segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ensaio sobre a loucura

Em tempos tinha escrito numa pequena crónica Facebookiana, que um dia haveria de dissertar sobre o fim das relações. À minha volta, vejo muita gente a percorrer este longo caminho e desde há vários meses que ando a cozinhar esta ideia... e não me perguntem porquê, porque simplesmente não o direi, é apenas um facto que dou de barato. Sinto no entanto que, fruto de uma inspiração ocasional, acabei por ir um pouco mais longe, provavelmente porque concluí que o tema é demasiado complexo e não é fácil fugir à tentação de cair nos clichés habituais. Há coisas que não se aprendem na escola ou na faculdade, simplesmente aprendem-se com a idade.

Na produção cinematográfica e musical anglo-saxónica, deparamo-nos muitas vezes com a expressão "I love you", abarcando um conjunto de emoções que na tradução em Português oscilam entre o "gosto de ti" e o "amo-te", mas agora, à luz desta minha visão, creio que poderíamos livremente traduzir o "I love you" para um "sou louco por ti", porque no fundo, é tudo uma questão de espectro, o espectro do desejo, ou da loucura... se preferirem.

Estou portanto convencido, que existe um conjunto mais ou menos heterogéneo de sinais e sintomas que, em si, constituem um  grupo de doenças que até agora não foram devidamente diagnosticadas. Decidi chamar-lhes DED - "Doenças do Espectro do Desejo"

Reconheço que falar de desejo nos tempos que correm é demasiado perigoso, sei que me movo em terrenos pantanosos por demais pisados. Falar sobre desejo é falar sobre aquilo que toda a gente fala, escreve e canta! Provavelmente 90% das musicas que ouvimos no rádio falam de desejo... e quase todos os grandes génios da literatura já escreveram umas quantas linhas sobre o tema. Se eu não for crucificado por esta crónica, provavelmente não mais o serei...

As "Doenças do Espectro do Desejo" são características deste princípio de século XXI. São doenças do tempo dos telemóveis, do tempo das mensagens escritas e do tempo das redes sociais. Creio que o próprio Francesco Alberoni, se voltasse a escrever "Enamoramento e Amor" já o faria numa óptica diferente, aliás, ele fez, quase 30 anos depois, mas chamou-lhe "Sexo e Amor".

Estas doenças encontram as suas raízes em factores de ordem tecnológica, emocional e física. Um leitor mais atento poderá licitamente acusar-me de estar a misturar as coisas... bem, é verdade, eu misturo coisas, sou assim. As DED incluem por exemplo, a saudade, o ciume, o ciuminho (versão light), a paixão, o amor, o "adoro-te", o "quero-te", o "preciso de ti", o "dás-me pica", o "não consigo viver sem ti", o "fazes-me falta", o "não me és totalmente indiferente", entre tantas outras que seria exaustivo estar aqui a enumerar mas que facilmente conseguirão enquadrar.

O que têm todas estas doenças em comum ? Bem... elas basicamente refletem "síndromes de privação", muitas vezes fruto de relações terminadas ou mal resolvidas, ou nunca iniciadas e como qualquer síndrome de privação, a cura está no objecto do desejo, neste caso, o outro, seja ele legítimo ou ilegítimo, à luz das convenções culturais em vigor. Não há vacina para as DED, e estas raramente causam ressaca, tremores ou suores frios, as DED causam tristeza, angustia, sensação de vazio e um grau de variável de sofrimento consoante a escala aplicada. Habitualmente não matam, mas quando o fazem, dizemos que se tratam de crimes passionais.   

Como é que lidamos com este tipo de privação?
Imagino facilmente um grupo de auto-ajuda... os EA - Enamorados Anónimos. Chegávamos lá e diziamos, Olá, o meu nome é Nelson e tenho uma DED... ao que todos responderiam em uníssono, Olá Nelson ! conta-nos a tua história. Provavelmente não iria resolver nada, mas pelo menos partilhávamos a nossa miséria, e a partilha, nestes casos, pode ser um bálsamo para a alma. 

