segunda-feira, 11 de novembro de 2013

MIA

Nunca tive animais de estimação na minha infância, ou como se diz hoje em dia "pets". Tive portanto uma infância "petless"... Com 4 filhos em 5 anos, os meus pais devem ter entendido que já existiam demasiados animais à solta na propriedade para ainda adicionarem o que quer que fosse à coleção.
Isso nao quer dizer que não tenha tido contacto de proximidade com várias espécies...

O meu avô volta e meia trazia para casa um saquinho de água com um peixinho vermelho que invariavelmente acabava a nadar em círculos numa taça de vidro algures na cozinha. O mal dos peixinhos vermelhos em taças é que mais dia menos dia acabavam a boiar adornados a bombordo, fosse pela má qualidade da água, fosse por overdose de floquinhos com sabor a camarão. Depois como que cumprindo o seu destino, à água regressavam, fazendo a sua derradeira viagem de regresso ao mar pelo sifão da sanita lá de casa.

Também houve piriquitos. Aliás lembro-me de alguns casais de piriquitos em casa dos meus pais. O problema dos piriquitos é que passávamos o tempo todo à espera que pusessem ovos, e quando finalmente o faziam, ou os atiravam do ninho ou simplesmente os comiam. Qualquer dos cenários era demasiado traumatizante para crianças em idade escolar, e um dia, tal como vieram, os piriquitos, foram-se.

Acho que a primeira relação que estabeleci com um animal foi com o Bolinhas. O Bolinhas era um cão rafeiro branco com manchas castanhas, pelo e pernas curtas, tipo salsicha brasileira. Habitava um armazém de bananas ali para os lados da lapa. O armazém, do qual o meu avô era sócio, fazia paredes meias com uma tasca à antiga portuguesa, com mesas em mármore, bancos de madeira, muita serradura no chão, e grandes pipas de vinho atrás do balcão onde um taberneiro grande e careca envergava um avental tipo talhante com uma toalhinha ao ombro. Comi-se pão com torresmos, pão com chouriço e bebia-se vinho. O meu avô, os seus sócios e demais companheiros passavam horas a jogar dominó, marcando os resultados com um pau de giz nas próprias mesas. O Bolinhas era o meu pet. Eu teria aí uns 8 anos...pegava na trela e ia dar uma volta ao quarteirão, todo orgulhoso, de peito feito, a mostrar para quem quisesse ver que era eu quem levava aquele animal a passear. Um dia cheguei à loja e soube que o Bolinhas fora apanhado por um eléctrico numa das suas saídas habituais sem trela. Desde aí, passaram-se vários anos até que voltei a ter contacto com animais com nome.

Foi no Colégio Militar que voltei a estabelecer algum tipo de vínculo emocional, desta feita com animais de grande porte. Era um belíssimo cavalo chamado "Saturno", castanho, grande, com um galope largo e generoso que me fazia realmente feliz e duas éguas mal cobridas de seu nome "Silvia" e "Rata". A primeira, algo esquizofrénica, tinha surtos psicóticos e quando menos se esperava, largava a formação desatando a correr em sentido contrário aos restantes cavalos, sem que nada ou ninguém a fizesse parar e muitas fezes fazendo o infeliz cavaleiro provar a serradura do picadeiro. A segunda, era pequena, cor de rato, e tinha um trauma sexual, pelo que a simples aproximação de um garanhão pela retaguarda, dava direito a cangochas inopinadas ao estilo rodeo que ficaram célebres pelo número de cavaleiros que levou ao chão. Foi à conta destes três que acabei na escolta a cavalo...

Passaram-se vários anos sem animais e entretanto a personalidade formou-se. Se dividíssemos o mundo em "cat persons" e "dog persons" eu seria certamente uma "dog person". O meu interesse por felinos esgota-se no Jaguar, preferencialmente azul escuro, cabrio, com bancos camel, e nas gatas... louras ou morenas. Paradoxalmente, quis o destino que acabasse com três gatas em casa. Uma, casei com ela, as outras duas são descendência. 

