quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Coronavirus e porque vamos todos morrer...

Basta um título sensacionalista para enganar o povo.
Sim, vamos todos morrer... um dia. E isto, porque aparentemente e até hoje, nunca ninguém sobreviveu à própria vida, mas não me parece que vamos todos morrer com o coronavirus.


Diariamente tenho visto os meios de (des)comunicação social num verdadeiro e incauto festim de alarmismo público à conta deste coronavirus. Imagino que os mesmos não façam a menor ideia do mal que estão a causar e ainda não vi nenhum esforço para acalmar as hostes. Estamos no limiar do ridículo e não há ninguém que se atreva a dizer que o rei vai nu.

Pior, a comunicação social ainda não percebeu que à sua conta os politicos estão a ser pressionados a tomar decisões estúpidas para não parecer que não fizeram nada...

Caro e incauto leitor atraído a este blog pelo titulo sensacionalista, aqui fica a minha mensagem: Todos os anos os virus relacionados com a gripe viajam de este para oeste, a partir da Ásia, para a Austrália, Europa, África, América do norte e América do sul... e é assim TODOS OS ANOS !

TODOS OS ANOS os virus da gripe infectam entre de 5% a 15% da população mundial, com cerca de 3 a 5 milhões de infecções graves e cerca de 500.000 mortos !!! TODOS OS ANOS temos uma PANDEMIA ! SIM ! VERDADE !

No ano passado, 3.000 pessoas morreram em Portugal devido à gripe, 11.000 pessoas morreram em Itália, e nos últimos 5 anos, 85.000 pessoas morreram no Reino Unido... devido à gripe !!!

Aconselho vivamente a olhar para a letalidade de virus comparáveis... 
MERS - 34%
SARS - 10%
Gripe 1918 - 2.5%
Covid-19 - 2.3%

Mas poderão dizer... 2.3% ainda é um valor alto. Sim é verdade, e de facto a mortalidade só pode ser calculada após o final da epidemia... mas é tudo uma questão de fazer contas e apresentar os resultados de forma compreensível, senão vejamos:

A cidade de Wuhan, epicentro da infecção tem cerca de 11 milhões de habitantes, e até agora registaram-se cerca de 78.000 casos, ou seja 0.7% da população, sim, leram bem, basta fazer as contas. Agora olhemos para a população chinesa... 1.4 mil milhões de pessoas... e 78.000 casos... logo, 0.06% da população foi infectada, e já lá vão 3 meses de surto.

De facto a mortalidade em pessoas mais idosas (acima de 80 anos) é relativamente elevada e ronda os 14.8%, mas atenção porque este número quer dizer que se a pessoa for infectada tem esta probabilidade de morrer... Acontece que se eu viver em Wuhan, no epicentro da epidemia, tenho 0.7% de probabilidade de me infectar e, se me infectar, tenho 14.8% probabilidade de morrer, se tiver mais de 80 anos. Ou seja uma pessoa de 80 anos em Wuhan tem 0.1% de probabilidade de morrer devido ao coronavirus (0.7% x 14.8%). Agora façam as contas para as outras faixas etárias, e imaginem que não estão no epicentro... porque de facto, não estão !

Meus senhores, sim vai ser uma pandemia, como todos os anos, e não, não vale a pena fazer nada de diferente em relação ao que já devíamos fazer todos os dias, isto é medidas de higiene básica, como lavar as mãos com frequência e proteger a boca com um lenço quando espirramos. E sim, a esmagadora maioria das pessoas infectadas vai ter aquilo que tradicionalmente chamamos uma constipação, e sim, muita gente nem vai perceber que já tem o virus.

Portanto, como eu costumo dizer, vale pelo esforço, e à conta disto estamos a testar mecanismos que um dia podem vir a ser necessários para algo sério, mas dito isto queria lançar um repto à comunicação social... se querem mesmo continuar por este caminho, recomendo que no próximo inverno comecem a seguir a propagação do virus da gripe a partir do sudoeste asiático, entrevistem todos os portugueses que se constiparem no estrangeiro, e já agora passem o contacto ao nosso PR e MNE para também poderem mostrar a sua solidariedade e enviar uns lenços de papel e umas aspirinas para a febre. Contabilizem diariamente a mortalidade  e verão uma realidade que aparentemente desconhecem. Como dizem os ingleses... deixem-se de merdas e façam parte da solução em vez de fazer parte do problema.





sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A eutanásia, o homem e o médico

Preferia mil vezes não ter que escrever este texto, e só o faço porque o tema toca algo que considero um direito pessoal e intransmissível, a vida humana e a sua dignidade.