Acredito que não há uma estratégia única para lidar com isto, aliás, parece-me que homens e mulheres, ao longo do tempo, adoptaram estratégias radicalmente diferentes para "resolver" a situação. Os homens tendem a exteriorizar a questão, ou seja, partem em busca de um ou mais objectos de substituição, podem ser outras pessoas, actividades ou interesses. Uma vez que o desejo, de qualquer forma, não desaparece mesmo, o melhor a fazer é recanalizar em outra direcção. Facto é que o caminho parece ser mais ou menos sempre em frente, garantidamente penoso, certamente cheio de solavancos, mas sempre em frente. Já as mulheres, interiorizam a coisa. Focam-se no auto-domínio e no auto-controle do desejo. Procuram à força toda curar-se por dentro, livrar-se do raio do objecto através de uma purga disciplinada, metódica e sistemática. Pelo caminho tendem a agarrar-se com unhas e dentes a tudo o que lhe proporcione um mínimo de segurança e conforto emocional. As que têm Facebook, publicam muitas vezes fotografias dos seus gatos. Não me perguntem porquê, é apenas mais um facto constatado. Haverá provavelmente ainda um terceiro grupo... aqueles que sendo homens ou mulheres têm, respectivamente um "cérebro de gaja" ou um "cérebro de gajo". Este grupo é especial... e aqui as estratégias são combinadas e muito mais complexas, mistura-se o auto-dominio com a a fuga, a evicção com a substituição, tudo envolto numa certa dose de orgulho próprio e uma pitada de "vou fazer de conta que não existes".

O problema destas terapêuticas, já está mais do que identificado. O próprio Facebook, acaba de lançar duas aplicações que procuram ajudar os que por lá andam. "Killswitch" (podem seguir o link) é uma aplicação que apaga todas as referências ao outro, o tal do desejo. Promete tirar da vista tudo aquilo que não sai da cabeça ou do coração. De alguma forma, elimina todo o fluxo de mensagens subliminares de parte a parte. Acho que é para os verdadeiramente decididos, aqueles que reconhecem ter o problema, e querem mesmo, mesmo, curar-se. Quase simultaneamente, foi lançada uma outra aplicação chamada "Bang with friends". Aqui o objectivo é outro, entramos no campo da terapêutica de substituição. Identificam-se novos potenciais objectos de desejo, e quando há um match recíproco, ambos são avisados, para que possam, enfim... substituir. Estas novas tecnologias em prol da cura não param de me surpreender.

Talvez todas estas estratégias estejam condenadas ao fracasso... Talvez não haja mesmo cura... ou talvez a razão esteja simplesmente do lado do Mia Couto..."A saudade é uma tatuagem na alma. Só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós.", o que então será caso para dizer, levem o que quiserem, mas acabem-me com este sofrimento.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Al-morroides

Todas as profissões, atividades e áreas do conhecimento têm os seus termos técnicos e a sua nomenclatura própria. Este léxico, que contribui para a nossa riqueza linguística é um património muitas vezes acumulado ao longo de dezenas, por vezes, centenas de anos. Acredito que não existiu maldade nem segundas intenções nem um propósito mais ou menos obscuro, quando alguém criou os termos "Tomografia de Emissão de Positrões" vulgo PET, ou "Ecocardiografia Endoscópica Trans-esofágica", mas facto é, que quem não dominar a arte dos exames complementares de diagnóstico, simplesmente não chega lá.

Face ao exposto, parece-me algo correto afirmar que, o que faz com que determinado individuo seja considerado um perito, é, nem mais nem menos, e tão somente, o domínio dos termos técnicos da sua profissão. Pode não saber ao certo o que significam, mas se conseguir pronunciar os mesmos com autoridade, confiança, e sem se engasgar, é um perito! Aos olhos dos não peritos, dito leigos, este individuo, sabe do que fala! E dito isto não consigo esquecer a cena do saudoso Vasco Santana, perante o juri do seu exame de anatomia, pronunciando de uma só vez a palavra, esternocleidomastoideu, levando ao rubro o público que assistia ao seu exame. Temos Doutor! Obviamente!

Sempre me senti incomodado, com as pessoas, ditos peritos, que ao falarem com leigos na sua área, fazem questão de utilizar os termos técnicos que dominam na perfeição sem ter o cuidado de abrir e fechar um parêntesis que inclua uma breve explicação em português corrente. Isto aplica-se claramente aos médicos, aos advogados, aos economistas, aos engenheiros, aos arquitectos, aos mecânicos e até ás costureiras! Em verdade, isto aplica-se a quase toda a gente! Porque quase toda a gente fala daquilo que sabe, assumindo o principio que quem vai ouvir claramente também domina o tema, ou não! Quando sou confrontado com esse tipo de pessoas, habitualmente faço questão de dizer: "Se não se importa, explique-me como se eu tivesse 6 anos"... e aí a coisa complica-se.

