filmes, camas sem lençóis, suportes de soros improvisados com canas, tracções esqueléticas em cada esquina, um calor abrasador...

Passaram-me cerca de 10 casos. Desde fracturas da mandíbula com perda de osso até uma criança gravemente queimada, passando por inúmeros baleados em múltiplos locais o ultimo dos quais chegado na noite anterior com uma bala que lhe fracturou o colo do úmero...Decidimos operar 3 hoje  e 3 amanha, mais uns quantos pensos.

Peço para ligarem o gerador do hospital para que se possa por a luz do bloco a funcionar, porque sem luz, uma vez que é um espaço interior, não se vê nada. A minha anestesista a semana passada esteve várias horas a dar ao ambu...

Não consigo decrever o "bloco operatório"... Mas lá fizemos o que tínhamos a fazer com base em muita ketamina, valium, coragem e espirito de sacrifício. Acho que ficaram bem operados. Amanha veremos como evoluem.

Acabamos tarde. À frente do hospital um "bar" chamado "big dad". Teoricamente "seguro" ou seja " diarreia não obrigatoria"... Experimentei o kebab. A fome era tanta que me soube a bife do lombo.

A seguir, reunião com o director do hospital, para articular procedimentos pos-op, nomeadamente as tomas de medicação e apoio ao bloco. 

Amanha, continuamos. Na sexta de manha de partimos de helicóptero para o acampamento de Dorein. O meu pai tinha razão... não há nada de romântico nisto... apenas uma dureza indiscritível, no limiar das condições de trabalho. Ainda estou meio abananado com o dia de hoje.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Missionary Man - Day 0

Para a maioria dos Portugueses, o Sudão do Sul é um pais imaginário que só existe na televisão à hora dos telejornais. Apagada a televisão, vistas as imagens, tudo o que fica é blá, blá, blá, violência, blá, blá, blá, golpe de estado, blá, blá, blá, tiros, blá, blá, blá, tribos... E pronto, é o Sudão do Sul.

Eu próprio não estou convencido da sua existência...

Logo pela manha, auto injectei-me com uma dose simpática de Lovenox (love-nox, amor em versão depot :) uma vez que estando com uma perna a 75% não me apetece nada ser um cirurgião trombo-embólico. 

Aeroporto de Lisboa em modo de introdução dos sistemas de self check-in... cada vez temos menos contacto com as pessoas, e cada vez há mais pessoas a precisar de assistência para lidar com os sistemas que foram introduzidos para reduzir o número de pessoas... Está tudo louco !

Boa noticia do dia. Lisboa - Frankfurt em classe executiva. Imagino que os meus novos patrões tenham adiantado um bónus de primeira missão.
É classe executiva sim sr, mas german style. As hospedeiras são irrepreensíveis na sua função, mas nota-se logo a economia de sorrisos e de presença... falta ali uns genes latinos...

Chegada a Frankfurt, sob chuva.
Para mim, é impossível circular neste aeroporto sem recordar o meu primeiro parto "on the wild" que fiz aqui, a uma matrona Queniana XXL, numa casa de banho, em 2005... mas isso é uma história para outra ocasião.

Ia com intenções de me encontrar com um companheiro, piloto de "outras guerras" que por sinal também estava em transito à mesma hora, mas deixei-me levar por ideias pre-concebidas que amiúde nos induzem em erro. Tendo quase 2 horas de escala, e tendo aterrado no terminal 2, o mesmo da partida, assumi que teria tempo para tudo.
Em primeiro lugar, à medida que circulamos no terminal vamos passando por uma serie de pontos de não retorno, o que imediatamente tornou impossível o nosso encontro. Em segundo lugar, apesar de ser apenas o mesmo terminal, para ir das portas "A" para as portas "C"... nao se vai a pé... Vai-se de comboio ! É outra escala.

Chegado ás portas "C", o meu cérebro já em modo hipoglicemico, assumiu que a minha porta de partida era a C19. Andei, andei, andei, andei até achar que nao havia mais aeroporto para andar, e finalmente chego a um controle de passaportes. Rio ? São Paulo ? Pergunta-me o policia... nao, nao, Addis Ababa, respondo eu assumindo que o meu look estaria algo sul americano... Uma vez que nao sou procurado pela Interpol, e o meu passaporte nao fez disparar nenhum alarme ( tempos houve que o fazia, razao pela qual estive em tempos detido pela Policia Federal no Brasil.... adiante...) ele olhou-me assim meio de lado, e mandou-me seguir. Continuei a andar, afinal ainda havia mais aeroporto, e quando finalmente chego a um local onde nitidamente não havia mais nada, eis que surge um controlo RX. Rio ? São Paulo ? não, não disse eu, Addis Ababa, mas que raio estes hoje a embirrarem que sou da América do sul... Addis Ababa! o policia encolheu os ombros como quem diz, pois, realmente, com essa cor, bem podes ser etíope. Tira cinto, tira relógio, tira telemóvel, tira moedas do bolso, tira ipad, tira o saco com os frasquinhos de 100 ml... Passo sem apitar, mas sempre com o receio que aquela moeda de 2 cêntimos esquecida no bolso, me faça alvo de uma busca das cavidades corporais por um qualquer matulão ariano... Não apitou. Põe cinto, põe relógio, guarda o telemóvel, guarda as moedas, arruma o ipad e o saquinho dos frascos...
Andei 10 metros e agora controle de cartões de embarque... Caro Sr, o sr está no sítio errado. A sua porta é a C09. What ? Sim, sim, C09, tem que andar para trás... olhei para o relógio e já não havia muito tempo. Desatei a andar em modo "coxo com pressa" que é o melhor que nesta altura ainda consigo fazer... Andei, andei, andei... E andei cerca de 1km ou para ser mais exacto, 20 min em modo coxo, coxo com pressa.
Novo controle de passaporte, novo rx, tira cinto, tira relógio, tira telemóvel, tira moedas do bolso, tira ipad, tira o saco com os frasquinhos de 100 ml... Passo sem apitar, ainda não foi desta a busca das cavidades, põe cinto, põe relógio, guarda o telemóvel, guarda as moedas, arruma o ipad e o saquinho dos frascos... Uff, finalmente no avião e uma dupla estreia: Boeing 787 Dream Liner, e Ethiopian Airways... Pois...