É importante começar por dizer que esta é uma questão de carácter filosófico, e como todas as questões filosóficas, podemos todos argumentar, mas não há certo nem errado. Há apenas opiniões, mais ou menos sustentadas num quadro de crenças, valores e conhecimento de causa.

É indiscutível o facto de que viver é uma opção. Qualquer pessoa pode optar por terminar a vida, quando bem entender e da forma que entender, sem que para isso tenha que pedir autorização ao estado. Da mesma forma, o estado não pode condenar essa decisão. Que ridículo seria um texto legal com a seguinte forma: "Pelo crime de suicídio, o réu é sentenciado a 2 anos de prisão".

Partindo portanto do pressuposto de que a opção de viver é pessoal, e por inerência, também o direito à morte, coloca-se aqui a questão do papel do médico. Ora os médicos são seres humanos tal como os doentes, e são todos diferentes entre si, tal como os doentes. Dito isto, aquilo que aqui escrevo, é a minha opinião pessoal como médico, num país onde a liberdade de expressão ainda é possível.

Serei contra a eutanásia, no dia em que toda as patologias tiverem cura. Até lá, acredito que, no quadro clínico adequado, a vontade do indivíduo na posse de todas as suas faculdades mentais deve ser respeitada.

Infelizmente, e falo por experiência própria, eu e outros médicos, somos confrontado com inúmeras situações nas quais, por doença ou traumatismo, a qualidade de vida e a dignidade humana ultrapassaram o limiar do tolerável para esse mesmo indivíduo.

Viver sem dignidade, sem qualidade de vida e talvez o mais importante, sem esperança, acreditem, é uma forma de tortura que não desejo a ninguém. Estar preso a uma vida que nada acrescenta, que não tem melhora possível, e que se degrada a cada dia, é uma dor que apenas poderá ser descrita como indiscritível.

Enquanto médico, jurei respeitar a vida e aliviar o sofrimento. Mas o que fazer quando não podemos atender aos dois em simultâneo ? O que fazer quando a medicina nada mais tem a oferecer e o doente pede para acabar com a tortura ? E se o pedido vier de alguém que amamos muito ? E se for aquele doente com quem temos o privilégio de uma relação aberta, franca, e de total confiança ? E se o doente formos nós próprios, médicos, conhecedores do que nos espera... ? Vamos obrigar a pessoa a um sofrimento para o qual não temos solução ? em nome do quê ???

Acredito piamente, que obrigar alguém a viver contra a sua vontade, num cenário sem opções, devia ser um crime, tal como a tortura o é, mas infelizmente, a nossa herança judaico-cristã (que, diga-se de passagem, tanto torturou no passado), na melhor das hipóteses, tolda-nos o pensamento. Somos quem somos, fruto da nossa cultura e referenciais de valores. 

Talvez porque decidi dedicar a minha vida à causa humanitária, tenho o privilégio de ser constantemente exposto a outras formas de ver a vida, o sofrimento e a morte. Acho que dar a opção de uma morte digna quando nada mais há a fazer, e é a vontade expressa pelo doente, é revelador de uma sociedade evoluída que se preocupa com os seus cidadãos. 

Não tenho filiação partidária nem clubista. Não posso, nem nunca ousaria falar por todos os médicos. Tenho bons colegas e amigos, excelentes profissionais que muito prezo, que não concordam comigo, mas como comecei por dizer, pode não haver certo nem errado, mas é importante que haja, o direito de optar. 




quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Dream Job

Algures no passado escrevi por aqui que mais cedo ou mais tarde, este blogue ia parecer morto... qual assistolia premeditada pelas circunstancias da vida. Assim foi. Faço portanto hoje o papel de Deus ou Médico (consoante a preferência do eventual leitor, se ainda os houver) e eis que ressuscitamos o dito cujo, sabendo porém que nada é eterno, a não ser o amor, a estupidez humana... e talvez a morte.
Não estou ainda preparado para falar dos últimos três anos e meio da minha vida, e talvez não seja este o lugar para o fazer. Falarei portanto sobre os últimos cinco meses, e como após uma overdose de cirurgia de guerra no Congo, dei por mim a sentir que era altura de abraçar um outro "dream job". Digo outro, porque na verdade já tinha um. O inconformismo, a busca constante pelo próximo nível, a dúvida persistente e o desafio de perceber até onde somos capazes de ir são o maior inimigo do homem de família.

