Aqui estou eu em Geneve. Na rua, vejo inúmeras mulheres bem vestidas e produzidas a conduzir carros topo de gama, as montras têm sapatos de 600 euros, vestidos de 10.000 e relógios de 150.000... Geneve deve ser um sítio fantástico para viver.
Não vim viver para Geneve, na verdade vim para aprender coisas novas. OK, talvez não completamente novas, mas pronunciadas pela boca de alguns dos meus heróis... os cirurgiões, anestesistas e enfermeiros do CICR (Comité Internacional da Cruz Vermelha)... e hoje tive a oportunidade de almoçar na sala onde estão expostos nada mais nada menos do que quatro Prémios Nobel da Paz... assim como quem não quer a coisa, pendurados numa parede atrás da mesa onde me sentei.
Somos 34, cirurgiões, anestesistas e enfermeiros, de varias nacionalidades, noruegueses, japoneses, neozelandeses, holandeses, colombianos, mexicanos, finlandeses, italianos, gregos... de tudo um pouco e com uma doença comum. A maioria já sabe que está doente, outros estão ainda a descobrir. As nossas conversas de intervalo comparam experiências na desgraça, Indonésia, Haiti, Líbano, Paquistão, Sudão, Chade, Somália... Os olhos brilham, contam-se historias do terreno, das vidas salvas, das vidas que não se salvaram, dos medos, dos receios, dos riscos do trabalho em locais onde ninguém com um mínimo de inteligência pensaria incluir no seu curriculum de viagens. Todos sem excepção, já fizeram, ou querem fazer, cirurgia de guerra !
Há homens, mulheres, gente solteira, casada, com filhos, sem filhos, com família, sem família... Não são bonitos nem feios, há gente com ar selvagem, com ar formal, com tattoos, com mochilas e com pastas...conheci um holandês que tem o seu veleiro em Lagos, e já combinámos uma viagem até Lisboa, conheci um surfista inglês que adora a Ericeira, uma neozelandesa que esteve um ano em Timor, uma dinamarquesa que regressou há três dias da Síria... Tentei traçar o perfil e não consigo, acho que a idade é relevante, quase tudo a cima dos 40... dos 50... Mas não têm um andar esquisito, um olhar esquisito, ou um qualquer tique que os identifique se nos cruzarmos na rua... parecem pessoas normais, mas estão aqui.
Será que, com a idade e com a morte de alguns neurónios inibidores, começamos a revelar a nossa verdadeira essência ? Será um processo infeccioso, por contágio directo, sempre que falamos com algum destes seres a quem brilham os olhos ? Ou será que primeiro, temos que viver alguns anos, antes de descobrir o que nos move, o que nos faz querer ser cada vez melhores, o nosso destino ?
Estou perfeitamente (e assustadoramente) integrado no meio de uma tribo nómada que não se reconhece como tal, gente que vive em locais confortáveis, países civilizados, com acesso a tudo ou quase tudo, e no entanto, por uma qualquer razão que um dia seguramente vou descobrir, estão dispostos a trocar o conforto do seu lar, a sua familia e os seus amigos, o seu trabalho, por três meses em condiçōes humanamente difíceis, pondo em risco a sua vida, a sua integridade física, a sua sanidade mental... Será um teste à nossa capacidade enquanto seres humanos ? Uma penitência, pela vida relativamente folgada que levamos ? Haverá um gene missionário ? Ou será simples loucura, no seu estado mais refinado ? O que leva um cirurgião a querer operar sem canivete eléctrico ? Sem stapplers ? O que leva um anestesista a querer anestesiar sem oxigénio ? Quase sem monitorização ? Sem sangue ? Será a necessidade de perceber o limite ? De ultrapassar o limite ? O eterno descontentamento ? Ou a busca pelas respostas ?
Ao longo do dia fui vendo as apresentações de quem esteve no terreno, as imagens de cirurgias ao ar livre, à sombra de uma árvore, em palhotas, em hospitais sem água corrente, sem electricidade, os sorrisos de quem recebeu ajuda... as minhas próprias memórias mareavam-me os olhos, vi aquelas crianças e pensei nas minhas filhas... e eu ainda não fiz cirurgia de guerra...
Será que temos uma missão nesta vida ? Será possível que a realização pessoal e profissional de alguém, na posse das suas faculdades mentais, inclua o envolvimento activo em cenários de guerra, em cenários de catástrofe ? Será por isso que no fim de cada apresentação estamos constantemente a ouvir "if you still want to work with us..."
Estou cheio de duvidas... e cheio de certezas!
sexta-feira, 22 de março de 2013
quinta-feira, 7 de março de 2013
Wonder Woman
Era um daqueles indescritíveis dias de primavera. Sentado na esplanada, apreciava o sol, a cerveja e o jornal do dia. Nesses dias somos quase imperturbáveis. Pouca coisa iria desviar-me do meu estado zen...