Lá me instalei na minha cadeirinha, com as costas muito direitinhas, muito pertinho do banco da frente... Apesar do avião ser grande, na classe económica é tudo mini. Obviamente trata-se se uma clara provocação estilo mete nojo, fazem-nos entrar junto à primeira classe, que é para vermos onde não vamos dormir ! Aquilo irritou-me ! Ainda para mais, porque tinha acabado de passar por um placar publicitário da Singapore Airways, onde anunciavam a nova classe Suite Executive ! Com cama de casal e lençóis ! O mundo não é um local justo... e nunca, nunca o será !


Missionary Man - Day 1

5366 kms depois, eis que aterramos em Addis Ababa. Tirando a dor no pescoço pela posição viciosa, e as pernas hiper inchadas, o avião é de facto um espanto... e muito silencioso. Continua a espantar-me a precisão destes aparelhos. A duração prevista do voo era de 6h e 6min, fizemos 6h e 7min.

Chuva em Addis Ababa, e um terminal de aeroporto digo de um filme. Mantenho a minha opinião que os aeroportos dizem muito sobre os países, e este não era excepção. As lâmpadas fluorescentes sem balaustres, um bar / cozinha aberta onde as duas opções de bebida são, Coca-Cola em garrafa de vidro com carica oxidada ou água... E quanto ao preço, depende do que temos... Se for dólares é um dólar, se for euros, é um euro !

Assim que pude tomei posse de uma cadeira que dava para esticar as pernas. Eram poucas e como tal a esta não mais a larguei. Foram 5 horas dolorosas. Ia passando pelas brasas no meio da multidão, treino adquirido nas urgências, mas de vez em quando acordava com uma corrente de ar que me fez lembrar que não tinha posto nenhum polar na mochila. A este respeito devo dizer que a experiência levou-me a assumir que iria perder a bagagem do porão, porque sim, ouve tempos em que isso era uma constante, e como tal preparei a mochila para 5 dias de autonomia de roupa, comida e higiene pessoal... 

Voo para Juba, num bimotor Q400. Pelo caminho conversa com um americano que anda cá e lá...
Nada me preparou para o choque de Juba. Saída do avião, e sigo aqueles que parecem saber para onde se dirigem. Era uma barracão (não em sentido figurado) onde estava uma centena de pessoas, acotovelando-se para pagar o visto, controle de passaporte e recolher as bagagens que eram lançadas por uma janela para uma pilha enorme no meio da sala... Indiscritivelmente África profunda.

Optei por não ligar à bagagem (não iria chegar de qualquer maneira) e fui para a fila do passaporte, quando finalmente chegou a minha vez... Estava na fila errada, era preciso primeiro pagar. Fui para a fila dos pagamentos. Conheci uma alemã e um brasileiro que trabalham para os MSF, e aparentemente vamos estar juntos algures no mato... chega a minha hora de pagar e as minhas notas de 50 dólares, tinham uma pequena mancha em um dos cantos motivo pelo qual não eram aceites... Inacreditável... lá me safou o brasileiro que trocou-me o dinheiro por uma nota aceitável.

Escusado será dizer, que quando isto terminou cerca de 1 hora depois, eu era o único passageiro do terminal... E olhando para trás, vejo a minha mala ali sozinha, à minha espera. Moral da história, aqui é tudo com calma... Muita calma.

Cá fora, já o motorista me esperava para levar-me à delegação. 5 briefings e uma vacina contra a raiva depois, eis-me no Rainbow Hotel, a jantar e pernoitar num quarto com mosquiteiro antes de amanha seguir cedo de avioneta para Bor...sim... porque é a época das chuvas e as estradas estão intransitáveis e não ha nenhum cirurgiao na cidade desde há 4 dias.
Os meus companheiros dos próximos dias são das tribos Dinka, Nuer e Murle... Que se guerreiam por causa do gado...Daqui a 8 dias, helicóptero para Dorein, no meio da selva, onde as preocupações de acordo com o briefing são os leões as hienas e as formigas... Enfim...