Recentemente, há cerca de dois meses, a nossa vida foi invadida pela Mia. A Mia ao contrário do Bolinhas é uma cadela de marca. É uma Shnauzer, tamanho mini mas sem ser a pilhas e tem pelo preto com madeixas californianas, acho que é assim que se diz, quando o pelo é preto e as pontas são castanhas, mas neste caso é de série. A Mia tem seis meses e nas fotografias aparece sempre como uma mancha negra. Não cheira a cão, praticamente nao se ouve, não deita pelo e nao pedincha à mesa. Tem um olhar carinhoso, e uma cara super patusca, daquelas que só apetece agarrar e já conquistou toda a gente pela sua doçura e simpatia. É uma cadela caseira que está sempre a abanar o rabo de felicidade. Adora enroscar-se no colo de quem quer que seja que esteja a ver televisão e de manhã assim que lhe abrem a porta do terraço corre os quartos à procura dos habitantes para os cumprimentar individualmente pondo-se de pé ou simplesmente saltando para cima das camas e lambendo qualquer cabeça que esteja de fora dos lençóis. É efusiva nas recepções sempre que alguém chega a casa, mas distribui as atenções por todos. Adora correr e derrapar no chão em madeira, fazendo drifting nas curvas. A sua brincadeira preferida é deitar-se de patas para o ar fingindo-se de morta para que lhe façam festas na barriga...Até hoje, eu não sabia que era possível gostar assim de um animal... mas esta, deu-me volta cá com uma pinta... é que só lhe falta falar !


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mercenary Man - Day 45

Quando estamos fora, o tempo conta-se de maneira diferente.
As rotinas, que no princípio estranhamos, agora entranharam-se. Há novos amigos, novas experiências, novos lugares, novas recordações e não menos importante, abrem-se novas portas. Há um ritmo diferente em tudo o que fazemos... Na própria forma como vivemos.

Entre Sudão do Sul e Kosovo, estou praticamente há três meses fora de casa. Longe da família, dos amigos e dos colegas de sempre. Há três meses que não conduzo e no entanto, provavelmente nunca tive uma rotina tão boa de exercício como agora tenho e nunca tive uma alimentação tão correctamente paleolítica. De uma forma aparentemente paradoxal, apesar do contexto das missões, os níveis de stress caíram para valores de mínimos históricos. Há qualquer coisa neste mundo da ajuda humanitária que nos torna diferentes, e começo a perceber o que é...

Saltei do mais jovem país africano, para o mais jovem pais europeu, e há quase três meses que não sinto o cheiro da maresia ou o sabor dos beijos das minhas mulheres. No campo profissional percebi que para alguns paga-se caro a aventura humanitária, mas para lá dos 40 percebemos que tudo na vida tem um preço. O que fazemos paga-se da mesma forma que tudo aquilo que deixamos de fazer.

Quando estamos em missão... encontramos-nos com nós mesmos ! Sem os tradicionais suportes da nossa estrutura social, estamos fundamentalmente sozinhos. Pensamos muito mais, planeamos, recordamos, meditamos, e quase sempre sem querer pomos toda a nossa vida sobre a mesa, tudo, ali, como se de um qualquer festim se tratasse. Com uma atenção redobrada analisamos cada gesto, cada palavra dita ou não dita, percebendo muitas vezes pela primeira vez a posição e a importância relativa de cada coisa. As certezas tornam-se mais fortes, as dúvidas mais ligeiras, e a nossa visão do mundo ganha outras cores. Perceber o porquê do conflito tribal no Sudão ou a razão de ser da segunda républica Albanesa nos Balcãs, pode não parecer muito importante à primeira vista, mas na realidade, é o mais claro espelho daquilo que somos enquanto humanidade.

Um dia, quando forem mais velhas, espero que as minhas filhas percebam o porquê da ausência do pai durante alguns meses e porquê troquei os seus sorrisos pelos sorrisos de crianças anónimas no meio da selva, uma refeição em família por uma ração de combate à volta da fogueira, porquê dormi em tendas em vez do conforto da nossa casa e porquê troquei a água de colónia pelo repelente para mosquitos e o banho quente pela água do rio, e porquê, tantas, tantas vezes, abdiquei do certo pelo incerto correndo riscos aparentemente desnecessários... Na vida, temos que ser generosos e humildes, tanto quanto possível neutrais, e temos que ser tolerantes para com as diferenças, saber descer ao nível dos que precisam de nós e olhar nos olhos... Elas ainda nao sabem, mas o tempo passa a voar e o tempo para fazermos o que gostamos, para darmos o que de melhor há em nós... inevitavelmente esgota-se. É uma das poucas certezas da vida. 

