sábado, 19 de abril de 2014

O dia da morte de Lual Lueth

Lual Lueth, 32 anos, morreu ontem à noite, sexta-feira santa, mas creio que não ressuscitará amanhã.
O Lual levou consigo o Gabriel Garcia Marques, e o mundo ficou mais pobre. A culpa não é do Gabriel que deixou ao mundo uma obra imensa, património da humanidade para todo o sempre, a culpa é do Lual, que deixou um filho menor, sozinho no mundo.

O Lual nem era militar, era civil. A cidade onde morava, Malakal, já mudou de mãos seis vezes nos últimos três meses. No dia 25 de Março, uma bala de Kalashnikov, custando pouco menos de 20 cêntimos, entrou-lhe pelas costas e perfurou-lhe o cólon. Nesse dia escreveu-se o seu destino.

Foi evacuado no dia seguinte para Juba, capital do Sudão do Sul, onde os cirurgiões do CICV o operaram in extremis. O caso era tão mau que pouco mais fizeram que trazer à pele o cólon perfurado, sob a forma de uma colostomia. Lual aguentou-se... estoicamente !

Aqui nao há cuidados intensivos, não há TAC nem rx, não há análises para além do valor da hemoglobina, nao há microbiologia, não há balanços hídricos, nao há sangue, não há alimentação parentérica, não há antibióticos de ultima geração, não há ventiladores ou monitores de sinais vitais, não há câmeras hiperbáricas, raramente há água e por vezes nem electricidade... Durante a noite praticamente nao há enfermagem, e todos os medicamentos injectáveis tentamos administrar em tomas únicas ou pelo menos duas vezes ao dia por forma a coincidir com o nosso horário de entrada e saída do hospital. Aqui nao há nada, para além de muita dedicação, e espirito de sacrifício.

Operei o Lual pela primeira vez há cerca de duas semanas, no primeiro dia que entrei no hospital. Tinha desenvolvido uma fasceite necrozante. Uma "bactéria carnívora" espalhava-se agora pelo lado direito do seu corpo "comendo" tudo o que encontrava pelo caminho. Apesar de todos os esforços a infecção espalhava-se de dia para dia até que já perto do fim, em alguma zonas, do abdômen, era possível ver as ansas intestinais, porque já nao havia parede. Todas as costelas do lado direito estavam descascadas até ao osso. Entre o joelho e a axila, ja nao havia pele, e o pouco músculo que restava era consumido de dia para dia até chegar ao osso. Operei-o oito vezes em duas semanas. Desfiz a colostomia, tirei-lhe metade do cólon, anastomosei o restante. Ao longo dos dias, consegui encerrar o abdômen e restabelecer o transito intestinal. Fui retirando todos os tecidos mortos, limpando, desbridando, lavando... Nos dias de bloco o cheiro era quase insuportável.

O Lual saia das cirurgias quase morto... Porque já entrava quase morto. A primeira vez que o operei tinha 3,7 de hemoglobina. Fizemos uma vaquinha e entre os membros da equipa fomos dando sangue à vez. Já ia com 8,2 e eu era o próximo. 

Todos os dias de manhã, era o primeiro doente que eu ia ver. Tenho a sua história toda documentada fotograficamentente, mesmo nos dias em que nao o operava. Ele ficava no nosso recobro, uma pequena enfermaria de cinco camas dentro do bloco operatório. Deitado aos pés da cama, o filho enxotava as moscas e tratava do pai quando não havia mais ninguém para o fazer. Um dia as enfermeiras resolveram mudá-lo de sítio e eu quase tive um desgosto ao ver a cama vazia...

Nos dias seguintes ás cirurgias o Lual despertava para a vida. Um dia abriu os olhos e começou a falar em inglês. Nós brincávamos a dizer que tinha sido por receber sangue de uma neozelandesa, agora iria ter um sotaque Kiwi. Nenhum órgão falhou isoladamente ao longo destas quatro semanas, mas desde há uns dias para cá, subjectivamente, sabiamos que estava pior. Os nossos melhores antibióticos nao são os melhores antibióticos... e numa das ultimas induções anestésicas fez uma pequena aspiração... que três dias depois se transformou numa pneumonia.