quinta-feira, 25 de julho de 2013

Terra à vista - diário de uma travessia atlântica

Dia 1
Ainda estou a pensar se vou ou não fazer um mini diário de vida a bordo... O meu pai sempre recomendou que o fizesse, mas nunca o fiz. Talvez seja desta...
De Lisboa aos Açores / Ilha de Santa Maria
Largada da BNL pelas 11h - sábado dia 20 de Julho
Pano em cima para sair a barra bonito :)
Passagem pelo Bugio, e pela porta de casa para dizer adeus !
A ondulação do costume assim que se entra no mar alto... e pouco depois, os cadetes estão na alheta a pagar a noitada da véspera... Consta que o Rei Greg os chamou à borda, e, à vez, lá vão fazendo as "suas oferendas"...
Almoço, arroz de pato... Made in Base Naval, e que bem que soube... Soube a pato !
Tarde para afinar procedimentos e por a conversa em dia... Rumo definido. Aproveitei e pus também o sono em dia, era preciso testar a cama e perceber se estava pronta para a viagem ;) parece que sim, adoro este balanço.
Jantar, bifanas e salada. Healthy food !
Banho a sério só daqui a 6 dias... é preciso gerir a água doce.


Dia 2 - Domingo, 21 de Julho
Estamos divididos em Quartos de 4 horas... Alguém tem que estar acordado e atento ao que se passa lá fora. 
Quarto das 04h ás 08h. Noite escura. Quando o despertador tocou nem queria acreditar que já eram 04h...
Quatro horas a olhar para o tráfego, a navegação, o radar, o leme...
Céu nublado, vento caiu, mar acalmou, amanhecer cinzento
Pequeno almoço - sandes queijo fresco, um pêssego, taça de cereais
Ainda pensei voltar para a cama no final do Quarto, mas entretanto avistámos uma bóia laranja no meio do nada... Seria droga ?! Quando uma bóia no meio do oceano tem a seguinte inscrição: "virgem branca"... a primeira coisa que vem à cabeça é coca, o que atendendo ao histórico deste barco, nao seria nada de estranhar.
Pescámos a bóia com o croque, mas  acabámos com o cabo enrolado no hélice. Motores parados. O Comandante Rui, já a sentir falta de um banho... Voluntariou-se para o mergulho. Cabo desenrolado em 3 tempos.
Lavar os dentes e dormir que o corpo já pedia cama.
12.30 Lavar a cara mudar tshirt, banho dodot e pó de talco.
Quarto das 13h ás 15h
Almoço e música sempre a bombar... Estou fã deste regae e das colunas no exterior.
Tentamos por o pano todo em cima... Genoa, estai, grande e mezena... Dá uma bela foto, mas o vento rodou e caiu... Agora anda pelos 2 nós... 
Desvio da rota para bombordo para acompanhar o grupo que seguiu para Sul com o vento de ontem.
Grupo de baleias piloto a estibordo em rumo cruzado
Ainda ás voltas com as afinaçoes do radar para tentar encontrar as outras embarcações... por entre o ruído do mar...
22 graus... tempo de Açores
Prego no prato com salada para o jantar, nao sem antes abocanhar umas bruchetas pomodoro...
Por do sol regado a whisky e cajus... Muito bom !
Quarto das 21h ás 24h
Contacto visual com o farol de popa do Veleiro Força III
Mar de estanho. Lindo e indiscritível. Um ponto a cima do "mar de azeite".


Dia 3 - Segunda - 22 de Julho
Panquecas com açúcar e canela para abrir as hostilidades ao pequeno almoço. É o que vale ter uma cadete prendada a bordo. 1 copo de leite, 1 copo de farinha, 1 ovo... Done !!! Mnham mnham...
Hoje iniciámos nova rotação de quartos de 4 horas entre o comandante, o imediato e a minha pessoa.
Os cadetes tb se dividiram e acompanham-nos em grupos de 2
Quarto das 8h ás 12h - o meu primeiro do dia.
O céu começou encoberto mas com promessas de ir abrindo... O que de facto aconteceu.
Contacto radio com Força III e Azul III estão bem e relativamente perto, a cerca de 10 milhas
Contacto ComNav via satélite. Actualização metereológica. Vento norte - noroeste 2-6 nós ao fim da tarde... Aviso os veleiros para rumar para norte, nao vai haver vento Sul.
Golfinhos a bombordo, um grupo grande que passa ao largo.
A bomba do esgoto avariou... Pequena inundação nos wc.
Reparação da bomba. Este Sargento Sousa só nao arranja o que nao tem concerto.
Depois da lavagem forçada da roupa atingida pela inundaçao do esgoto...Os cadetes continuam a tentar acertar com a receita da sangria tinta. Parece que desta vez acertaram :) ou evaporou ou longo do dia, ou alguém a bebeu...
A ondulação é espantosa... 1 a 2 metros... Larga... Quase hipnótica...
Almoço, esparguete à lá Blaus ( basicamente tomatada e um pouco de tudo )
Os golfinhos finalmente perderam o medo. Um grupo simpático veio brincar à proa :)
O vento está de Sudoeste 15 nós, pomos todo o pano em cima. Genoa, Estai, Grande e Mezena (que segundo o Rui só serve para embelezar)... Afinal a meteorologia não deu uma para a caixa.
À tarde... tempo para um pouco de exercício... Abdominais e halteres... e 1 hora de ronha ao sol !!!
As pernas já pedem corrida... Mas vão ter de esperar por Santa Maria.
A música tem estado incrível o dia todo. Anos 80 e depois UK TOP 40... Parecia o B Beach !
37.53.50 N 15.49.60 W - Águas internacionais - recolher as velas - paragem para banho de mar :) Aparentemente ficámos a pairar num sitio onde não tenho pé...profundidade... 3.500 metros, agua quente e cristalina. O corpo já pedia água fresca (salgada) e gel de banho ! No final, uma mangueirada de água doce para remover o sal. A moral está em alta ! Hoje nem houve tempo para a sesta...
Lanchinho - melão com presunto, queijo fresco, e a rematar uns cajus regados a Jameson.
Para jantar, deitei mãos à obra e produzimos uma salada de coisas do mar tipo atum e outras delicias com molho thousand islands feito na hora.
Mais um fantástico por do sol, destes que só se vê em mar alto.
Lua cheia fabulosa. Vento 0. Vamos a motor a fazer contas se dá para ir aos ilhéus das formigas... parece que sim, o que significa que depois das desertas e das selvagens, fica completo o meu passaporte de ilhas desabitadas !
Quarto das 20h ás 24h... O último do dia.
Os cadetes continuam a saga dos filmes "de acção"...
Vénus a oeste é a única luz no horizonte. Segundo o radar, estamos sózinhos no meio do mar...