A poucos dias de regressar a casa, deixo um Kosovo à beira de eleições que podem ou nao correr bem e deixo uma pequena comunidade portuguesa tão especial e acolhedora como são todas as nossas comunidades espalhadas pelo mundo, mas faço-o com um sorriso nos lábios. Levo na bagagem uma ideia que nao me sai da cabeça... há muitas outras crises para além da nossa crise, há muita gente a sofrer para além daquilo que se vê no telejornal, e há um mundo inteiro para lá do nosso rectângulo à beira mar plantado. Agora é tempo de regressar. Quem decide abraçar esta vida sabe que nem sempre ganhamos todas as batalhas, mas felizmente, ganhamos muitas guerras. As nossas ações serão sempre uma gota de água no oceano, mas o oceano é isso mesmo...


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Mercenary Man - Day 6

Life in Kosovo...

Para já uma semana marcada por exercícios de prontidão e pela morte a tiro de um funcionário da Eulex que seguia de carro numa caravana oficial. As vésperas das eleições fazem prever um aumento da violência sectária nesta parte da Europa... Ainda há muitas questões mal resolvidas nos Bálcãs...

Após alguns dias de trabalho e outros tantos de folga, esta cidade começa a revelar-se...
Este pessoal adora os seus carros. Um dos negócios mais florescentes por estas bandas são lavagens automóveis tipo "Elefante Azul", e estão sempre cheios. Em compensação o transito é realmente uma loucura. Há muitas estradas em construção, e os troços vão abrindo à medida que vão ficando prontos... No entanto, por algum motivo que ainda não vislumbrei, os motoristas locais entendem que as regras de transito aplicam-se de forma proporcional à percentagem de asfalto colocado. Conclusão, como a maioria das novas vias estão apenas parcialmente prontas, as regras aplicam-se na mesma medida. Dito isto, é possível fazer rotundas pela esquerda, fazer inversão de marcha no meio de uma via rápida, ou simplesmente circular na contra mão em vias com separador central !!! Tudo nas calmas... Ninguém se incomoda, toda a gente faz o mesmo !!! Verdadeira actividade de risco em Prístina... Atravessar ruas !

Já descobri os Táxis ! São modernos com taxímetros digitais no espelho retrovisor. A bandeirada custa 1,5 euros mas como a cidade é pequena, torna-se possível chegar ao destino quase com o valor da bandeirada... Memórias de Macau vieram-me à memória.
À conta do taxi, esta semana descobri "Film City"... a base americana aqui em Prístina, onde estão estacionadas as tropas da KFOR. Ninguém me consegue explicar o porque deste nome, mas basicamente para os outsiders como eu, trata-se de um sítio giro para passear comer e fazer compras nos diversos "BX" que aqui se chamam "PX", os quais são geridos pelas diversas nacionalidades presentes. Não encontrei nenhuma loja portuguesa, apesar de me ter cruzado com alguns dos nossos homens, mas encontrei a loja, americana, alemã, francesa, escandinava e mais umas quantas polivalentes. Basicamente é possível comprar desde pastilhas, a televisões LCD, passando pelas TShirts e perfumes. Enfim, "It's the american way"...

Estou a dividir o apartamento com um cirurgião Checo e estamos em turnos opostos pelo que só nos encontramos à noite. Somos ambos corredores, mas nao corremos juntos. O amigo tem um metro e noventa e cada passada dele são três minhas, pelo que já deu para perceber que estamos em campeonatos diferentes. Ainda assim, cada um vai descobrindo novos percursos nas franjas da cidade e posteriormente experimentamos os trajectos um do outro.

Cozinhamos à vez de acordo com a vontade e o apetite do dia... Isto obriga a fazer compras nos supermercados locais... O que se tem revelado uma verdadeira aventura. As prateleiras estão cheias e é possível comprar quase tudo nestes supermercados... se conseguirmos encontrar o que queremos !!! Não recomendo os congelados, porque o aspecto é assustador... há peças de carne e peixe completamente ressequidos e nao embalados, constituindo verdadeiros blocos de gelo...Acho que ainda nao descobriram as virtudes da ASAE... De resto, há uma qualquer lógica subjacente a esta arrumação e disposição dos produtos que me transcende completamente... Um exemplo simples... É possível encontrar chá em três corredores diferentes, sal em pelo menos dois, azeite em vários... Portanto lá se vai aquela ideia de que é possível comparar e escolher os vários produtos do mesmo gênero. Depois de colocar o que quer que seja no carrinho, é bem provável, numa qualquer outra secção mais à frente encontrar novamente as alternativas ao que tínhamos escolhido com tanto cuidado. Moral da história, ainda vou descobrir que aquilo está tudo arrumado por ordem alfabética... em albanês !