Abremos (?) então um sub-capítulo denominado "As coisas inúteis que eu aprendi sobre o mundo e sobre mim próprio, incluindo o facto de me começar a faltar vocabulário em português"

Aqui vai. Pagam-me em dólares, transferem-me em francos suiços e levanto em euros. Tenho os bolsos cheios de moedas que já não sei de onde vêm. De vez em quando esvazio tudo para um saco para um dia fazer qualquer coisa artística com elas. As notas, que habitualmente também não valem quase nada, vou guardando para uma próxima viagem mas depois consistentemente esqueço-me de as levar e acho que vou acabar por fazer um quadro. Tenho dois telemóveis com três cartões SIM, de três países diferentes.
Não tenho casa. Passei a viver em hotéis. Confesso que era um sonho de jovem adulto inconsciente. Os quartos e as camas de hotéis sempre me fascinaram. As toalhas imaculadas os lençóis brancos, os colchões fofinhos, as almofadas, os frasquinhos do shampoo e os sabonetes... mas hoje quando me perguntam onde moro não sei responder. Quando me perguntam onde passo mais tempo, também não sei responder. Quando em desespero de causa desferem a questão fatal, onde estão as tuas coisas ? respondo que algumas estão na garagem dos meus pais, e as outras andam comigo a passear pelo mundo em duas malas. Sou um nómada dos tempos modernos, finalmente e literalmente um homem de mochila ás costas como diz a Marta.

Nem tudo são rosas. Descobri uma série de preocupações e irritações. É preciso planear a lavagem da roupa, porque a mesma tem que estar lavada e entregue antes do check-out, porque as malas são pequenas e logo a autonomia higiénica não ultrapassa os dez dias. Em alguns hotéis a ausência de tomadas junto à cama é desesperante. O telemóvel fica a carregar longe, e a tentativa de fazer snooze obriga-me a levantar o que logo à partida inutiliza esta maravilhosa função inventada para quem como eu aprecia o prazer de não se levantar nos primeiros minutos depois do toque do despertador. É paradoxal levantar-se para fazer snooze. Adicionalmente irrita-me acordar, e antes de abrir os olhos não saber onde estou. Logo eu que começo devagar de manhã... desata-me o cérebro a carburar intensamente para perceber em que país, em que hotel e em que dia estamos. Já nem vou referir o facto de que no médio oriente o fim de semana é à sexta e ao sábado, e o domingo é o primeiro dia de trabalho... algo que até hoje não consigo processar do ponto de vista das emoções mais primarias. Comecei a comer coisas estranhas ao pequeno almoço, tipo salada, arroz, sushi ou legumes. O porco e os derivados desapareceram da dieta. Em vez disso há humus, falafel, pepinos e azeitonas. Os sumos do pequeno almoço dão-me refluxo gastro-esofágico. Voar acentua o refluxo. Voo tanto que ja ultrapassei o limite do Start Alliance Gold Super Elite VIP Exclusivo Hiper Mega Especial... portanto evito os sumos mas tenho que voar com o omeprazol... e uma pequena farmácia. As aventuras gastronómicas já são relativamente bem toleradas, devo estar imune a quase tudo, mas pago um preço alto pelas mazelas musculares da classe económica.

Apesar de haver um certo equilíbrio entre o numero de homens e mulheres no mundo, quando voo, habitualmente tenho um homem ao lado. Há uma certa ordem estatística que me esforço inutilmente por tentar compreender, mas é assim. Voo quase sempre à janela na parte de trás do avião. A minha lógica interna diz que terei mais possibilidades de sobreviver em caso de queda... seria mais uma história para contar. Entretanto percebi que já não consigo ler sem óculos no avião. Não ha distancia suficiente entre as duas cadeiras para afastar a revista ou o jornal ao ponto de se tornar legível. Já tenho óculos espalhados em todo o lado. O telemóvel já tem as letras no máximo. Talvez seja da falta de vista, mas claramente a beleza e a forma física das assistentes de bordo deixou de ser um critério de seleção nas companhias aéreas. De todas as companhias que já voei, as assistentes mais feias do mundo são da Air Niugini... não há como não reparar... mas felizmente não tenho voado muito por ali. A beleza ainda é um critério em algumas companhias ricas do golfo, mas no oriente médio, onde me encontro, a maioria das assistente são homens com ar de poucos amigos. A turbulência não me afeta e a comida já a vejo como caseira. Comprei uns phones XPTO com cancelamento (?) de ruído e é como se estivesse em casa. O meu rabo já tem o formato de uma cadeira de classe económica e a bexiga é mega porque gosto de ir à janela e não gosto de incomodar o(s) homem(s) do lado quando estão a dormir. Estou adaptado.