Ainda agora na minha recente experiência vélica, dei por mim completamente fora da minha zona de conforto, quando de repente, começo a ouvir, "folga o gaio !!!", "caça o amantilho !!!", "a adriça do spi está enrolada na adriça da genoa !!!", "folga a alanta e caça a escota !!!". Percebem a questão ?! Se não dominamos a arte, estamos completamente a leste.

Acontece que vivemos em Portugal, e em Portugal o povo não se acanha. A malta cá, se não sabe inventa ! Desde que a coisa soe parecido, é sempre em frente e fé em Deus. Então na área de medicina o povo é verdadeiramente soberano e se alguns mais acanhados, tentam expressar-se em português corrente, utilizando expressões como "a boca do corpo", " a verga" e "a quebradura", já outros, convictamente lançam na conversa "a argália entupiu-se" ou "tenho uma ursula no diodeno". À conta da nossa sociedade de informação, o contrário também acontece. Ainda há bem pouco tempo, perante uma doente que tinha batido com a cabeça e não apresentava sinais de gravidade, quis tranquilizar a senhora dizendo, pode ir descansada, isso que tem na cabeça é apenas "um galo"... ao que a senhora fuzilou-me com os olhos e afirmou, não é um galo não senhor doutor, é um hematoma ! Palavras para quê ?

Isto tudo a propósito de um caso recente, em que uma paciente dizia-me assim, oh doutor, o meu marido fez um "taco", mas aquilo não deu nada, depois afinal foi preciso fazer um "cataclismo cardíaco" e acabou operado a um "aneurisma da aurora". Pensei para comigo, felizmente não foi necessário fazer nenhum "clister ao pato", não por causa da "soltura" ou da "ursa no estôgamo" que essa felizmente anda controlada, mas porque as "almorroides estão em carne viva" e meter um tubo pelo "anes" nestas circunstâncias é no mínimo chato. Pensei, mas não disse. Dizer, seria revelar sinais evidentes de "leucoencefalopatia aterosclerótica subcortical microangiopática"... ou seja, um parafuso da cabeça danificado pelo uso.





quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Unicórnio

Mais um admirável texto da minha amiga Bárbara, despertou em mim uma necessidade incontrolável de prestar alguns esclarecimentos em relação a algumas das séries médicas que habitam os nossos canais televisivos. Aparentemente a televisão descobriu que o comum dos mortais, que abomina hospitais e tudo o que tenha a haver com eles, entretém-se a ver séries passadas em hospitais. Vá-se lá compreender o comum dos mortais e os seus devaneios...a psicologia humana é uma teia muito densa.

Dr House
Resumo: Um médico internista cinquentão, coxo e toxicodependente, tem um affair com uma administradora hospitalar (razão pela qual mantém o seu emprego) e é confrontado com casos que não lembram nem ao diabo. Está assessorado por um conjunto de marrões, também eles internistas, que além de acharem que a Granulomatose de Wegner, o Lupus Eritmatoso Disseminado a Porfiria ou a Sarcoidose são sempre diagnósticos prováveis, conseguem inverter todo o fluxograma diagnóstico partindo dos exames mais complexos para os menos complexos saltando outros fundamentais. Esta esquizofrenia diagnóstica, agrava-se quando se percebe que são eles próprios que realizam estes exames, tipo biópsias cerebrais, ressonâncias magnéticas e cateterismos cardíacos. Na dúvida, os doentes levam com provas terapêuticas de tuberculostáticos, anti-retrovirais ou até quimioterapia !
Credibilidade da série de 0 a 10: -1 Como é óbvio os internistas não dormem com administradoras hospitalares.

Anatomia de Grey
Resumo: A anatomia de Grey, prima pelos esteriótipos. Por entre os especialistas, há um gajo giro e inteligente que obviamente é Neurocirurgião. Há um gajo giro e "bon vivant" que obviamente é Cirurgião Plástico, a lésbica grande é Ortopedista, a Ginecologista gira pirou-se para outra série e vejam lá quem é que representa a Cirurgia Geral... a Miranda Bailey... já o anestesista, que obviamente dorme com a Cirurgiã, nem me lembro do nome...O resto é internagem residente que faz o melhor que pode, apesar de não enganar ninguém. A miúda marrona, feia e com mau feitio quer ser Cirurgiã Cardíaca, a miúda gira descompensada quer ir para Cirurgia Geral,... mas se calhar quer é Neurocirurgia, o gajo charmoso, com algum estilo vai fazer as delicias das mães das criancinhas na pediatria e a irmã mais nova da que quer ser Cirurgiã, só sabe que quer dormir com o Plástico, ou será com o futuro Pediatra.... Nesta série, eles dormem com elas, elas dormem com elas, e todos dormem mais ou menos com todos de acordo com a temporada em questão. 
Credibilidade da série de 0 a 10: 1 Como é óbvio, é tudo uma questão de sexo e não de diagnósticos ou terapêuticas.