Eis senão quando, um vulto entra pelo meu campo de visão...altiva, quase majestosa, passo certo, decidido e compassado. Botas de salto, cano alto moldado na perna sobre umas calças de ganga justas que faziam sobressair as curvas demasiado perfeitas sem que por baixo se notasse qualquer outra prega fora do contexto. Um cinto largo de cabedal, sobre uma camisa branca, rematava a meia altura, um tronco delgado, encimado por duas semi-esferas que se projectavam como que olhando para o infinito e desafiando a gravidade. Os braços, com uma tonalidade dourada, terminavam, em mãos lindas com unhas vistosas, vermelhas, sem falhas. Tinha os lábios pintados de vermelho, um sorriso branco, os olhos verdes emoldurados por umas pestanas enormes, sobrancelhas arranjadas, e um cabelo da cor do sol, suportando um par de óculos escuros, apanhado por um rabo de cavalo que o fazia arquear no ar e balançar ao ritmo da sua passada.
Penso na imagem e quase que consigo ouvir o som dos saltos na calçada... Um homem não fica indiferente a quem anda assim. Estava absorvido por este pensamento, quando percebo que se encaminhava para a mesa ao lado da minha. Sentou-se, reclinou-se para trás, fechou os olhos, estendeu o pescoço, cruzou as pernas e eu deixei-me ficar... a babar...
Deus que é grande e anda a brincar com o "joystick" das pessoas, havia empurrado aquele ser para junto de mim, provavelmente porque não tem capacidade de o colocar directamente no meu colo, pensei. Esta é a tua deixa rapaz.
Enchi-me de coragem, e com o ar mais convicto do mundo perguntei-lhe se se sentia bem... parecia cansada... seria o inicio de uma longa conversa... começou por contar-me que de facto, o dia tinha sido intenso.
Naquele dia, levantara-se cedo. Começara logo pela manhã com uma consulta para branqueamento dentário, e a correcção de algumas das facetas de porcelana que se haviam descolado. Saída do dentista foi fazer uma sessão de spray bronzeador, porque a sessão anterior já começava a desbotar. Seguiram-se umas horas no cabeleireiro a pintar o cabelo porque as raízes castanhas já estavam grandes, colocar as extensões porque o volume não dava para o que ela queria, colocar as pestanas postiças, porque sem elas os olhos desvaneciam e arranjar as sobrancelhas que cresciam demasiado. Aproveitou e em simultâneo arranjou as unhas com o gelinho porque o verniz estava todo estalado. Mal teve tempo de almoçar porque tinha uma marcação para mudar as lentes de contacto, aparentemente as outras, as azuis, deixavam transparecer o castanho dos seus olhos. Ainda uma breve passagem pelo centro comercial, para comprar a cinta adelgaçante porque o corpo já não tem a tonicidade dos 20 anos e as pregas que antes não se viam agora estão lá para toda a gente ver, as calças push-up com enchimento porque a ausência de volume nas nádegas deixava-a constrangida, e um novo soutien wonderbra almofadado para vencer a gravidade que exerce a sua força durante as vinte e quatro horas do dia, sete dias por semana, e já agora aproveitar o efeito para devolver o contorno e projecção que outrora existiu. Por sorte, juntamente com o wonderbra, ofereceram-lhe como brinde umas cuecas cor de pele, largas, mas sem costuras para não transparecer por baixo as calças... porque a costura das cuecas... bem, isso de facto, não é nada sexy.
Respirei fundo, fiz um esforço, e acordei, antes que fosse tarde demais. Tenho que me deixar destes sonhos...
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Ensaio sobre a loucura
Em tempos tinha escrito numa pequena crónica Facebookiana, que um dia haveria de dissertar sobre o fim das relações. À minha volta, vejo muita gente a percorrer este longo caminho e desde há vários meses que ando a cozinhar esta ideia... e não me perguntem porquê, porque simplesmente não o direi, é apenas um facto que dou de barato. Sinto no entanto que, fruto de uma inspiração ocasional, acabei por ir um pouco mais longe, provavelmente porque concluí que o tema é demasiado complexo e não é fácil fugir à tentação de cair nos clichés habituais. Há coisas que não se aprendem na escola ou na faculdade, simplesmente aprendem-se com a idade.
Na produção cinematográfica e musical anglo-saxónica, deparamo-nos muitas vezes com a expressão "I love you", abarcando um conjunto de emoções que na tradução em Português oscilam entre o "gosto de ti" e o "amo-te", mas agora, à luz desta minha visão, creio que poderíamos livremente traduzir o "I love you" para um "sou louco por ti", porque no fundo, é tudo uma questão de espectro, o espectro do desejo, ou da loucura... se preferirem.
Estou portanto convencido, que existe um conjunto mais ou menos heterogéneo de sinais e sintomas que, em si, constituem um grupo de doenças que até agora não foram devidamente diagnosticadas. Decidi chamar-lhes DED - "Doenças do Espectro do Desejo"
Estou portanto convencido, que existe um conjunto mais ou menos heterogéneo de sinais e sintomas que, em si, constituem um grupo de doenças que até agora não foram devidamente diagnosticadas. Decidi chamar-lhes DED - "Doenças do Espectro do Desejo"
Reconheço que falar de desejo nos tempos que correm é demasiado perigoso, sei que me movo em terrenos pantanosos por demais pisados. Falar sobre desejo é falar sobre aquilo que toda a gente fala, escreve e canta! Provavelmente 90% das musicas que ouvimos no rádio falam de desejo... e quase todos os grandes génios da literatura já escreveram umas quantas linhas sobre o tema. Se eu não for crucificado por esta crónica, provavelmente não mais o serei...