Conheço os procedimentos de segurança de dezenas de aeroportos. O meu cinto não apita. Quase ninguém detecta os líquidos no necessaire. Sim, estão num saquinho de plástico, mas já não tiro para fora. Tem líquidos? Não. Ocasionalmente, habitualmente em Lisboa vá-se lá saber porquê, descobrem-me o necessaire. Digo que estão no saquinho da praxe, não sabia que era preciso tirar. Contas feitas a todos os voos, quase nunca tiro, excepto em Lisboa... têm uma fixação qualquer com os líquidos. No Cairo obrigam-me a descalçar umas duas vezes pelo menos entre a entrada do aeroporto e a porta de embarque. Dá-lhes prazer ver as pessoas descalças. Já não uso meias rotas. Fazem isso com toda a gente, mas depois são capazes de meter tudo no RX e não está ninguém a olhar para o ecran. Numa coisa são bons. Caçar isqueiros. Ja tentei passar mais de uma dezena de vezes com eles de todas as formas e feitios mais ou menos camuflados. Não adianta. Estão focados naquilo. E são bons na deteção de isqueiros. Ficam irritados, quase que obcecados. É uma espécie de ordem fundamentalista que se dedica à caça dos isqueiros, mas assim que se passa a segurança vira-se à esquerda e tem uma sala de fumadores onde toda a gente acende cigarros com isqueiros. Passei a levar fósforos e já não me irrito. Em Israel, onde a cultura de segurança é apertada, passo pela segurança como se fosse invisível, ninguém me liga. Não percebo.

No mesmo dia sou capaz de trabalhar em ingles, francês e espanhol. O meu árabe não ultrapassa a linha dos cumprimentos a que a etiqueta obriga, mas ninguém se incomoda com isso e ficam surpreendidos por eu conseguir ler e escrever em árabe sem saber o que estou a lêr ou escrever. Sou uma espécie de contra-analfabeto. Não uso taxis no médio oriente é roubo certo, quase como em Portugal. Usava Uber mas os satélites para a geo-localização da Uber ficaram marados com as areias do deserto e o desencontro com os motoristas passou a ser a regra. Mudei para o Careem, o Uber dos árabes, com satélites adaptados ás agruras da vida por aquelas paragens. No Cairo não há passadeiras nem semáforos. Atravessar uma rua a pé é um ato de fé, muita fé. Ensinaram-me o truque de atravessar ao lado de sotavento de um qualquer personagem local, de preferencia obeso e com ar de quem sabe o que esta a fazer. Tentei algumas vezes mas é arriscado porque os carros não abrandam nem se desviam. Vou para o trabalho com o Careem... são 5 minutos a ouvir passagens do Corão ou música tradicional. Entenda-se por tradicional qualquer musica que inclua a expressão "Habibi, habibi". Deixei de correr na rua. Aprendi a apreciar as passadeiras rolantes dos ginásios. Correr na rua no médio oriente é meio caminho andado para ser abatido a tiro ou deixar toda a gente em pânico. Conheço sítios fantásticos para comer, petiscar ou beber em Ramallah, Gaza, Oman, Beirute, Aman, Islamabad ou Kabul... mas o que me dá saudades é o entrecosto grelhado o cozido e o bitoque.

Eu sei... é um modelo de vida esquisito, a familia não percebe, os amigos não compreendem, e eu próprio questiono... mas o que seria a vida sem um dream job ?





sábado, 19 de abril de 2014

O dia da morte de Lual Lueth

Lual Lueth, 32 anos, morreu ontem à noite, sexta-feira santa, mas creio que não ressuscitará amanhã.
O Lual levou consigo o Gabriel Garcia Marques, e o mundo ficou mais pobre. A culpa não é do Gabriel que deixou ao mundo uma obra imensa, património da humanidade para todo o sempre, a culpa é do Lual, que deixou um filho menor, sozinho no mundo.

O Lual nem era militar, era civil. A cidade onde morava, Malakal, já mudou de mãos seis vezes nos últimos três meses. No dia 25 de Março, uma bala de Kalashnikov, custando pouco menos de 20 cêntimos, entrou-lhe pelas costas e perfurou-lhe o cólon. Nesse dia escreveu-se o seu destino.

Foi evacuado no dia seguinte para Juba, capital do Sudão do Sul, onde os cirurgiões do CICV o operaram in extremis. O caso era tão mau que pouco mais fizeram que trazer à pele o cólon perfurado, sob a forma de uma colostomia. Lual aguentou-se... estoicamente !