sábado, 14 de setembro de 2013

Mercenary Man - Day 0

A vida dá muitas voltas, mas não é todos os dias que temos a oportunidade de saltar do mais jovem país africano, para o mais jovem país europeu, no espaço de poucas horas.
O Kosovo, à semelhança do Sudão do Sul, é um daqueles países imaginários que, para a maioria dos portugueses, só existe na televisão e habitualmente não pelas melhores razões.

A primeira coisa que me ocorre dizer depois de aterrar em Prístina, capital do Kosovo, é que Prístina fica na Europa, o que não faz dela automaticamente uma capital europeia no sentido "glamoroso" do termo... mas arrisco a dizer que para lá caminha.

Talvez porque o país é "newborn" tem direito a babysitting por parte da Comunidade Europeia e Nações Unidas. A missão da Comissão Europeia chama-se EULEX, e a da ONU, KFOR. A KFOR conta já desde há bastante tempo com tropas portuguesas que espero ter oportunidade de visitar.

O meu hospital é basicamente um centro de trauma nível 2,montado pela EULEX para servir de suporte a todos os expatriados de todas as forças e missões no terreno. É um hospital em contentores, que não parecem contentores uma vez lá dentro... e é provavelmente um dos mais bem equipados que vi até hoje. De vez em quando também sabe bem trabalhar com o topo de gama !

É minha convicção que a melhor forma de se conhecer uma cidade e perder-se nela. Com esta ideia em mente e depois de avaliar as questões da segurança, entendi que estavam reunidas as condições para tentar perder-me. Segui pela Bill Clinton Boullevard, virei algures à esquerda e dai para frente segui os transeuntes. A esmagadora maioria são Albaneses, uma muito pequena minoria é Sérvia, mas à primeira vista, bem podiam ser Portugueses porque os traços, pelo menos dos homens, são muito parecidos com os nossos. Isto digo eu... que devo ser um típico "mediterranean men", uma vez que aqui falam comigo em Albanês e no Egipto falam comigo em Árabe e em Israel em Hebraico...

Sempre que entendi estar razoavelmente perdido, um qualquer chip que me devem ter implantado à nascença, lá me dava a minha posição relativa e estava outra vez orientado. Acho que tenho cada vez mais dificuldade em perder-me de propósito... Provavelmente porque direita, esquerda, esquerda, quer dizer que segui em frente, esquerda, direita, quer dizer que andei na diagonal, e direita, direita, direita, quer dizer que andei para trás...

Neste processo, encontrei a praça principal, o teatro nacional, crianças a brincar nas fontes, casais a namorar, reformados a ver passar a procissão... Encontrei também a Zara, a Bershka, e a Benneton... Estranhamente nada de McDonalds ou PizzaHut mas devem estar ai a rebentar.

As ruas estão esfaltadas, os passeios um pouco menos cuidados, o parque automóvel é semelhante ao português, talvez com um pouco menos de Mercedes, BMWs e Audis, existe comércio, muito comércio, e muitos modernos cafés, muitos restaurantes e muitas esplanadas, aliás, imensas esplanadas. A (re)construçao está em alta por todo o lado, e alguns espaços públicos começam a ter a sua piada...

Para já, uma conclusão. Prístina fica na Europa !


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Missionary Man - Day 18

Sexta-feira.
Regressámos a Dorain há dois dias. Um dia antes do previsto, porque a equipa que viemos render terminou a sua missão no Sudão. Em Bor deixei doentes recém-operados que me deixam algumas preocupações. Tenho tentado coordenar com o pessoal local o follow-up mas a ligação por satélite tem dias bons e dias maus. Estou a tentar que me enviem por email algumas radiografias, para controle pós-op... Apesar do hospital não ter RX, o contingente Coreano da UNMISS tem radiografia digital, e sempre que posso socorro-me da sua tecnologia.