Dia 4 - Terça, 23 de Julho
Quarto das 08h ás 12h
Céu pouco nublado. A ondulação aumentou significativamente e o vento também, agora de sudoeste 15 nós. Infelizmente, temos a frota muito dispersa. Estamos a tentar manter-nos ao centro mas a rumar ligeiramente para sul onde se encontra o veleiro Força III... Para tal, temos que fazer um rumo 260 que nos coloca praticamente aproados ao vento :( Ainda tentei o estai, mas este barco não é um bolineiro e com a ondulação a vela estava sempre a bater... Portanto vai a grande em cima para não dizerem que não usamos as velas.
Ainda não perdemos a intenção de um mergulho no recife do Dollabarat, junto ás Formigas, vamos ver se o tempo ajuda e se as jamantas passam por lá :)
Em equipa vencedora não se mexe, e como tal, panquecas para o pequeno almoço, again :)
Até o imediato que tinha caído na cama ás 04h, levantou-se em modo zombie nao fosse alguém esquecer-se de guardar umas tantas.
Faina da louça suja... Com água salgada. Os pratos ficam naturalmente temperados :)
Neste Quarto, sou Skipper e DJ, portanto os mais novos vão revendo alguns dos clássicos pop rock da minha geração à mistura com os hits do momento. A educação não tem hora nem local.
Já começa a ser hábito, mais quatro horas sem nenhum contacto visível. Estamos sozinhos neste mar imenso !
A ondulação está a pedir brincadeira na proa... O efeito montanha russa é espectacular. Mais umas quantas fotos para mais tarde recordar.
Almoço, pizzas de vários sabores.
Hoje vou fazer a sesta :) ... Check !
Cereais e yougurt para o lanche.
O céu encobriu, a temperatura arrefeceu, o mar está malagueiro... lá vamos nós a levar pancada outra vez.
Jantar, prego no prato com salada... e o céu abriu apenas para proporcionar mais um por do sol fantástico.
Quarto das 20h ás 24h
Contas refeitas para chegar a Dollabarat daqui a 60 horas... Se tudo correr bem e não houver contra tempos... Já só temos contacto com 2 dois dos veleiros da frota... um em VHF (no limite) e um por satélite...Mas como diz o ditado, "no news is good news"...
O radar continua com zero contactos num raio de 24 milhas...
Sessão de cinema, "gato preto, gato branco". Umas boas gargalhadas antes de terminar o Quarto.