E.R.
Resumo: Para quem gosta de um mínimo de realismo em relação ao trabalho no Serviço de Urgência.
Bons casos, bons fluxogramas diagnósticos e boas opções terapêuticas.
Credibilidade da série de 0 a 10: 8 Pela quase ausência de sexo.

Ponto comum. Na maioria das séries televisivas passadas em hospitais, há uma sala de médicos, com alcatifa e caminhas e candeeiros de cabeceira e camas e lençóis onde acontece de tudo um pouco incluindo sexo. Isto porque os internos americanos chamam-se "residents" ou seja, passam tanto tempo no hospital que praticamente residem por lá. Em portugal os médicos são "homeless", trabalham nos hospitais, mas ninguém os quer por lá. Portanto, sexo na sala dos médicos seria como sexo num parque de estacionamento de um aeroporto... exigiria uma química quase transcendental entre os dois...e uma física, tipo nuclear, explosiva... Já para não falar da abstracção necessária ao movimento de passageiros e aos diversos anúncios das partidas e chegadas... Isto pertence portanto ao reino da fantasia. Em Portugal, a cena mais escabrosa que se poderá encontrar numa sala de médicos são 7 ou 8 pessoas assexuadas, semi-deitadas ou semi.sentadas, em cadeirões desconfortáveis, alinhados contra a parede, a partilhar odores corporais e a roncar descompassadamente ás quatro da manhã. É isto, e pouco mais.

A comunidade swinger anglo-saxónica (os das trocas de casais, não os da música) tem um termo delicioso para descrever uma mulher single que se queira envolver com outros casais, chamam-lhe o Unicórnio, porque é tão raro que praticamente pertence ao reino da fantasia. Eu acho que este pessoal da televisão anda a vender-nos Unicórnios... e a este respeito só me ocorre uma ideia, se um dia estiverem na baixa da cidade e ouvirem cascos a soar no asfalto...o mais provável é serem cavalos ou burros, eventualmente zebras, mas dificilmente serão Unicórnios. Não quer dizer que não os haja... Mas quem já viu algum ? Portanto desfaça-se o mito.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Mulheres pequenas...

Os meus pais têm 10 netos, distribuidos por 4 filhos.
A minha irmã tem 2 raparigas e 1 rapaz, o meu irmão tem 2 rapazes e 1 rapariga, a outra irmã tem 1 casal... tudo muito equilibrado portanto, mas eu tenho 2 raparigas... e pelo que me é dado a observar, esta é uma combinação diferente, muito diferente.

Eu vivo com 3 mulheres. Dito assim, até parece que Deus respondeu ás minhas preces, mas analisando o caso em profundidade, só me ocorre dizer, que se calhar, não me expliquei bem quando exprimi os meus desejos. É verdade que a adolescência passada num colégio interno só de homens, tem um efeito tipo "red bull"... dá-nos asas... mas Deus... não era bem assim que eu tinha imaginado a coisa. PS - Ainda vais a tempo de emendar ;)

Tenho em casa um quarto cor-de-rosa, o quarto das mulheres. Um homem nunca iria tolerar um quarto cor de rosa... mas duas mulheres...enfim. O quarto das mulheres tem armários e gavetas cheios de roupa de mulher pequena e algumas das peças, não me são familiares. Não fui treinado para vestir collants, saias ou vestidos. Homem que é homem, sabe despir... portanto quando me pedem ajuda, faço os possíveis, mas definitivamente não está na minha natureza. Tentem sentar uma mulher ao colo e vestir-lhe uns collants... é um processo contra-natura. Escovar o cabelo, ainda vá que não vá... mas colocar ganchos é ter a certeza que na escola percebem logo quem as vestiu pela manhã. Eu bem as tento enganar, dizendo que o facto de o cabelo ficar em pé ou aparentemente assimétrico é "fashion" uma palavra a que elas habitualmente são sensíveis, mas ultimamente percebi que toleram o meu mau jeito sem grandes argumentações e depois, sozinhas, sem que eu esteja a ver, ajeitam aquilo à sua maneira. Já com a roupa, desisti de argumentar. Levem o que quiserem, porque sinceramente, ás 7h da manhã não há paciência para discutir roupa e tentar demonstrar que sim, que os sapatos têm uma risquinha azul, mas que esta combina com o vestido e com a fita e com as unhas! HELP!