O regresso correu melhor do que eu esperava. Não há grandes alterações a nível habitacional. Parece que a praga das formigas está parcialmente controlada. Aparentemente, com a fumigação dos ninhos das formigas vermelhas, tornámos as formigas pretas na espécie dominante. Estas são maiores e não passam nos buracos da rede mosquiteira. Criaram-se algumas clareiras à volta do campo. O mato limpo, atrai menos gafanhotos, e consequentemente menos formigas, que os comem como se não houvesse amanhã. Pela primeira vez, vi cobras no acampamento. No primeiro dia, tivemos que nos livrar de duas que estavam a circular junto ás tendas. As trincheiras à volta das tendas, criadas para escorrer a água das chuvas, estão cheias de ovos de sapos... aos milhares... daqui a dia vamos ter girinos. Nem quero imaginar. O barulho dos sapos durante a noite actualmente já é ensurdecedor, obrigando a maioria das pessoas a dormir com tampões nos ouvidos.

No hospital, boas notícias. Os doentes que tinha operado antes de ir para Bor já quase todos tiveram alta. Não deixo de me impressionar com a resistência desta gente, perante condições de esterilização mínimas, e moscas a voar e pousar durante a cirurgia.

Ainda tenho alguns doentes com feridas enormes a granular espantosamente apenas com pensos de açúcar puro !!! E quando cheira a pseudomonas... Penso com vinagre. Estou espantado com os resultados, de tal forma que hoje já programei vários enxertos de pele para segunda feira por forma a dar por terminadas as hostilidades. Uma avó cuja neta, com apenas 8 anos, precisa de múltiplos enxertos na sequência de uma infecção por mordedura de cobra, pediu-me se podia ser ela a doar a pele à criança... Fiquei sem palavras... A miúda é a primeira da minha lista de segunda-feira.

Tenho saudades de correr. Muitas saudades. Há um mês que não corro. Faz-me falta. O corpo pede e acho que como perdi peso, sinto ainda mais a necessidade. Aqui, ora esta demasiado calor, ora está tudo enlameado. Além do mais se começasse a correr o mais provável era ninguém perceber a razão e de repente ia ter não sei quantos Murleys a correr atras de mim. Vou deixar as corridas para o Kosovo... Já daqui a 15 dias. Ja sei que a recuperação vai ser lenta... mas aparentemente vou ter condições... A ver se faço boa figura na São Silvestre deste ano.

De resto, acho que já estou completamente adaptado. Não me faz confusão ir para o duche de galochas. Despir e vestir apenas com um pé no chão. Ter os sapos e os gafanhotos a saltar contra as pernas enquanto estou a ensaboar-me. Encher a tenda de insecticida antes de entrar. Sentir os lagartos sobre a tenda durante a noite. Entrar no bloco, matar tudo o que voa com insecticida, e depois limpar as prateleiras com tudo o que cai morto. Encher-me de repelente ao nascer e ao por do sol... alias a este propósito, já lhe chamam o "ICRC standard perfum" ! Cheiramos todos ao mesmo.

Hoje acordei com os gritos de uma mulher em trabalho de parto. Uma das minhas enfermeiras que é também parteira veio dizer-me que provavelmente teríamos de fazer uma cesariana de emergência. Colo dilatado, 8 cm, não se palpa a cabeça... Bebe aparentemente bem. Optámos por fazer oxitocina. Bem dita oxitocina. Enquanto operava o primeiro da manhã, ouvi o choro do recém nascido por trás da divisória. Uma cesariana nestas condições... enfim. No intervalo da cirurgia fomos ver os dois, mãe e filho. Perguntei pelo nome da criança... "doctor", disse ela, ao que eu questionei "doctor" ?? Resposta da mãe em Murley...iiiii..."doctor nelson" !!! Ganhei o dia.



sábado, 24 de agosto de 2013

Missionary Man - Day 12

Sábado. De volta a Bor...mas infelizmente vai ser uma curta estadia. Já temos ordem de regresso a Dorain na quarta feira.

Ontem à tarde ainda deu para descansar um pouco numa cama com colchão, num quarto com ar condicionado, depois de um duche numa casa de banho com torneiras. Ao fim do dia, uma pequena "festa" com o pessoal do WFP, deu para matar saudades de uma cerveja fresca e comida não enlatada. Já percebi que tanto quanto possível os expatriados (ExPats) tentam manter rotinas que criam a ilusão de não estarmos perdidos no meio de África.