Aqui nao há cuidados intensivos, não há TAC nem rx, não há análises para além do valor da hemoglobina, nao há microbiologia, não há balanços hídricos, nao há sangue, não há alimentação parentérica, não há antibióticos de ultima geração, não há ventiladores ou monitores de sinais vitais, não há câmeras hiperbáricas, raramente há água e por vezes nem electricidade... Durante a noite praticamente nao há enfermagem, e todos os medicamentos injectáveis tentamos administrar em tomas únicas ou pelo menos duas vezes ao dia por forma a coincidir com o nosso horário de entrada e saída do hospital. Aqui nao há nada, para além de muita dedicação, e espirito de sacrifício.

Operei o Lual pela primeira vez há cerca de duas semanas, no primeiro dia que entrei no hospital. Tinha desenvolvido uma fasceite necrozante. Uma "bactéria carnívora" espalhava-se agora pelo lado direito do seu corpo "comendo" tudo o que encontrava pelo caminho. Apesar de todos os esforços a infecção espalhava-se de dia para dia até que já perto do fim, em alguma zonas, do abdômen, era possível ver as ansas intestinais, porque já nao havia parede. Todas as costelas do lado direito estavam descascadas até ao osso. Entre o joelho e a axila, ja nao havia pele, e o pouco músculo que restava era consumido de dia para dia até chegar ao osso. Operei-o oito vezes em duas semanas. Desfiz a colostomia, tirei-lhe metade do cólon, anastomosei o restante. Ao longo dos dias, consegui encerrar o abdômen e restabelecer o transito intestinal. Fui retirando todos os tecidos mortos, limpando, desbridando, lavando... Nos dias de bloco o cheiro era quase insuportável.

O Lual saia das cirurgias quase morto... Porque já entrava quase morto. A primeira vez que o operei tinha 3,7 de hemoglobina. Fizemos uma vaquinha e entre os membros da equipa fomos dando sangue à vez. Já ia com 8,2 e eu era o próximo. 

Todos os dias de manhã, era o primeiro doente que eu ia ver. Tenho a sua história toda documentada fotograficamentente, mesmo nos dias em que nao o operava. Ele ficava no nosso recobro, uma pequena enfermaria de cinco camas dentro do bloco operatório. Deitado aos pés da cama, o filho enxotava as moscas e tratava do pai quando não havia mais ninguém para o fazer. Um dia as enfermeiras resolveram mudá-lo de sítio e eu quase tive um desgosto ao ver a cama vazia...

Nos dias seguintes ás cirurgias o Lual despertava para a vida. Um dia abriu os olhos e começou a falar em inglês. Nós brincávamos a dizer que tinha sido por receber sangue de uma neozelandesa, agora iria ter um sotaque Kiwi. Nenhum órgão falhou isoladamente ao longo destas quatro semanas, mas desde há uns dias para cá, subjectivamente, sabiamos que estava pior. Os nossos melhores antibióticos nao são os melhores antibióticos... e numa das ultimas induções anestésicas fez uma pequena aspiração... que três dias depois se transformou numa pneumonia.

Operei-o ontem pela ultima vez e hoje, vinte e quatro dias depois de ter sido baleado, quando o fui visitar, à espera da tradicional melhora ele já nao estava. Nem o filho... 
e ninguém trocou as camas. Estive uns segundos ali a olhar para o local onde era suposto ele estar. Os olhos marejaram. Ele esteve sempre morto, desde o principio, eu é que não sabia.

Virei as costas quando um enfermeiro local me tocou no ombro. Doutor, preciso que venha à urgência selecionar os doentes que quer operar... recebemos trinta baleados, e vêm mais catorze a caminho... Hoje só conseguimos operar oito...




sábado, 25 de janeiro de 2014

Tempos modernos, not !

Lembro-me como se fosse ontem... mas foi em 1987 que abriu o primeiro hipermercado na região de Lisboa, o Continente da Amadora.

Durante os primeiros meses após a inauguração, uma ida ao Continente era programa para um dia inteiro. Havia filas para entrar, filas para circular no interior e filas para pagar e filas para sair. Era como se dia após dia, Lisboa se encaminhasse em peso para o Continente num ciclo contínuo, sem tréguas, sem momentos de baixo movimento. Como se de um espectáculo se tratasse, ninguém ia sozinho ao Continente, levava-se toda a família, não fossem estes perder a oportunidade de usufruir de tão singular passeio.

Levei mais de um ano até ganhar a necessária coragem para tamanha aventura. O timming fora escolhido na perfeição, poucos dias depois da inauguração do segundo grande hipermercado da região, o Jumbo de Alfragide, situado a escassas centenas de metros do primeiro.

Na minha cabeça, se toda a população de Lisboa estava no Continente, com a inauguração do Jumbo, esta massa humana haveria de dividir-se por dois, tornando a minha ida ás compras um processo muito menos doloroso. Enganei-me. O Continente continuava cheio, e o Jumbo estava a abarrotar. Ainda hoje ando a digerir este fenómeno... de onde surgiu tanta gente ?!