Dia 5 - Quarta, 24 de Julho
Mais uma noite no balanço da ondulação. Vou sentir falta disto.
Quarto das 08h ás 12h
Já tenho a playlist a bombar boa música na ponte e à ré. Apesar da música ser boa há pessoal que precisa dormir... Felizmente o sistema de som permite excluir a música no salote.
Céu limpo por cima de nós e encoberto a toda a volta. Parece o olho do furacão.
Contacto visual com o Azul III cerca de 6 milhas à nossa ré. Vamos reduzir a velocidade para deixar que nos alcance.
Alteração do planeamento. Decidiu-se rumar directamente ao recife de Dollabarat (cerca de 30 milhas a nordeste de Santa Maria) para um mergulho na natureza selvagem. Pelas nossas contas devemos chegar lá na manhã de 26 para depois atracar no Porto de Santa Maria ao final da tarde.
Já ninguém sabe em que dia da semana estamos, sem primeiro fazer contas com os dedos. É uma sensação formidável !
Faina da louça suja, com água do mar.
Ainda não vi o meu cachalote... Mas já pus a cabeça a prémio e pago um jantar ao primeiro que o avistar. Baleias piloto não contam.
Almoço - Lasanha com legumes salteados :)
Tarde de ronha ao sol... O vento rodou para norte, agora com cerca de 15 nós, pomos o pano todo no ar ( menos a mezena que segundo o Rui só serve para embelezar) e estamos a navegar a 7 nós, o que nao é nada mau atendendo a que são 45 toneladas... peso sem cadetes.
Temos o Azul III a cerca de uma milha pelo través de estibordo. Máquina parada e ensaiamos 2 bordos... Iça Estai, recolhe Genoa, virar de bordo, desenrola Genoa, recolhe Estai... 7 minutos à primeira tentativa, 4 minutos à segunda, com o motor a ajudar na viragem. Esta barcoita não é regateira... é para se fazer com calma...
Os cadetes repetiram a receita da sangria com alguns melhoramentos... Nao ficou nada para a posteridade.
Depois de tostar ao sol, tempo para um pouco de halteres em equilíbrio instável... deu para suar.
Banho de água salgada a baldes, gel de banho, e mangueirada de agua doce para rematar.
Tostas de queijo e óregãos para o lanche...
Final de tarde no sítio do costume (à proa, sobre o grupés)...  Nao consigo fartar-me deste efeito montanha russa... deste mar... deste por do sol...
Mais golfinhos a bombordo... rodeando um cardume de qq coisa... estão claramente à caça, nem ligam à nossa passagem.
O vento agora está pelo través... Navegamos a 7 nós sem motor.
Jantar - prego no prato com salada.
A esta velocidade, vamos chegar a Santa Maria amanhã ao fim do dia... Logo se decide em relação ao Dollabarat...
Quarto das 20h ás 24h
Estava tudo a correr bem... Por questões de segurança resolvemos recolher a Genoa para a navegação nocturna. A ideia era subir o Estai, e dar um toque de motor para nao baixar dos 7 nós...
Pelas 21h, cheiro a queimado, fumo, e alarmes a tocar. Pára a maquina, acorda-se o Sousa, e em 5 minutos estava feito o diagnóstico..."o rotter queimou"... pondo em risco o sistema de arrefecimento do motor... Recolher o Estai, desenrola-se a Genoa, afina-se a Grande, e estamos de volta aos 7 nós, enquanto o Sarg Sousa substitui o rotter por um novo (quem vai ao mar, avia-se em terra).
Sessão da noite - "O Padrinho"
A ver se chegamos a horas decentes a Santa Maria... será a diferença entre atracar no Porto, ou ficar fundeados ao largo... A diferença entre um jantarínho típico e copos na "disco chaminé", ou ovos mexidos e copos a bordo...


Dia 6 - Quinta, 25 de Julho
Há cerca de 60h que navegamos adornados a bombordo. A inclinação é tal que só é possível circular no interior encostado a qualquer coisa. O corpo já não se lembra como é andar na vertical. Em consequência, e como a minha cama fica a estibordo, tive que instalar uma lona de retenção caso contrário passava o tempo todo no chão. Esta noite passei mais tempo em cima da lona (que em condições normais é vertical) do que em cima do colchão...
Quarto das 08h ás 12h com os companheiros do costume, os cadetes Fradique e Pires, "a dupla" como eles próprios se intitulam... e o que eu tenho aprendido com eles... 8h por dia ;) Os 20 anos de hoje têm outra rodagem...
Estamos a dar-lhe bem. 9 nós (com uma ajudinha do motor)
Pequeno almoço - yougurt e tosta mista
Aproveita-se que o Rui foi descansar, para por a Mezena em cima. Há que ter fé nesta vela... aliás estou decidido a demonstrar o seu potencial náutico, quanto mais não seja para concluir que realmente só serve para embelezar e adornar ainda mais o navio. 9.1 nós ;) 
A Mezena não é como o balão de spi... não se sente aquela força bruta a empurrar a embarcação, mas pelo menos fica bem para a foto e continuo a acreditar que dará alguma estabilidade adicional.
O mar não está famoso, mas o céu está limpo, aliás temos visto a pressão atmosférica a subir nos últimos dias, portanto devemos estar mesmo por baixo do famoso anti-ciclone dos Açores.
Ainda não vi o meu cachalote...
Estamos a cerca de 60 milhas de Santa Maria. Se tudo correr bem, estaremos a atracar ao final da tarde. O mergulho no Dollabarat ficará para a próxima. Com este vento e este mar, as condições também não seriam as melhores.
As pernas já pedem uma corrida. Acho que vou estranhar a terra firme :)
Aliás estava agora mesmo a recordar que a única vez que estive em Santa Maria, foi há 25 anos, no decorrer de uma aterragem de emergência de um C-130, onde eu seguia com a minha irmã, em direcção à Madeira. Tirando eu e o Rui, nenhum dos membros desta guarnição era nascido à data... É assim que percebemos que o tempo não pára...
Devo ter passado cerca de uma hora só a olhar para as velas... a tentar perceber a melhor afinação. Neste momento, o vento vai saltando, ora estamos numa bolina folgada, ora estamos num largo... e eu a tentar encontrar uma afinação intermédia... isto tem muito que se lhe diga...
O vento caiu e a ondulação diminuiu... Estamos a cerca de 35 milhas de Santa Maria... Ainda não se vê terra, mas já se sente.
Terra à vista !!! A 32 milhas de Santa Maria... a rematar um belo esparguete à bolonhesa, a visão de terra é uma forte sensação de missão cumprida.
Um grupo de golfinhos veio saudar-nos à chegada. Percebemos que estamos há muito tempo no mar quando deixamos de os filmar e ficamos só a contemplar.
Falta pouco para concluir a minha primeira travessia atlântica à vela. Depois de 5 travessias do equador, ok, não foram à vela, ( 2 em tenra idade e 3 recentes, 4 no Atlântico e uma no Pacífico ) o currículo náutico começa ficar mais composto... falta a passagem do Cabo Horn, e do Cabo da Boa Esperança, eventualmente do Estreito de Magalhães... quem sabe um dia...Mais um check na lista "to do before I die" :)
Faltam 10 milhas. Para mim. Já cheguei :)
Daqui a 3 dias começa a regata !!!