As "Doenças do Espectro do Desejo" são características deste princípio de século XXI. São doenças do tempo dos telemóveis, do tempo das mensagens escritas e do tempo das redes sociais. Creio que o próprio Francesco Alberoni, se voltasse a escrever "Enamoramento e Amor" já o faria numa óptica diferente, aliás, ele fez, quase 30 anos depois, mas chamou-lhe "Sexo e Amor".
Estas doenças encontram as suas raízes em factores de ordem tecnológica, emocional e física. Um leitor mais atento poderá licitamente acusar-me de estar a misturar as coisas... bem, é verdade, eu misturo coisas, sou assim. As DED incluem por exemplo, a saudade, o ciume, o ciuminho (versão light), a paixão, o amor, o "adoro-te", o "quero-te", o "preciso de ti", o "dás-me pica", o "não consigo viver sem ti", o "fazes-me falta", o "não me és totalmente indiferente", entre tantas outras que seria exaustivo estar aqui a enumerar mas que facilmente conseguirão enquadrar.
O que têm todas estas doenças em comum ? Bem... elas basicamente refletem "síndromes de privação", muitas vezes fruto de relações terminadas ou mal resolvidas, ou nunca iniciadas e como qualquer síndrome de privação, a cura está no objecto do desejo, neste caso, o outro, seja ele legítimo ou ilegítimo, à luz das convenções culturais em vigor. Não há vacina para as DED, e estas raramente causam ressaca, tremores ou suores frios, as DED causam tristeza, angustia, sensação de vazio e um grau de variável de sofrimento consoante a escala aplicada. Habitualmente não matam, mas quando o fazem, dizemos que se tratam de crimes passionais.
Como é que lidamos com este tipo de privação?
Imagino facilmente um grupo de auto-ajuda... os EA - Enamorados Anónimos. Chegávamos lá e diziamos, Olá, o meu nome é Nelson e tenho uma DED... ao que todos responderiam em uníssono, Olá Nelson ! conta-nos a tua história. Provavelmente não iria resolver nada, mas pelo menos partilhávamos a nossa miséria, e a partilha, nestes casos, pode ser um bálsamo para a alma.
Acredito que não há uma estratégia única para lidar com isto, aliás, parece-me que homens e mulheres, ao longo do tempo, adoptaram estratégias radicalmente diferentes para "resolver" a situação. Os homens tendem a exteriorizar a questão, ou seja, partem em busca de um ou mais objectos de substituição, podem ser outras pessoas, actividades ou interesses. Uma vez que o desejo, de qualquer forma, não desaparece mesmo, o melhor a fazer é recanalizar em outra direcção. Facto é que o caminho parece ser mais ou menos sempre em frente, garantidamente penoso, certamente cheio de solavancos, mas sempre em frente. Já as mulheres, interiorizam a coisa. Focam-se no auto-domínio e no auto-controle do desejo. Procuram à força toda curar-se por dentro, livrar-se do raio do objecto através de uma purga disciplinada, metódica e sistemática. Pelo caminho tendem a agarrar-se com unhas e dentes a tudo o que lhe proporcione um mínimo de segurança e conforto emocional. As que têm Facebook, publicam muitas vezes fotografias dos seus gatos. Não me perguntem porquê, é apenas mais um facto constatado. Haverá provavelmente ainda um terceiro grupo... aqueles que sendo homens ou mulheres têm, respectivamente um "cérebro de gaja" ou um "cérebro de gajo". Este grupo é especial... e aqui as estratégias são combinadas e muito mais complexas, mistura-se o auto-dominio com a a fuga, a evicção com a substituição, tudo envolto numa certa dose de orgulho próprio e uma pitada de "vou fazer de conta que não existes".
O problema destas terapêuticas, já está mais do que identificado. O próprio Facebook, acaba de lançar duas aplicações que procuram ajudar os que por lá andam. "Killswitch" (podem seguir o link) é uma aplicação que apaga todas as referências ao outro, o tal do desejo. Promete tirar da vista tudo aquilo que não sai da cabeça ou do coração. De alguma forma, elimina todo o fluxo de mensagens subliminares de parte a parte. Acho que é para os verdadeiramente decididos, aqueles que reconhecem ter o problema, e querem mesmo, mesmo, curar-se. Quase simultaneamente, foi lançada uma outra aplicação chamada "Bang with friends". Aqui o objectivo é outro, entramos no campo da terapêutica de substituição. Identificam-se novos potenciais objectos de desejo, e quando há um match recíproco, ambos são avisados, para que possam, enfim... substituir. Estas novas tecnologias em prol da cura não param de me surpreender.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Al-morroides
Todas as profissões, atividades e áreas do conhecimento têm os seus termos técnicos e a sua nomenclatura própria. Este léxico, que contribui para a nossa riqueza linguística é um património muitas vezes acumulado ao longo de dezenas, por vezes, centenas de anos. Acredito que não existiu maldade nem segundas intenções nem um propósito mais ou menos obscuro, quando alguém criou os termos "Tomografia de Emissão de Positrões" vulgo PET, ou "Ecocardiografia Endoscópica Trans-esofágica", mas facto é, que quem não dominar a arte dos exames complementares de diagnóstico, simplesmente não chega lá.