Também já aprendi que as mulheres pequenas, ao contrário do que parecem, não são mulheres grandes em miniatura, são uma espécie à parte, estão em evolução. As mulheres com menos de 10 anos não são mulheres, são princesas, com tudo aquilo a que têm direito, vestidos com rendas, varinhas mágicas para espetar nos olhos, sapatos de salto que fazem barulho e tiaras de plástico para espezinhar e partir em mil pedaços. Uma princesa não pede nada ao pai, ela tenta sim, seduzir o pai, ao ponto de querermos desesperadamente dar-lhe o que quer que ela deseje, como se no fundo a ideia inicial fosse nossa. As princesas marcam o seu território na casa, como se de um reino se tratasse. Não o fazem da forma convencional, mas com bonecas, ganchos, elásticos, fitas para o cabelo, escovas, acessórios de bonecas... e tudo aquilo que nos dê a sensação de que passou um tornado lá em casa. Não será portanto de estranhar, encontrar um mini salão de cabeleireiro no hall de entrada, um dormitório de bonecas no escritório, um supermercado na sala ou a casa de banho transformada numa enorme linha de lavagem e secagem de cabelos de bonecas. Faz tudo parte de um elaborado plano cujo objectivo ultimo é tomar conta da casa, de todas as divisões, sem excepção.

As princesas pintam-se... muito, e perfumam-se ainda mais. Pintam tudo o que esteja ao alcance do braço e como tal não se limitam à cara, ás paredes ou aos sofás. A pintura é uma forma de expressão e elas levam isso muito a sério... ah, e não vale a pena resistir. Se elas quiserem experimentar as várias tonalidades de batom na boca do pai, o melhor é fingir que entramos em coma e esperar que passe, ou que eventualmente o batom se acabe, o que não é raro porque elas tendem a carregar.

As princesas têm uma dificuldade enorme em ver alguém sentado a ver televisão. Há qualquer coisa naquelas cabeças, que entende que um homem sentado, só pode estar à espera de espectáculo, portanto é quase certo que mais cedo ou mais tarde, há passagem de modelos, com as roupas e acessórios da mãe, ao som de uma qualquer musica improvisada e com uma coreografia habitualmente muito desajustada à idade. Se se sentam a vêr televisão, optam tradicionalmente por uma qualquer série juvenil na linha da Hanna Montana, dobrada em Português, ou uma típica novela portuguesa com muito drama, traição e ciúme. Assustam-se com cenas de tiros e pancadaria, mas arregalam os olhos se vêm um homem a beijar uma mulher e em menos de nada já querem saber tudo sobre beijos com lingua e respectivos amassos, incluindo o porquê das cegonhas e dos cegonhos.

Invariavelmente, a hora do banho, é mais complexa do que seria com um rapaz... não que haja mais coisas para lavar, pelo contrário, há é mais coisas para experimentar, e não vale a pena dizer que hoje não é dia de lavar o cabelo... está ali o amaciador, é para ser usado.

Ou seja, eu estou a criar mulheres que um dia vão viver com alguém, que eventualmente as vai amar por aquilo que elas forem, e não por aquilo que elas foram. Por aquilo que elas são, amo-as eu!





sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Fixações :)

Há uma linha que separa a loucura da sanidade, o hábito da obsessão e a dor do prazer. É uma linha muito, muito ténue… e para quem como eu, a roçar os 40, começa a ter dificuldades de visão ao perto, esta linha é praticamente invisível. Correndo o risco de ser mal interpretado devido à inevitável generalização, aquilo que não se vê tem grande probabilidade de não existir, excepção feita a algumas pessoas, que não se vêm, mas sabemos que estão lá, talvez.