terça-feira, 2 de abril de 2013

Dancin Days

Bem sei que o tema pode não ser do agrado de muita gente, mas ao fim de tantos anos com isto entalado na garganta, sou obrigado a dissertar sobre o tema, sob o risco de, se não o fizesse, a minha consciência se revoltar e cometer um qualquer acto dito inconsciente contra a minha própria pessoa.

O tema do dia é a chamada "Ficção Nacional". Sob esta designação estão abrangidas todas as séries, novelas e similares, supostamente ficcionadas em Portugal. O "Dancin Days" para quem anda menos atento, é uma novela. Mais concretamente é uma telenovela da SIC, que não foi originalmente ficcionada em Portugal, mas sim no Brasil, e agora, numa onda de revivalismo, lembraram-se de fazer uma versão mais adaptada aos tempos modernos.

Cá em casa, as miúdas seguem o Dancin Days. Podia ser pior, eu sei. O enredo é qualquer coisa tão enrolada, tão enrolada, mas tão enrolada, que é possível perder 10 episódios seguidos e ainda assim tudo continua mais ou menos na mesma.

Enquanto elemento de agregação familiar, a novela realmente funciona. Durante aqueles minutos, as miúdas interrogam, questionam, tiram as suas conclusões, e estranhamente vão percebendo qualquer coisa sobre a natureza humana, nomeadamente os temas recorrentes das "Ficção Nacional", a inveja, o ciume, a aldrabice, o dinheiro, e os pequenos almoços com a família toda reunida à mesa com croissants e sumo de laranja natural no jarro, algo que realmente só pode pertencer ao domínio da ficção, mas enfim... Acontece que à falta do "Vitinho" ou do "Topo Gigio", o fim da novela coincide com a hora de irem para a cama sem discussões, argumentações ou birras. Neste sentido, a novela ajuda. Acabou a novela, cama !

Ora, acontece que sou muitas vezes arrastado para o sofá à hora da novela. Para todos os efeitos, é um tempo para não pensar em nada e simplesmente desfrutar da companhia, ao mesmo tempo que vou displicentemente coçando as costas de uma ou de outra, como se de uma família de orangotangos se tratasse.

Em resumo, não tenho nada contra a ficção nacional, mas o que me tira do sério é a falta de rigor! A obra até pode ser ficcionada, mas por favor, tenham algum rigor naquilo que fazem ou dizem ou tentam representar. é que ficção é uma coisa e rigor é outra.

Então o que aconteceu ontem, no episódio 208 foi isto...
Um homem teve um acidente numa avioneta e está internado no hospital.

A certa altura a suposta médica é chamada ao quarto para avaliar o doente e imediatamente verifica a posição dos eléctrodos colados no peito. Eu nem queria acreditar, ali estavam os 3 eléctrodos a 10 cm de distancia uns dos outros! Imagino que o fizeram para caber tudo no mesmo plano, mas por amor de Deus  podiam afastar mais um bocadinho, é que se retirássemos o homem e colocássemos um recém-nascido no mesmo local, os eléctrodos estavam perfeitos.

Logo a seguir, diz a suposta enfermeira: "Dra, está com 35 batimentos por minuto!" Esbocei um sorriso... só quem nunca esteve num hospital é que diria a frase desta forma... é tipo chegar à bomba de gasolina e dizer à Sra da caixa: " Minha senhora, preciso de reabastecer o depósito da minha viatura que se encontra ali parcada, e agradecia que me disponibilizasse combustível aditivado sem chumbo 95, no valor monetário de 30 euros".

Isto já estava a correr bem, quando a médica então responde: "2 mg de Lorazepam!" Ui ! um dos meus neurónios da sabedoria quinou-se logo ali, zás. Senti um arrepio na espinha. Lorazepam é nada mais nada menos que o conhecido Lorenin, uma droga que se usa para "acalmar os nervos"! Numa bradicárdia (coração a bater devagar) o homem precisava de tudo menos Lorazepam ! Sai um Lorenin para mim...

Segue para bingo, olha para o monitor e diz: "Não está a reagir, vamos usar o defibrilhador, rápido !" Aqui, eu entrei em fibrilhação !!! O monitor, mostra um gajo em ritmo sinusal com uma frequência garantidamente a cima de 35 e com Saturações de 94%... e ela prepara-se para chocar ! Eu já estava em choque ! Dito e feito, a enfermeira toca de ligar o desfibrilhador, esfrega as pás uma na outra (Oh My God) e zumba choque no homem!