Passaram-se vários anos, e entretanto comecei a fazer urgências nos hospitais. Na época, havia poucos serviços de urgência na Grande Lisboa, e estes estavam invariavelmente cheios. Não havia triagem de Manchester, mas havia o olho do maqueiro que ao ver um doente com mau ar na sala de espera, tratava de avisar os médicos que aquele devia ser atendido assim que possível. Era uma triagem com muitos poucos falsos positivos e os maqueiros deste pais salvaram muita gente in extremis.

À medida que novos hospitais foram abrindo, tornava-se obvio que quanto mais nao fosse pela simples divisão administrativa de base geográfica, o volume de doentes haveria de diminuir. Enganei-me novamente. Na verdade, a abertura de um hospital era imediatamente seguida por uma ligeira diminuição do número de doentes que agora passavam a pertencer a uma outra área, mas em poucas semanas os números voltavam ao normal ou até, muito frequentemente, de forma quase paradoxal, ultrapassavam os números anteriores. Lembrei-me do Continente. As urgências, afinal, eram como os hipermercados. Eram, não... São!

Abriram-se as portas, facilitou-se o acesso, democratizou-se a assistência... e o povo abusou !

Mas já nada me espanta. Num pais onde os cozinheiros passaram a ser Chefs, os cabeleireiros, Hair Stylist, os porteiros, seguranças, e os contínuos agora respondem sob a designação de auxiliares de acção educativa, algo haveria de correr mal...

Os Hospitais responderam à letra. Os bacharéis de enfermagem passaram a licenciados, os licenciados em medicina agora são mestres e os maqueiros tornaram-se auxiliares de acção médica. Já nao temos doentes, temos utentes, e para os utentes, a urgência é uma espécie de loja de conveniência aberta 24h, ali ao virar da esquina.

Longe vão os tempos onde os galos na cabeça tratavam-se com gelo, em casa, e as pequenas feridas levavam tintura de iodo e um penso rápido, também em casa. Hoje não existem galos, existem hematomas epicranianos e os doentes querem fazer um TAC antes de fazer gelo. Hoje é frequente que um doente, após uma cabeçada, se apresente na urgência com uma simples dor de cabeça, e quando questionado sobre o que tomou para a dor de cabeça, a resposta é invariavelmente, nada. Qualquer esfoladela ou nódoa negra dá direito a rx, e os pensos são feitos no Centro de Saúde, não vá o diabo tecê-las. Mas até isso já não acho estranho. Antigamente as bebedeiras tratavam-se na esquadra da polícia... hoje é na maca do Serviço de Urgência. O mesmo se passa com a obstipação. Nunca tratei tanta obstipação na minha vida como nos últimos anos. Sim é verdade, a obstipação é para um número crescente de utentes, uma patologia de urgência e eu tornei-me um verdadeiro desentupidor de canos... Após 14 anos de formação específica e diferenciada, dou por mim a prescrever laxantes como apenas um especialista o saberia fazer. Pai, perdoa-me, a cirurgia também já nao é o que era...

Mas foi apenas nesta última noite que me senti verdadeiramente presenteado com a cereja no topo do bolo. Tinha acabado de cair no cadeirão por volta das 3.30 da madrugada. 10 minutos depois, uma urgência. Um homem, de 45 anos, com dor abdominal. Perguntei-lhe à quanto tempo tinha a dor... Respondeu-me prontamente, à meia-hora !!!! À meia hora e já está no hospital ?!?!? A minha educação impediu-me de partir para a agressão... Então e nesta meia-hora, a dor, melhorou, piorou ou está na mesma ? Por acaso melhorou... depois que deitei uns gases... Gases ???? Ó meu amigo, gases era antigamente. O senhor acabou de expelir uma combinação altamente tóxica de hidrogénio, metano e dióxido de carbono... e sabe que mais...ainda bem que o fez no Hospital !

Atirem-me areia para os olhos... ou parem este mundo... eu quero sair.



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Factor X

Há uma expressão no Colégio Militar que define muito bem o sentimento que hoje me assiste. "A carneirada !"

Sei que não sou o típico adepto de futebol. Sou benfiquista nao praticante e sei o nome de mais jogadores do plantel do Néné, do Chalana, do Bento e do Humberto Coelho do que dos actuais titulares. Naquele tempo o Benfica tinha um ou dois estrangeiros, e o resto da equipa era o esqueleto da seleção nacional. Entretanto a equipa descaracterizou-se, passou a ser o esqueleto da seleção do Uruguai, do Paraguai, da Argentina, do Brasil, do Chile... E eu desliguei. 