Tenho em casa, uma mulher adulta, com 34 anos, aparentemente saudável e em vias de se doutorar. Academicamente brilhante, esta mulher tem uma fraqueza… pelo menos que eu saiba. A fraqueza dela está num pequeno corredor de uma grande superfície comercial, a Staples, essa verdadeira meca do material de escritório, e derivados. Convenhamos que não é um corredor qualquer… não é o corredor dos envelopes, dos dossiers, das impressoras ou dos telemóveis…é o corredor mais maravilhoso de toda a loja, o corredor das canetas e das borrachas, uma verdadeira montra de utensílios que permitem a escrita e a respectiva emenda. Ali, tudo alinhado e pendurado, como que a pedir, toca-me, experimenta-me. Ela chama a esse corredor, o seu lugar de conforto. Ali, o tempo pára, faça chuva ou faça sol, ali é sempre primavera. Há que ver todas as canetas… as grossas e as finas, a cor, o peso, o comprimento, a zona onde os dedos de apoiam, o traço, o mecanismo de abertura, a estética geral…e há as borrachas, as borrachinhas, as borrachonas, brancas, verdes, cor de rosa, macias, duras, com e sem cheiro, redondas, rectangulares, quadradas… uma panóplia de opções com um objectivo único, escrever bem, e apagar, com estilo... ou antes, com prazer.

Há já algum tempo que conhecia esta sua fraqueza, mas agora mais recentemente percebi que não era caso isolado. Peguei no telefone, e fiz um pequeno inquérito junto dos meus amigos e familiares. A amostra é representativa e inclui Continente e Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira. Os resultados, mostram bem que a tal linha… já era.

Há quem se perca na FNAC…na zona dos livros, mas depois uma qualquer força invisível encarrega-se de a desviar para na zona dos bloquinhos, dos caderninhos, lindos, queridos, daqueles que dá vontade de ter para escrever, ou só para olhar. Há os brancos, com linhas, com quadrados, tipo agenda, de capa dura, de capa mole, com argolas, sem argolas, com padrões, com cores, com fita marcadora, sem fita marcadora, com elástico, sem elástico, com molinha, sem molinha, A5, A6, A7… são tão lindos que quem os compra, não precisa deles, não os quer para escrever, simplesmente quer, e é tão bom ter…É um pequeno conforto.

Há quem se perca na Acessorize… correndo o risco de perder uma hora inteira de almoço, a ver tudo, tudo, tudo… e no fim sai de lá com um sorriso nos lábios e sem nada na mão, como se o simples facto de poder admirar os bloquinhos de post-it, com ursinhos, com veadinhos, com folhinhas de Outono, alimentasse o estômago. Ás vezes compram… acessórios, que depois não acessoriam nada, porque não dão com nada, porque não servem para nada, ou porque simplesmente são tão giros que seria uma pena usar, e isso seria deturpar o princípio subjacente a esta pequena loucura.
A minha irmã mais nova, que também se perde na Acessorize, consegue ainda bater o recorde da mais longa permanência voluntária num espaço confinado, com cerca de 2m x 2m… uma muito, muito, pequena loja, cheia de velas e sabonetes feitos à mão... Não há muito por onde circular. Praticamente a pessoa roda sobre o seu eixo como se de um ponteiro de relógio se tratasse… obviamente, para ela, é como se fosse o ponteiro das horas, roda lentamente, e no fim, bem, no fim não precisa de velinhas nem de sabonetes… mas sabe tão bem.

Tenho uma colega que mora num apartamento, não tem quintal, tem uma pequena varanda com alguns vasos. Ela adora um determinado corredor do AKI. Ela não só adora, como efectivamente compra naquele corredor. Compra máquinas de jardinagem, daquelas para podar sebes, para aparar os canteiros… e sei que em tempos esteve mesmo para comprar um daqueles carinhos corta-relva, não que ela tenha relva na varanda… mas são tão giros, e dá mesmo vontade de andar ali de um lado para o outro a cortar a relva…

Hoje estou plenamente convicto que a maioria das pessoas que ler isto, vai tentar identificar o seu lugar de conforto. Aquele lugar onde ficamos literalmente estúpidos, esbabacados, zen. Aquele lugar onde contemplamos os objectos expostos como se realmente precisássemos deles… não para o fim a que se destinam… mas porque queremos, porque desejamos... porque são giros, ou queridos ou fofinhos, ou cheiram bem... enfim, porque sim.

Eu também tenho o meu corredor… e quando penso sobre isso não tenho grandes dúvidas. Não é nada de especial, aliás raramente é. Fica algures no Aki, ou na Leroy Merlin… é um pequeno corredor de ferragens… e nas suas prateleiras, tem os mais variados sistemas… de fixação! Eu sei que são essencialmente buchas e parafusos… mas eu gosto… e ás vezes compro… um dia posso precisar ;)

Quem se atreve a confessar ?!