Face ao exposto, parece-me algo correto afirmar que, o que faz com que determinado individuo seja considerado um perito, é, nem mais nem menos, e tão somente, o domínio dos termos técnicos da sua profissão. Pode não saber ao certo o que significam, mas se conseguir pronunciar os mesmos com autoridade, confiança, e sem se engasgar, é um perito! Aos olhos dos não peritos, dito leigos, este individuo, sabe do que fala! E dito isto não consigo esquecer a cena do saudoso Vasco Santana, perante o juri do seu exame de anatomia, pronunciando de uma só vez a palavra, esternocleidomastoideu, levando ao rubro o público que assistia ao seu exame. Temos Doutor! Obviamente!
Sempre me senti incomodado, com as pessoas, ditos peritos, que ao falarem com leigos na sua área, fazem questão de utilizar os termos técnicos que dominam na perfeição sem ter o cuidado de abrir e fechar um parêntesis que inclua uma breve explicação em português corrente. Isto aplica-se claramente aos médicos, aos advogados, aos economistas, aos engenheiros, aos arquitectos, aos mecânicos e até ás costureiras! Em verdade, isto aplica-se a quase toda a gente! Porque quase toda a gente fala daquilo que sabe, assumindo o principio que quem vai ouvir claramente também domina o tema, ou não! Quando sou confrontado com esse tipo de pessoas, habitualmente faço questão de dizer: "Se não se importa, explique-me como se eu tivesse 6 anos"... e aí a coisa complica-se.
Ainda agora na minha recente experiência vélica, dei por mim completamente fora da minha zona de conforto, quando de repente, começo a ouvir, "folga o gaio !!!", "caça o amantilho !!!", "a adriça do spi está enrolada na adriça da genoa !!!", "folga a alanta e caça a escota !!!". Percebem a questão ?! Se não dominamos a arte, estamos completamente a leste.
Acontece que vivemos em Portugal, e em Portugal o povo não se acanha. A malta cá, se não sabe inventa ! Desde que a coisa soe parecido, é sempre em frente e fé em Deus. Então na área de medicina o povo é verdadeiramente soberano e se alguns mais acanhados, tentam expressar-se em português corrente, utilizando expressões como "a boca do corpo", " a verga" e "a quebradura", já outros, convictamente lançam na conversa "a argália entupiu-se" ou "tenho uma ursula no diodeno". À conta da nossa sociedade de informação, o contrário também acontece. Ainda há bem pouco tempo, perante uma doente que tinha batido com a cabeça e não apresentava sinais de gravidade, quis tranquilizar a senhora dizendo, pode ir descansada, isso que tem na cabeça é apenas "um galo"... ao que a senhora fuzilou-me com os olhos e afirmou, não é um galo não senhor doutor, é um hematoma ! Palavras para quê ?
Isto tudo a propósito de um caso recente, em que uma paciente dizia-me assim, oh doutor, o meu marido fez um "taco", mas aquilo não deu nada, depois afinal foi preciso fazer um "cataclismo cardíaco" e acabou operado a um "aneurisma da aurora". Pensei para comigo, felizmente não foi necessário fazer nenhum "clister ao pato", não por causa da "soltura" ou da "ursa no estôgamo" que essa felizmente anda controlada, mas porque as "almorroides estão em carne viva" e meter um tubo pelo "anes" nestas circunstâncias é no mínimo chato. Pensei, mas não disse. Dizer, seria revelar sinais evidentes de "leucoencefalopatia aterosclerótica subcortical microangiopática"... ou seja, um parafuso da cabeça danificado pelo uso.
Isto tudo a propósito de um caso recente, em que uma paciente dizia-me assim, oh doutor, o meu marido fez um "taco", mas aquilo não deu nada, depois afinal foi preciso fazer um "cataclismo cardíaco" e acabou operado a um "aneurisma da aurora". Pensei para comigo, felizmente não foi necessário fazer nenhum "clister ao pato", não por causa da "soltura" ou da "ursa no estôgamo" que essa felizmente anda controlada, mas porque as "almorroides estão em carne viva" e meter um tubo pelo "anes" nestas circunstâncias é no mínimo chato. Pensei, mas não disse. Dizer, seria revelar sinais evidentes de "leucoencefalopatia aterosclerótica subcortical microangiopática"... ou seja, um parafuso da cabeça danificado pelo uso.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
O Unicórnio
Mais um admirável texto da minha amiga Bárbara, despertou em mim uma necessidade incontrolável de prestar alguns esclarecimentos em relação a algumas das séries médicas que habitam os nossos canais televisivos. Aparentemente a televisão descobriu que o comum dos mortais, que abomina hospitais e tudo o que tenha a haver com eles, entretém-se a ver séries passadas em hospitais. Vá-se lá compreender o comum dos mortais e os seus devaneios...a psicologia humana é uma teia muito densa.