De manhã cedo fomos passar visita aos doentes internados... 3h para percorrer uma enfermaria com dezenas de doentes. Alguns pensos e mais meia dúzia de cirurgias marcadas para segunda e terça feira. Já olho para esta enfermaria com camas a desfazer-se, sem luz e quase sem paredes, como se fosse a coisa mais natural deste mundo... a adaptação é um processo fantástico. Afinal, ao contrário do que estávamos a prever, não vai haver muito tempo para recuperar de Dorain, antes de voltar para Dorain. Mais uma semana na selva, para pagar os meus pecados.

Logo à noite, parece que há uma festa de despedida de algum pessoal da UNMISS... Prometem barbecue, e eu já estou por tudo. Há que aproveitar enquanto se pode. Se tudo correr bem e não houver emergências, vou tentar dormir um pouco esta tarde e tentar fazer o mínimo amanhã. A semana vai ser de dureza outra vez.

A minha enfermeira de enfermaria diz que eu devo ser "juicy" porque tenho os braços cravejados de picadas de mosquitos e outros afins... Eles lá sabem o que é bom ! Aproveitem porque depois vou-me embora, e não há mais :)

A moral continua em alta e o nosso lema agora, é originário de um filme clássico dos Monty Python - a Vida de Brian. Quando as coisas começam a complicar-se... Abrimos os braços e cantarolamos "Always look on the bright side of life"... http://youtu.be/SJUhlRoBL8M

Este calor está a fazer-me mal à cabeça...

Missionary Man - Day 11

Ontem não houve rendição. As más condições atmosféricas em Bor impediram o helicóptero de levantar. Ganhámos um dia extra na selva.

As formigas amigas das outras da ultima noite perceberam a minha mensagem estilo napalm. Deram-me tréguas esta noite. Mas tive o despertador ligado para garantir uma nova dose de insecticida na tenda a cada duas horas. Dormir assim é no mínimo estranho...

Estamos no pico da estação das chuvas, numa região infestada de malária. Apesar da profilaxia e de todos os cuidados, estes mosquitos fazem-se desentendidos. Após uma semana, é inevitável não levar umas quantas ferroadas. Já perdi a conta, principalmente nas mãos. Tenho fé no Malarone... Mas faz-nos pensar... O período de incubação mínimo são 2 semanas... Pode ser que me safe.

Já na equipa do MSF, esta noite houve uma "baixa"... Febre, cefaleias, náuseas, vómitos, diarreia, artralgias, astenia intensa... só faltava um rótulo na testa a dizer Malária. Iniciámos o tratamento. Vamos evacuar para Juba. Este acampamento é provavelmente um dos piores locais imaginários para viver os primeiros 3 dias da doença. Na minha equipa já quase toda a gente teve malária nos últimos anos. A descrição da minha anestesista é reveladora... "No primeiro dia, tens medo de morrer... ao fim do segundo dia, tens medo de não morrer e continuar assim". Prefiro não saber.

Pequeno almoço tomado. Mochila feita. Aguardamos a chegada da rendição para passar os doente internados... 13 no total... mais uns quantos em ambulatório.

14h. O som do helicóptero ouve-se a quilómetros de distancia. Percebo agora a sensação dos que são resgatados no meio do nada. Ouvir este som a aproximar-se é música para os ouvidos. Já há vários anos que não voava num EC 155 Dauphin, desde os tempo do OST em Plymouth, onde as aterragens eram feitas à noite, em navios em andamento em pleno mar do norte. A grande diferença era que nessa altura envergava um fato de sobrevivência no caso de cairmos à agua, e aqui vou de manga curta :)  Estes pássaros são lindos...

Para trás deixo o meu inestimável instrumentista que agora irá acompanhar a nova equipa, que entretanto chegou desfalcada. Tanto quanto sei, o nosso reforço vem directamente do Canadá e já deve estar em Juba. Amanhã é outra vez dia de cirurgias e quando as equipas são de quatro, uma baixa torna-nos inop.

Já estou outra vez a sonhar com uma cama ou um colchão entre 4 paredes, lençóis, uma casa de banho... Não deixo de me surpreender com as coisas que valorizamos quando estamos no meio do mato... e eu não estou propriamente a regressar à civilização... Estou apenas a regressar a uma "cidade" que não tem ruas asfaltadas nem electricidade nem esgotos nem água canalizada... mas sabe tão bem !!!

Einstein tinha mesmo razão. Tudo na vida é relativo...