O Eusébio já nao é do meu tempo e os da minha geração provavelmente nao se lembram de alguma vez o ter visto jogar, mesmo porque em meados dos anos 70 o Eusébio jogava no Beira Mar e acabou a jogar no União de Tomar que à data, era um clube da segunda divisão.

Reconheço no entanto, que do ponto de vista histórico, o Eusébio da mesma forma que a Amália era um símbolo vivo do estado novo. Portugal definia-se em três palavras, fado, futebol e Fátima e num tempo onde os computadores ocupavam salas inteiras, as comunicações eram escassas, a televisão começava ás 19 horas, e os jornais eram a preto e branco, o Eusébio era a figura nacional mais reconhecida além fronteiras.

Acontece que, por este andar, dentro em pouco, só Fatima nao estará representada no Panteão Nacional, e dai... talvez nos próximos tempos se lembrem da Irmã Lúcia, e encerra-se esta santíssima trindade ali para os lados de Santa Ingrácia.

Hoje idolatra-se tudo o que aparece na televisão mais do que uma vez. Idolatram-se aspirantes a cantores, aspirantes a cozinheiros, aspirantes a actores e personagens de reality shows sem ponta por onde se lhes pegue. Tarólogas, astrólogas, relações públicas, estilistas, jogadores de futebol, gente que aparece nas revistas cor de rosa e nas festas de verão... todos têm o tal factor x que gera a inveja alheia e como tal estão a meio caminho de serem idolatrados. A comunicação social tem culpa. Estas estrelas tipo cadente desviam a atenção dos verdadeiros astros.

Eu não concordo com a ida do Eusébio para o Panteao Nacional. Crucifiquem-me. Chamem-me preconceituoso. O Panteão nao pode ser o cemitério dos famosos. Nao deve. Nao era essa a ideia...Mas a carneirada já decidiu...

Inverteram-se os valores. A fama passou a ser um critério.

Antigamente, era a obra ! A postura ! Os actos de bravura ! Hoje, é o factor x.
Não vejo no Panteão Nacional o Marques de Pombal, o Fontes Pereira de Melo, os nossos prêmios Nobel, o Egas Moniz e o José Saramago, não vejo o Aristides de Sousa Mendes, não vejo o Almirante Gago Coutinho nem o Sacadura Cabral, a Beatriz Ângelo, e tantos outros com obra e feitos que marcaram a história deste pais, que fizeram de Portugal um lugar melhor ou mais culto, reconhecido pela ciência, pela inovação ou pelo humanismo.

Em breve teremos no Panteão Nacional nao só o Eusébio, que marcou muitos golos e levou Portugal ao terceiro, repito, terceiro lugar no campeonato do mundo de futebol, que é um dos melhores jogadores de sempre, sem no entanto ser o melhor, mas teremos também o Cristiano Ronaldo porque vai vaporizar os recordes do Eusébio e já é o português mais conhecido de sempre nos quatro cantos do planeta, teremos a Mariza e a Ana Moura que levam o fado onde este nunca tinha chegado, teremos com certeza o Mourinho, o melhor treinador do universo, Salgueiro Maia e os capitães de Abril, a Maria João Pires, o La Féria o Mário Soares e por aí adiante... a lista cresce todos os dias.

Reconheço que o Eusébio, durante 15 anos da sua vida, foi um grande futebolista, mas nao me reconheço na carneirada. Fica aqui a minha sugestão... Ponham beliches no Panteão Nacional, porque em breve, nao haverá lugar para todas as estrelas, sejam elas cadentes ou incandescentes.



segunda-feira, 11 de novembro de 2013

MIA

Nunca tive animais de estimação na minha infância, ou como se diz hoje em dia "pets". Tive portanto uma infância "petless"... Com 4 filhos em 5 anos, os meus pais devem ter entendido que já existiam demasiados animais à solta na propriedade para ainda adicionarem o que quer que fosse à coleção.
Isso nao quer dizer que não tenha tido contacto de proximidade com várias espécies...

O meu avô volta e meia trazia para casa um saquinho de água com um peixinho vermelho que invariavelmente acabava a nadar em círculos numa taça de vidro algures na cozinha. O mal dos peixinhos vermelhos em taças é que mais dia menos dia acabavam a boiar adornados a bombordo, fosse pela má qualidade da água, fosse por overdose de floquinhos com sabor a camarão. Depois como que cumprindo o seu destino, à água regressavam, fazendo a sua derradeira viagem de regresso ao mar pelo sifão da sanita lá de casa.