Dr House
Resumo: Um médico internista cinquentão, coxo e toxicodependente, tem um affair com uma administradora hospitalar (razão pela qual mantém o seu emprego) e é confrontado com casos que não lembram nem ao diabo. Está assessorado por um conjunto de marrões, também eles internistas, que além de acharem que a Granulomatose de Wegner, o Lupus Eritmatoso Disseminado a Porfiria ou a Sarcoidose são sempre diagnósticos prováveis, conseguem inverter todo o fluxograma diagnóstico partindo dos exames mais complexos para os menos complexos saltando outros fundamentais. Esta esquizofrenia diagnóstica, agrava-se quando se percebe que são eles próprios que realizam estes exames, tipo biópsias cerebrais, ressonâncias magnéticas e cateterismos cardíacos. Na dúvida, os doentes levam com provas terapêuticas de tuberculostáticos, anti-retrovirais ou até quimioterapia !
Credibilidade da série de 0 a 10: -1 Como é óbvio os internistas não dormem com administradoras hospitalares.
Anatomia de Grey
Resumo: A anatomia de Grey, prima pelos esteriótipos. Por entre os especialistas, há um gajo giro e inteligente que obviamente é Neurocirurgião. Há um gajo giro e "bon vivant" que obviamente é Cirurgião Plástico, a lésbica grande é Ortopedista, a Ginecologista gira pirou-se para outra série e vejam lá quem é que representa a Cirurgia Geral... a Miranda Bailey... já o anestesista, que obviamente dorme com a Cirurgiã, nem me lembro do nome...O resto é internagem residente que faz o melhor que pode, apesar de não enganar ninguém. A miúda marrona, feia e com mau feitio quer ser Cirurgiã Cardíaca, a miúda gira descompensada quer ir para Cirurgia Geral,... mas se calhar quer é Neurocirurgia, o gajo charmoso, com algum estilo vai fazer as delicias das mães das criancinhas na pediatria e a irmã mais nova da que quer ser Cirurgiã, só sabe que quer dormir com o Plástico, ou será com o futuro Pediatra.... Nesta série, eles dormem com elas, elas dormem com elas, e todos dormem mais ou menos com todos de acordo com a temporada em questão.
Credibilidade da série de 0 a 10: 1 Como é óbvio, é tudo uma questão de sexo e não de diagnósticos ou terapêuticas.
E.R.
Resumo: Para quem gosta de um mínimo de realismo em relação ao trabalho no Serviço de Urgência.
Bons casos, bons fluxogramas diagnósticos e boas opções terapêuticas.
Credibilidade da série de 0 a 10: 8 Pela quase ausência de sexo.
Ponto comum. Na maioria das séries televisivas passadas em hospitais, há uma sala de médicos, com alcatifa e caminhas e candeeiros de cabeceira e camas e lençóis onde acontece de tudo um pouco incluindo sexo. Isto porque os internos americanos chamam-se "residents" ou seja, passam tanto tempo no hospital que praticamente residem por lá. Em portugal os médicos são "homeless", trabalham nos hospitais, mas ninguém os quer por lá. Portanto, sexo na sala dos médicos seria como sexo num parque de estacionamento de um aeroporto... exigiria uma química quase transcendental entre os dois...e uma física, tipo nuclear, explosiva... Já para não falar da abstracção necessária ao movimento de passageiros e aos diversos anúncios das partidas e chegadas... Isto pertence portanto ao reino da fantasia. Em Portugal, a cena mais escabrosa que se poderá encontrar numa sala de médicos são 7 ou 8 pessoas assexuadas, semi-deitadas ou semi.sentadas, em cadeirões desconfortáveis, alinhados contra a parede, a partilhar odores corporais e a roncar descompassadamente ás quatro da manhã. É isto, e pouco mais.
A comunidade swinger anglo-saxónica (os das trocas de casais, não os da música) tem um termo delicioso para descrever uma mulher single que se queira envolver com outros casais, chamam-lhe o Unicórnio, porque é tão raro que praticamente pertence ao reino da fantasia. Eu acho que este pessoal da televisão anda a vender-nos Unicórnios... e a este respeito só me ocorre uma ideia, se um dia estiverem na baixa da cidade e ouvirem cascos a soar no asfalto...o mais provável é serem cavalos ou burros, eventualmente zebras, mas dificilmente serão Unicórnios. Não quer dizer que não os haja... Mas quem já viu algum ? Portanto desfaça-se o mito.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Mulheres pequenas...
Os meus pais têm 10 netos, distribuidos por 4 filhos.
A minha irmã tem 2 raparigas e 1 rapaz, o meu irmão tem 2 rapazes e 1 rapariga, a outra irmã tem 1 casal... tudo muito equilibrado portanto, mas eu tenho 2 raparigas... e pelo que me é dado a observar, esta é uma combinação diferente, muito diferente.