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Importado... o &%$$#$ !

É curiosa a forma como determinadas pessoas (des)arrumam as ideias na sua cabeça. Será preconceito ?
Lembro-me de quando era miúdo, no Brasil, importado era sinónimo de luxo. O que quer que fosse. Podiam ser bananas, frigoríficos ou automóveis. Importado era mais caro e geralmente sinónimo de grande qualidade, portanto quando um vendedor dizia, tenho nacional e importado... a escolha era uma função matemática complexa que entre vários factores, em última análise, estava na dependência directa da conta bancária.

Aqui entre nós, as coisas não eram muito diferentes. O mármore Italiano, o cristal de Murano, o perfume Francês, os relógios Suiços, o chocolate Belga... enfim, um sem número de coisas que até se podiam fazer parecidas por cá... poder podiam... mas não eram a mesma coisa.

Hoje em dia, com a globalização, comemos bananas do Panamá, uvas do Chile, carne Argentina, papaia do Brasil, café da Colômbia e mais não digo porque acabei de perceber nitidamente que o Mercosul está a papar a União Europeia, em grande. A verdade é que sempre fomos um país de importadores, e uma das coisas que sempre importámos foram automóveis. Baratos ou caros, durante bastante tempo eram 100% importados, até que nos últimos anos algumas fábricas por cá se instalaram. Ou seja, podíamos estar parados na fila da auto-estrada e ter a certeza de que a imensidão de carros à nossa frente e atrás, eram todos, mas mesmo todos, todos, todos, sem excepção, importados!

Bem, isto tudo a propósito de uma cena que me tira do sério... e faz-me lembrar o já famoso episódio da "caixa do iphone" ! Desde que tive de comprar carros com o meu dinheiro, decidi que mais valia um usado gama alta do que um novo gama baixa. É uma opção pessoal, muito discutível, como todas as minhas opções pessoais. Assim pensei, e assim realizei. Cedo comecei a comprar carros directamente na Alemanha, trazer para Portugal, pagar o que era devido, matricular, e circular com um sorriso nos lábios.

Aparentemente a minha ideia não era muito original, e o Estado, o tal com o qual mantemos esta relação pecaminosa, achou por bem que os prevaricadores do sistema (por sinal legal) fossem de alguma forma marcados a ferro, por forma a que o tal sorriso ganhasse um tom mais amarelado. Durante alguns anos, os que como eu foram modernizando o parque automóvel nacional, tinham que ostentar na sua matrícula, nada mais, nada menos que um "K" ! Não era um "W" ou um "Y", era um "K" ! que em Português clássico pronuncia-se como a terceira pessoa do singular do presente do verbo "Capar"... e capar, não é bom ! Mais valia dizer "capei-te"! Que é como quem diz, espetei-te um "K" nesse lindo carro! Tirei-te o tesão de ter um carro bom ! Ter um "K" na matrícula, era o mesmo que ostentar um enorme letreiro no vidro de trás a dizer: "o gajo que está a conduzir este carro, julgou-se mais esperto que os outros, foi buscar este carro lá fora e não quis pagar cumulativamente os lucros do fabricante, do importador, do distribuidor e do estado, portanto capei-o ! Assinado, O Estado."

Por muito bom que fosse o carro, e habitualmente era, o "K" arruinava qualquer possibilidade de transacção futura com um mínimo de dignidade. Qualquer potencial comprador ao vislumbrar o "K" torcia imediatamente o nariz, como se o carro fosse de produção duvidosa, montado numa qualquer fábrica clandestina, onde se exploram criancinhas, no Bangladesh! Qualquer Porshe, Mercedes, Audi ou BMW, ganhava estatuto de cópia rafeira, e se o tentasse vender num stand, diziam logo com desdém, ah... mas é importado... Ao que imediatamente poderíamos retorquir, é importado sim senhor e os Mercedes que o senhor tem aqui para venda , são feitos onde ??? em Carnaxide ??? em Matosinhos ??? que &%#$#%...

Os "K" assassinaram as matrículas dos automóveis, e nós até temos matrículas fantásticas, como a do telefonista "AL.OO.OO", a do adepto de futebol "MA.OO.OO", a egocêntrica "EU.19.71", a do revoltado "NA.OO.OO" e a minha preferida de todas, talvez pelo seu cariz porno-erótico intenso e apaixonado "OO.OO.OH"...