Também houve piriquitos. Aliás lembro-me de alguns casais de piriquitos em casa dos meus pais. O problema dos piriquitos é que passávamos o tempo todo à espera que pusessem ovos, e quando finalmente o faziam, ou os atiravam do ninho ou simplesmente os comiam. Qualquer dos cenários era demasiado traumatizante para crianças em idade escolar, e um dia, tal como vieram, os piriquitos, foram-se.

Acho que a primeira relação que estabeleci com um animal foi com o Bolinhas. O Bolinhas era um cão rafeiro branco com manchas castanhas, pelo e pernas curtas, tipo salsicha brasileira. Habitava um armazém de bananas ali para os lados da lapa. O armazém, do qual o meu avô era sócio, fazia paredes meias com uma tasca à antiga portuguesa, com mesas em mármore, bancos de madeira, muita serradura no chão, e grandes pipas de vinho atrás do balcão onde um taberneiro grande e careca envergava um avental tipo talhante com uma toalhinha ao ombro. Comi-se pão com torresmos, pão com chouriço e bebia-se vinho. O meu avô, os seus sócios e demais companheiros passavam horas a jogar dominó, marcando os resultados com um pau de giz nas próprias mesas. O Bolinhas era o meu pet. Eu teria aí uns 8 anos...pegava na trela e ia dar uma volta ao quarteirão, todo orgulhoso, de peito feito, a mostrar para quem quisesse ver que era eu quem levava aquele animal a passear. Um dia cheguei à loja e soube que o Bolinhas fora apanhado por um eléctrico numa das suas saídas habituais sem trela. Desde aí, passaram-se vários anos até que voltei a ter contacto com animais com nome.

Foi no Colégio Militar que voltei a estabelecer algum tipo de vínculo emocional, desta feita com animais de grande porte. Era um belíssimo cavalo chamado "Saturno", castanho, grande, com um galope largo e generoso que me fazia realmente feliz e duas éguas mal cobridas de seu nome "Silvia" e "Rata". A primeira, algo esquizofrénica, tinha surtos psicóticos e quando menos se esperava, largava a formação desatando a correr em sentido contrário aos restantes cavalos, sem que nada ou ninguém a fizesse parar e muitas fezes fazendo o infeliz cavaleiro provar a serradura do picadeiro. A segunda, era pequena, cor de rato, e tinha um trauma sexual, pelo que a simples aproximação de um garanhão pela retaguarda, dava direito a cangochas inopinadas ao estilo rodeo que ficaram célebres pelo número de cavaleiros que levou ao chão. Foi à conta destes três que acabei na escolta a cavalo...

Passaram-se vários anos sem animais e entretanto a personalidade formou-se. Se dividíssemos o mundo em "cat persons" e "dog persons" eu seria certamente uma "dog person". O meu interesse por felinos esgota-se no Jaguar, preferencialmente azul escuro, cabrio, com bancos camel, e nas gatas... louras ou morenas. Paradoxalmente, quis o destino que acabasse com três gatas em casa. Uma, casei com ela, as outras duas são descendência. 

Recentemente, há cerca de dois meses, a nossa vida foi invadida pela Mia. A Mia ao contrário do Bolinhas é uma cadela de marca. É uma Shnauzer, tamanho mini mas sem ser a pilhas e tem pelo preto com madeixas californianas, acho que é assim que se diz, quando o pelo é preto e as pontas são castanhas, mas neste caso é de série. A Mia tem seis meses e nas fotografias aparece sempre como uma mancha negra. Não cheira a cão, praticamente nao se ouve, não deita pelo e nao pedincha à mesa. Tem um olhar carinhoso, e uma cara super patusca, daquelas que só apetece agarrar e já conquistou toda a gente pela sua doçura e simpatia. É uma cadela caseira que está sempre a abanar o rabo de felicidade. Adora enroscar-se no colo de quem quer que seja que esteja a ver televisão e de manhã assim que lhe abrem a porta do terraço corre os quartos à procura dos habitantes para os cumprimentar individualmente pondo-se de pé ou simplesmente saltando para cima das camas e lambendo qualquer cabeça que esteja de fora dos lençóis. É efusiva nas recepções sempre que alguém chega a casa, mas distribui as atenções por todos. Adora correr e derrapar no chão em madeira, fazendo drifting nas curvas. A sua brincadeira preferida é deitar-se de patas para o ar fingindo-se de morta para que lhe façam festas na barriga...Até hoje, eu não sabia que era possível gostar assim de um animal... mas esta, deu-me volta cá com uma pinta... é que só lhe falta falar !