Eu vivo com 3 mulheres. Dito assim, até parece que Deus respondeu ás minhas preces, mas analisando o caso em profundidade, só me ocorre dizer, que se calhar, não me expliquei bem quando exprimi os meus desejos. É verdade que a adolescência passada num colégio interno só de homens, tem um efeito tipo "red bull"... dá-nos asas... mas Deus... não era bem assim que eu tinha imaginado a coisa. PS - Ainda vais a tempo de emendar ;)
Tenho em casa um quarto cor-de-rosa, o quarto das mulheres. Um homem nunca iria tolerar um quarto cor de rosa... mas duas mulheres...enfim. O quarto das mulheres tem armários e gavetas cheios de roupa de mulher pequena e algumas das peças, não me são familiares. Não fui treinado para vestir collants, saias ou vestidos. Homem que é homem, sabe despir... portanto quando me pedem ajuda, faço os possíveis, mas definitivamente não está na minha natureza. Tentem sentar uma mulher ao colo e vestir-lhe uns collants... é um processo contra-natura. Escovar o cabelo, ainda vá que não vá... mas colocar ganchos é ter a certeza que na escola percebem logo quem as vestiu pela manhã. Eu bem as tento enganar, dizendo que o facto de o cabelo ficar em pé ou aparentemente assimétrico é "fashion" uma palavra a que elas habitualmente são sensíveis, mas ultimamente percebi que toleram o meu mau jeito sem grandes argumentações e depois, sozinhas, sem que eu esteja a ver, ajeitam aquilo à sua maneira. Já com a roupa, desisti de argumentar. Levem o que quiserem, porque sinceramente, ás 7h da manhã não há paciência para discutir roupa e tentar demonstrar que sim, que os sapatos têm uma risquinha azul, mas que esta combina com o vestido e com a fita e com as unhas! HELP!
Também já aprendi que as mulheres pequenas, ao contrário do que parecem, não são mulheres grandes em miniatura, são uma espécie à parte, estão em evolução. As mulheres com menos de 10 anos não são mulheres, são princesas, com tudo aquilo a que têm direito, vestidos com rendas, varinhas mágicas para espetar nos olhos, sapatos de salto que fazem barulho e tiaras de plástico para espezinhar e partir em mil pedaços. Uma princesa não pede nada ao pai, ela tenta sim, seduzir o pai, ao ponto de querermos desesperadamente dar-lhe o que quer que ela deseje, como se no fundo a ideia inicial fosse nossa. As princesas marcam o seu território na casa, como se de um reino se tratasse. Não o fazem da forma convencional, mas com bonecas, ganchos, elásticos, fitas para o cabelo, escovas, acessórios de bonecas... e tudo aquilo que nos dê a sensação de que passou um tornado lá em casa. Não será portanto de estranhar, encontrar um mini salão de cabeleireiro no hall de entrada, um dormitório de bonecas no escritório, um supermercado na sala ou a casa de banho transformada numa enorme linha de lavagem e secagem de cabelos de bonecas. Faz tudo parte de um elaborado plano cujo objectivo ultimo é tomar conta da casa, de todas as divisões, sem excepção.
As princesas pintam-se... muito, e perfumam-se ainda mais. Pintam tudo o que esteja ao alcance do braço e como tal não se limitam à cara, ás paredes ou aos sofás. A pintura é uma forma de expressão e elas levam isso muito a sério... ah, e não vale a pena resistir. Se elas quiserem experimentar as várias tonalidades de batom na boca do pai, o melhor é fingir que entramos em coma e esperar que passe, ou que eventualmente o batom se acabe, o que não é raro porque elas tendem a carregar.
As princesas têm uma dificuldade enorme em ver alguém sentado a ver televisão. Há qualquer coisa naquelas cabeças, que entende que um homem sentado, só pode estar à espera de espectáculo, portanto é quase certo que mais cedo ou mais tarde, há passagem de modelos, com as roupas e acessórios da mãe, ao som de uma qualquer musica improvisada e com uma coreografia habitualmente muito desajustada à idade. Se se sentam a vêr televisão, optam tradicionalmente por uma qualquer série juvenil na linha da Hanna Montana, dobrada em Português, ou uma típica novela portuguesa com muito drama, traição e ciúme. Assustam-se com cenas de tiros e pancadaria, mas arregalam os olhos se vêm um homem a beijar uma mulher e em menos de nada já querem saber tudo sobre beijos com lingua e respectivos amassos, incluindo o porquê das cegonhas e dos cegonhos.
Invariavelmente, a hora do banho, é mais complexa do que seria com um rapaz... não que haja mais coisas para lavar, pelo contrário, há é mais coisas para experimentar, e não vale a pena dizer que hoje não é dia de lavar o cabelo... está ali o amaciador, é para ser usado.
Ou seja, eu estou a criar mulheres que um dia vão viver com alguém, que eventualmente as vai amar por aquilo que elas forem, e não por aquilo que elas foram. Por aquilo que elas são, amo-as eu!