Felizmente, durante o período em que durou essa virtuosa lei, não troquei de carro e escapei-me aos Kapas. Mas pouco depois achei que era altura de trocar e dessa vez, poupei o trabalho de ir à Alemanha. Remediei-me por cá, junto de um vendedor meu conhecido, o qual, ia ele próprio buscar as viaturas lá fora. Namorei o veículo, negociámos o preço e sai do stand com um carro alemão XPTO com uma matrícula politicamente correcta e certo de que tinha feito um bom negócio.

Cerca de 4 anos depois, quando, por razões familiares, um carro de 2 lugares já não fazia muito sentido,  resolvi voltar ao mesmo stand para tentar uma troca. Já levava obviamente a matéria estudada e sabia mais ou menos o valor pretendido. Cheguei, expliquei ao que ia e sentei-me junto do vendedor / comprador enquanto ele consultava as tabelas, o computador, mais tabelas, um telefonema para este, um telefonema para aquele, e no fim, com um ar compenetrado atira-me à cara um valor x ! x ?! disse eu! Ouça lá este carro vale praticamente o dobro daquilo que você está a oferecer ! E ainda por cima comprei-o aqui ! Então mas você agora deu em gozar comigo ? O homem permanecia em silêncio com um olhar cabisbaixo... A certa altura, levantou-se, caminhou lentamente para a porta,  virou-se para mim, e encolhendo os ombros sai-se com esta... Sabe o que é doutor... o carro é importado !


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Eu me confesso

Vamos por as coisas nos seguintes termos, não sou escritor e acredito que a maior parte dos bloguers (?!) também não o sejam, pelo menos de forma profissional.
Tenho no meu círculo de amizades, pessoas que escrevem bem, profissionalmente, ou de forma quase profissional, e confesso que não sei como o fazem... ou melhor, não sei como conseguem.
Quero com isto dizer que o ímpeto criativo não mora em mim. Já procurei, e não encontrei. Não sei, e na verdade também nunca tentei, escrever por obrigação, portanto tudo isto é muito novo...e estranho.

Pela primeira vez publiquei fora do espaço semi-restrito do Facebook, e o feed-back tem sido para lá das minhas melhores expectativas, o que não é dificil, uma vez que não havia expectativas à partida, mas 500 visualizações depois, senti-me como que obrigado a dizer qualquer coisa sobre o tema.

Como será fácil de verificar, não faço ideia o que seja o acordo ortográfico. O meu português tradicional já leva cada pontapé nos ss nos ç nos ões nos ôem e nos êem, que a aventura pelo acordo seria com certeza um atentado sobre outro atentado, ao que o blogue correria o risco de ser mais conhecido pelas suas calinadas, vulgo desacordo, do que propriamente pelo seu eventual conteúdo.

O mesmo se passa com as pontuações. Talvez porque admirei tanto o Saramago que tantos odeiam, assumi que esta coisa da pontuação era um pouco arbitrária... digamos, criativa. Vai daí, e como provavelmente o Professor Carmo, que tantos ex-alunos do CM e do Manuel Bernardes conhecem, não é um dos meus leitores, tomei a liberdade de me ir esticando... e sim, ocasionalmente uso os gerundios como rindo, lendo, brincando... influencia da minha infância de emigrante passada em São Paulo, Brasil. Não tem nada a haver com Gabriela, e córóneis e quengas ou invertidos... é mesmo uma memória implantada.

Regresso aos parágrafos de abertura.
Não sei de onde vem a inspiração, acho que é um ligar de pontas soltas que um dia parece uma história e, toca a escrever. No entanto tenho por minha a ideia de que só vale a pena escrever se valer a pena ler e nesse aspecto sou muito crítico comigo mesmo. Ao contrário da minha amiga Bárbara que escreve melhor quando está irritada e tem pela frente um bom copo de vinho, eu não escrevo se estou irritado e se for tinto o mais provável é ir dormir a seguir. Por outras palavras, é possível, é provável, é quase certo, que este blogue tenha alguns, mais ou menos longos, períodos de bradicárdia, já para não dizer completa assistolia. Não levem a mal, não é falta de respeito por quem perde o seu tempo a ler isto, é mesmo falta de tema interessante que valha a pena.

Dito isto...
Obrigado a todos os que me têm empurrado para este precipício e  deixo aqui um verdadeiro aviso à navegação: "Keep your expectations, low..."