Obviamente o ritmo sinusal passou a linha isoeléctrica ! Ela acaba de o matar ! Mas como as alarvidades vêm em bando, a seguir, já em linha isoeléctrica, espeta-lhe mais 100 Joules ! Ou seja, não só chocou um ritmo que não é desfibrilhável, como a seguir consegue chocar a própria ausência de ritmo (apesar de continuar com saturações de 95%). Isto para os médicos e enfermeiros é óbvio, mas para os leitores fora desta esfera eu faço uma analogia. Imaginem que num determinado episódio da novela, assistiam a uma operação STOP. Um GNR solícito, aproxima-se da viatura, bate a pala e diz: " bom dia sr condutor ! o extracto do seu crédito à habitação se faz favor !" Ao que o condutor responderia, mas eu só tenho aqui a conta do gaz! Responde o GNR, pois, isso não serve, mas se tiver a conta da água podemos extrapolar!" Percebem ??? Chama-se non sense !

A coisa estava portanto preta, e a esperta da médica resolve então mudar de estratégia... como a coisa não está a funcionar diz assim: " vamos tentar a reanimação manual ! " LOL ! Agora passamos da reanimação automática para a manual ! Toca a por as mãos no peito do rapaz e começa a empurrar...
Neste momento, os milhares de Portugueses que por esta altura já fizeram um curso de Suporte Básico de Vida estão todos dados como estúpidos... mas é neste momento que eu reparo na imagem que me deixou completamente K.O. Então não é que o homem tem a boca enfaixada !!! Se a médica não o matasse, morria asfixiado !!! e como quem não quer a coisa, ainda espetaram na testa do dito cujo uns eléctrodos de monitorização da profundidade anestésica (aquela fita branca e azul)... algo que não tem absolutamente nada a haver com o cenário ! Eh pá ! Desta vez abusaram !!!

Eu espero que alguém da "Sociedade Produtora de Televisão - SPT" tenha a oportunidade de ler isto... O pessoal até vê a novela, mas por favor... um pouco de rigor não custa nada. Não só há pessoal de saúde que vê isto, como há cada vez mais pessoas a saber um mínimo de SBV - Suporte Básico de Vida, e isto que os senhores mostram já não é só ficção nacional... é verdadeira ficção cientifica!

Não há necessidade... contratem um médico para dar uns palpites... estamos ao preço da "uva mijona" :)

sexta-feira, 22 de março de 2013

War Surgery

Aqui estou eu em Geneve. Na rua, vejo inúmeras mulheres bem vestidas e produzidas a conduzir carros topo de gama, as montras têm sapatos de 600 euros, vestidos de 10.000 e relógios de 150.000... Geneve deve ser um sítio fantástico para viver.

Não vim viver para Geneve, na verdade vim para aprender coisas novas. OK, talvez não completamente novas, mas pronunciadas pela boca de alguns dos meus heróis... os cirurgiões, anestesistas e enfermeiros do CICR (Comité Internacional da Cruz Vermelha)... e hoje tive a oportunidade de almoçar na sala onde estão expostos nada mais nada menos do que quatro Prémios Nobel da Paz... assim como quem não quer a coisa, pendurados numa parede atrás da mesa onde me sentei.

Somos 34, cirurgiões, anestesistas e enfermeiros, de varias nacionalidades, noruegueses, japoneses, neozelandeses, holandeses, colombianos, mexicanos, finlandeses, italianos, gregos... de tudo um pouco e com uma doença comum. A maioria já sabe que está doente, outros estão ainda a descobrir. As nossas conversas de intervalo comparam experiências na desgraça, Indonésia, Haiti, Líbano, Paquistão, Sudão, Chade, Somália... Os olhos brilham, contam-se historias do terreno, das vidas salvas, das vidas que não se salvaram, dos medos, dos receios, dos riscos do trabalho em locais onde ninguém com um mínimo de inteligência pensaria incluir no seu curriculum de viagens. Todos sem excepção, já fizeram, ou querem fazer, cirurgia de guerra !

Há homens, mulheres, gente solteira, casada, com filhos, sem filhos, com família, sem família... Não são bonitos nem feios, há gente com ar selvagem, com ar formal, com tattoos, com mochilas e com pastas...conheci um holandês que tem o seu veleiro em Lagos, e já combinámos uma viagem até Lisboa, conheci um surfista inglês que adora a Ericeira, uma neozelandesa que esteve um ano em Timor, uma dinamarquesa que regressou há três dias da Síria... Tentei traçar o perfil e não consigo, acho que a idade é relevante, quase tudo a cima dos 40... dos 50... Mas não têm um andar esquisito, um olhar esquisito, ou um qualquer tique que os identifique se nos cruzarmos na rua... parecem pessoas normais, mas estão aqui.

Será que, com a idade e com a morte de alguns neurónios inibidores, começamos a revelar a nossa verdadeira essência ? Será um processo infeccioso, por contágio directo, sempre que falamos com algum destes seres a quem brilham os olhos ? Ou será que primeiro, temos que viver alguns anos, antes de descobrir o que nos move, o que nos faz querer ser cada vez melhores, o nosso destino ?