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Fixações :)
Há uma linha que separa a loucura da sanidade, o hábito da obsessão e a dor do prazer. É uma linha muito, muito ténue… e para quem como eu, a roçar os 40, começa a ter dificuldades de visão ao perto, esta linha é praticamente invisível. Correndo o risco de ser mal interpretado devido à inevitável generalização, aquilo que não se vê tem grande probabilidade de não existir, excepção feita a algumas pessoas, que não se vêm, mas sabemos que estão lá, talvez.
Tenho em casa, uma mulher adulta, com 34 anos, aparentemente saudável e em vias de se doutorar. Academicamente brilhante, esta mulher tem uma fraqueza… pelo menos que eu saiba. A fraqueza dela está num pequeno corredor de uma grande superfície comercial, a Staples, essa verdadeira meca do material de escritório, e derivados. Convenhamos que não é um corredor qualquer… não é o corredor dos envelopes, dos dossiers, das impressoras ou dos telemóveis…é o corredor mais maravilhoso de toda a loja, o corredor das canetas e das borrachas, uma verdadeira montra de utensílios que permitem a escrita e a respectiva emenda. Ali, tudo alinhado e pendurado, como que a pedir, toca-me, experimenta-me. Ela chama a esse corredor, o seu lugar de conforto. Ali, o tempo pára, faça chuva ou faça sol, ali é sempre primavera. Há que ver todas as canetas… as grossas e as finas, a cor, o peso, o comprimento, a zona onde os dedos de apoiam, o traço, o mecanismo de abertura, a estética geral…e há as borrachas, as borrachinhas, as borrachonas, brancas, verdes, cor de rosa, macias, duras, com e sem cheiro, redondas, rectangulares, quadradas… uma panóplia de opções com um objectivo único, escrever bem, e apagar, com estilo... ou antes, com prazer.
Há já algum tempo que conhecia esta sua fraqueza, mas agora mais recentemente percebi que não era caso isolado. Peguei no telefone, e fiz um pequeno inquérito junto dos meus amigos e familiares. A amostra é representativa e inclui Continente e Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira. Os resultados, mostram bem que a tal linha… já era.
Há quem se perca na FNAC…na zona dos livros, mas depois uma qualquer força invisível encarrega-se de a desviar para na zona dos bloquinhos, dos caderninhos, lindos, queridos, daqueles que dá vontade de ter para escrever, ou só para olhar. Há os brancos, com linhas, com quadrados, tipo agenda, de capa dura, de capa mole, com argolas, sem argolas, com padrões, com cores, com fita marcadora, sem fita marcadora, com elástico, sem elástico, com molinha, sem molinha, A5, A6, A7… são tão lindos que quem os compra, não precisa deles, não os quer para escrever, simplesmente quer, e é tão bom ter…É um pequeno conforto.
Há quem se perca na Acessorize… correndo o risco de perder uma hora inteira de almoço, a ver tudo, tudo, tudo… e no fim sai de lá com um sorriso nos lábios e sem nada na mão, como se o simples facto de poder admirar os bloquinhos de post-it, com ursinhos, com veadinhos, com folhinhas de Outono, alimentasse o estômago. Ás vezes compram… acessórios, que depois não acessoriam nada, porque não dão com nada, porque não servem para nada, ou porque simplesmente são tão giros que seria uma pena usar, e isso seria deturpar o princípio subjacente a esta pequena loucura.
A minha irmã mais nova, que também se perde na Acessorize, consegue ainda bater o recorde da mais longa permanência voluntária num espaço confinado, com cerca de 2m x 2m… uma muito, muito, pequena loja, cheia de velas e sabonetes feitos à mão... Não há muito por onde circular. Praticamente a pessoa roda sobre o seu eixo como se de um ponteiro de relógio se tratasse… obviamente, para ela, é como se fosse o ponteiro das horas, roda lentamente, e no fim, bem, no fim não precisa de velinhas nem de sabonetes… mas sabe tão bem.
Tenho uma colega que mora num apartamento, não tem quintal, tem uma pequena varanda com alguns vasos. Ela adora um determinado corredor do AKI. Ela não só adora, como efectivamente compra naquele corredor. Compra máquinas de jardinagem, daquelas para podar sebes, para aparar os canteiros… e sei que em tempos esteve mesmo para comprar um daqueles carinhos corta-relva, não que ela tenha relva na varanda… mas são tão giros, e dá mesmo vontade de andar ali de um lado para o outro a cortar a relva…
Hoje estou plenamente convicto que a maioria das pessoas que ler isto, vai tentar identificar o seu lugar de conforto. Aquele lugar onde ficamos literalmente estúpidos, esbabacados, zen. Aquele lugar onde contemplamos os objectos expostos como se realmente precisássemos deles… não para o fim a que se destinam… mas porque queremos, porque desejamos... porque são giros, ou queridos ou fofinhos, ou cheiram bem... enfim, porque sim.
Eu também tenho o meu corredor… e quando penso sobre isso não tenho grandes dúvidas. Não é nada de especial, aliás raramente é. Fica algures no Aki, ou na Leroy Merlin… é um pequeno corredor de ferragens… e nas suas prateleiras, tem os mais variados sistemas… de fixação! Eu sei que são essencialmente buchas e parafusos… mas eu gosto… e ás vezes compro… um dia posso precisar ;)
Quem se atreve a confessar ?!