Estou perfeitamente (e assustadoramente) integrado no meio de uma tribo nómada que não se reconhece como tal, gente que vive em locais confortáveis, países civilizados, com acesso a tudo ou quase tudo, e no entanto, por uma qualquer razão que um dia seguramente vou descobrir, estão dispostos a trocar o conforto do seu lar, a sua familia e os seus amigos, o seu trabalho, por três meses em condiçōes humanamente difíceis, pondo em risco a sua vida, a sua integridade física, a sua sanidade mental... Será um teste à nossa capacidade enquanto seres humanos ? Uma penitência, pela vida relativamente folgada que levamos ? Haverá um gene missionário ? Ou será simples loucura, no seu estado mais refinado ? O que leva um cirurgião a querer operar sem canivete eléctrico ? Sem stapplers ? O que leva um anestesista a querer anestesiar sem oxigénio ? Quase sem monitorização ? Sem sangue ? Será a necessidade de perceber o limite ? De ultrapassar o limite ? O eterno descontentamento ? Ou a busca pelas respostas ?

Ao longo do dia fui vendo as apresentações de quem esteve no terreno, as imagens de cirurgias ao ar livre, à sombra de uma árvore, em palhotas, em hospitais sem água corrente, sem electricidade, os sorrisos de quem recebeu ajuda... as minhas próprias memórias mareavam-me os olhos, vi aquelas crianças e pensei nas minhas filhas... e eu ainda não fiz cirurgia de guerra...

Será que temos uma missão nesta vida ? Será possível que a realização pessoal e profissional de alguém, na posse das suas faculdades mentais, inclua o envolvimento activo em cenários de guerra, em cenários de catástrofe ? Será por isso que no fim de cada apresentação estamos constantemente a ouvir "if you still want to work with us..."

Estou cheio de duvidas... e cheio de certezas!

quinta-feira, 7 de março de 2013

Wonder Woman

Era um daqueles indescritíveis dias de primavera. Sentado na esplanada, apreciava o sol, a cerveja e o jornal do dia. Nesses dias somos quase imperturbáveis. Pouca coisa iria desviar-me do meu estado zen...

Eis senão quando, um vulto entra pelo meu campo de visão...altiva, quase majestosa, passo certo, decidido e compassado. Botas de salto, cano alto moldado na perna sobre umas calças de ganga justas que faziam sobressair as curvas demasiado perfeitas sem que por baixo se notasse qualquer outra prega fora do contexto. Um cinto largo de cabedal, sobre uma camisa branca, rematava a meia altura, um tronco delgado, encimado por duas semi-esferas que se projectavam como que olhando para o infinito e desafiando a gravidade. Os braços, com uma tonalidade dourada, terminavam, em mãos lindas com unhas vistosas, vermelhas, sem falhas. Tinha os lábios pintados de vermelho, um sorriso branco, os olhos verdes emoldurados por umas pestanas enormes, sobrancelhas arranjadas, e um cabelo da cor do sol, suportando um par de óculos escuros, apanhado por um rabo de cavalo que o fazia arquear no ar e balançar ao ritmo da sua passada.

Penso na imagem e quase que consigo ouvir o som dos saltos na calçada... Um homem não fica indiferente a quem anda assim. Estava absorvido por este pensamento, quando percebo que se encaminhava para a mesa ao lado da minha. Sentou-se, reclinou-se para trás, fechou os olhos, estendeu o pescoço, cruzou as pernas e eu deixei-me ficar... a babar...

Deus que é grande e anda a brincar com o "joystick" das pessoas, havia empurrado aquele ser para junto de mim, provavelmente porque não tem capacidade de o colocar directamente no meu colo, pensei. Esta é a tua deixa rapaz.

Enchi-me de coragem, e com o ar mais convicto do mundo perguntei-lhe se se sentia bem... parecia cansada... seria o inicio de uma longa conversa... começou por contar-me que de facto, o dia tinha sido intenso.

Naquele dia, levantara-se cedo. Começara logo pela manhã com uma consulta para branqueamento dentário, e a correcção de algumas das facetas de porcelana que se haviam descolado. Saída do dentista foi fazer uma sessão de spray bronzeador, porque a sessão anterior já começava a desbotar. Seguiram-se umas horas no cabeleireiro a pintar o cabelo porque as raízes castanhas já estavam grandes, colocar as extensões porque o volume não dava para o que ela queria, colocar as pestanas postiças, porque sem elas os olhos desvaneciam e arranjar as sobrancelhas que cresciam demasiado. Aproveitou e em simultâneo arranjou as unhas com o gelinho porque o verniz estava todo estalado. Mal teve tempo de almoçar porque tinha uma marcação para mudar as lentes de contacto, aparentemente as outras, as azuis, deixavam transparecer o castanho dos seus olhos. Ainda uma breve passagem pelo centro comercial, para comprar a cinta adelgaçante porque o corpo já não tem a tonicidade dos 20 anos e as pregas que antes não se viam agora estão lá para toda a gente ver, as calças push-up com enchimento porque a ausência de volume nas nádegas deixava-a constrangida, e um novo soutien wonderbra almofadado para vencer a gravidade que exerce a sua força durante as vinte e quatro horas do dia, sete dias por semana, e já agora aproveitar o efeito para devolver o contorno e projecção que outrora existiu. Por sorte, juntamente com o wonderbra, ofereceram-lhe como brinde umas cuecas cor de pele, largas, mas sem costuras para não transparecer por baixo as calças... porque a costura das cuecas... bem, isso de facto, não é nada sexy.

Respirei fundo, fiz um esforço, e acordei, antes que fosse tarde demais. Tenho que me deixar destes sonhos...