Tenho em casa, uma mulher adulta, com 34 anos, aparentemente saudável e em vias de se doutorar. Academicamente brilhante, esta mulher tem uma fraqueza… pelo menos que eu saiba. A fraqueza dela está num pequeno corredor de uma grande superfície comercial, a Staples, essa verdadeira meca do material de escritório, e derivados. Convenhamos que não é um corredor qualquer… não é o corredor dos envelopes, dos dossiers, das impressoras ou dos telemóveis…é o corredor mais maravilhoso de toda a loja, o corredor das canetas e das borrachas, uma verdadeira montra de utensílios que permitem a escrita e a respectiva emenda. Ali, tudo alinhado e pendurado, como que a pedir, toca-me, experimenta-me. Ela chama a esse corredor, o seu lugar de conforto. Ali, o tempo pára, faça chuva ou faça sol, ali é sempre primavera. Há que ver todas as canetas… as grossas e as finas, a cor, o peso, o comprimento, a zona onde os dedos de apoiam, o traço, o mecanismo de abertura, a estética geral…e há as borrachas, as borrachinhas, as borrachonas, brancas, verdes, cor de rosa, macias, duras, com e sem cheiro, redondas, rectangulares, quadradas… uma panóplia de opções com um objectivo único, escrever bem, e apagar, com estilo... ou antes, com prazer.
Há já algum tempo que conhecia esta sua fraqueza, mas agora mais recentemente percebi que não era caso isolado. Peguei no telefone, e fiz um pequeno inquérito junto dos meus amigos e familiares. A amostra é representativa e inclui Continente e Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira. Os resultados, mostram bem que a tal linha… já era.
Há quem se perca na FNAC…na zona dos livros, mas depois uma qualquer força invisível encarrega-se de a desviar para na zona dos bloquinhos, dos caderninhos, lindos, queridos, daqueles que dá vontade de ter para escrever, ou só para olhar. Há os brancos, com linhas, com quadrados, tipo agenda, de capa dura, de capa mole, com argolas, sem argolas, com padrões, com cores, com fita marcadora, sem fita marcadora, com elástico, sem elástico, com molinha, sem molinha, A5, A6, A7… são tão lindos que quem os compra, não precisa deles, não os quer para escrever, simplesmente quer, e é tão bom ter…É um pequeno conforto.
Há quem se perca na Acessorize… correndo o risco de perder uma hora inteira de almoço, a ver tudo, tudo, tudo… e no fim sai de lá com um sorriso nos lábios e sem nada na mão, como se o simples facto de poder admirar os bloquinhos de post-it, com ursinhos, com veadinhos, com folhinhas de Outono, alimentasse o estômago. Ás vezes compram… acessórios, que depois não acessoriam nada, porque não dão com nada, porque não servem para nada, ou porque simplesmente são tão giros que seria uma pena usar, e isso seria deturpar o princípio subjacente a esta pequena loucura.
A minha irmã mais nova, que também se perde na Acessorize, consegue ainda bater o recorde da mais longa permanência voluntária num espaço confinado, com cerca de 2m x 2m… uma muito, muito, pequena loja, cheia de velas e sabonetes feitos à mão... Não há muito por onde circular. Praticamente a pessoa roda sobre o seu eixo como se de um ponteiro de relógio se tratasse… obviamente, para ela, é como se fosse o ponteiro das horas, roda lentamente, e no fim, bem, no fim não precisa de velinhas nem de sabonetes… mas sabe tão bem.
Tenho uma colega que mora num apartamento, não tem quintal, tem uma pequena varanda com alguns vasos. Ela adora um determinado corredor do AKI. Ela não só adora, como efectivamente compra naquele corredor. Compra máquinas de jardinagem, daquelas para podar sebes, para aparar os canteiros… e sei que em tempos esteve mesmo para comprar um daqueles carinhos corta-relva, não que ela tenha relva na varanda… mas são tão giros, e dá mesmo vontade de andar ali de um lado para o outro a cortar a relva…
Hoje estou plenamente convicto que a maioria das pessoas que ler isto, vai tentar identificar o seu lugar de conforto. Aquele lugar onde ficamos literalmente estúpidos, esbabacados, zen. Aquele lugar onde contemplamos os objectos expostos como se realmente precisássemos deles… não para o fim a que se destinam… mas porque queremos, porque desejamos... porque são giros, ou queridos ou fofinhos, ou cheiram bem... enfim, porque sim.
Eu também tenho o meu corredor… e quando penso sobre isso não tenho grandes dúvidas. Não é nada de especial, aliás raramente é. Fica algures no Aki, ou na Leroy Merlin… é um pequeno corredor de ferragens… e nas suas prateleiras, tem os mais variados sistemas… de fixação! Eu sei que são essencialmente buchas e parafusos… mas eu gosto… e ás vezes compro… um dia posso precisar ;)
Quem se atreve a confessar ?!
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