Operei-o ontem pela ultima vez e hoje, vinte e quatro dias depois de ter sido baleado, quando o fui visitar, à espera da tradicional melhora ele já nao estava. Nem o filho... 
e ninguém trocou as camas. Estive uns segundos ali a olhar para o local onde era suposto ele estar. Os olhos marejaram. Ele esteve sempre morto, desde o principio, eu é que não sabia.

Virei as costas quando um enfermeiro local me tocou no ombro. Doutor, preciso que venha à urgência selecionar os doentes que quer operar... recebemos trinta baleados, e vêm mais catorze a caminho... Hoje só conseguimos operar oito...




sábado, 25 de janeiro de 2014

Tempos modernos, not !

Lembro-me como se fosse ontem... mas foi em 1987 que abriu o primeiro hipermercado na região de Lisboa, o Continente da Amadora.

Durante os primeiros meses após a inauguração, uma ida ao Continente era programa para um dia inteiro. Havia filas para entrar, filas para circular no interior e filas para pagar e filas para sair. Era como se dia após dia, Lisboa se encaminhasse em peso para o Continente num ciclo contínuo, sem tréguas, sem momentos de baixo movimento. Como se de um espectáculo se tratasse, ninguém ia sozinho ao Continente, levava-se toda a família, não fossem estes perder a oportunidade de usufruir de tão singular passeio.

Levei mais de um ano até ganhar a necessária coragem para tamanha aventura. O timming fora escolhido na perfeição, poucos dias depois da inauguração do segundo grande hipermercado da região, o Jumbo de Alfragide, situado a escassas centenas de metros do primeiro.

Na minha cabeça, se toda a população de Lisboa estava no Continente, com a inauguração do Jumbo, esta massa humana haveria de dividir-se por dois, tornando a minha ida ás compras um processo muito menos doloroso. Enganei-me. O Continente continuava cheio, e o Jumbo estava a abarrotar. Ainda hoje ando a digerir este fenómeno... de onde surgiu tanta gente ?!

Passaram-se vários anos, e entretanto comecei a fazer urgências nos hospitais. Na época, havia poucos serviços de urgência na Grande Lisboa, e estes estavam invariavelmente cheios. Não havia triagem de Manchester, mas havia o olho do maqueiro que ao ver um doente com mau ar na sala de espera, tratava de avisar os médicos que aquele devia ser atendido assim que possível. Era uma triagem com muitos poucos falsos positivos e os maqueiros deste pais salvaram muita gente in extremis.

À medida que novos hospitais foram abrindo, tornava-se obvio que quanto mais nao fosse pela simples divisão administrativa de base geográfica, o volume de doentes haveria de diminuir. Enganei-me novamente. Na verdade, a abertura de um hospital era imediatamente seguida por uma ligeira diminuição do número de doentes que agora passavam a pertencer a uma outra área, mas em poucas semanas os números voltavam ao normal ou até, muito frequentemente, de forma quase paradoxal, ultrapassavam os números anteriores. Lembrei-me do Continente. As urgências, afinal, eram como os hipermercados. Eram, não... São!

Abriram-se as portas, facilitou-se o acesso, democratizou-se a assistência... e o povo abusou !

Mas já nada me espanta. Num pais onde os cozinheiros passaram a ser Chefs, os cabeleireiros, Hair Stylist, os porteiros, seguranças, e os contínuos agora respondem sob a designação de auxiliares de acção educativa, algo haveria de correr mal...

Os Hospitais responderam à letra. Os bacharéis de enfermagem passaram a licenciados, os licenciados em medicina agora são mestres e os maqueiros tornaram-se auxiliares de acção médica. Já nao temos doentes, temos utentes, e para os utentes, a urgência é uma espécie de loja de conveniência aberta 24h, ali ao virar da esquina.

Longe vão os tempos onde os galos na cabeça tratavam-se com gelo, em casa, e as pequenas feridas levavam tintura de iodo e um penso rápido, também em casa. Hoje não existem galos, existem hematomas epicranianos e os doentes querem fazer um TAC antes de fazer gelo. Hoje é frequente que um doente, após uma cabeçada, se apresente na urgência com uma simples dor de cabeça, e quando questionado sobre o que tomou para a dor de cabeça, a resposta é invariavelmente, nada. Qualquer esfoladela ou nódoa negra dá direito a rx, e os pensos são feitos no Centro de Saúde, não vá o diabo tecê-las. Mas até isso já não acho estranho. Antigamente as bebedeiras tratavam-se na esquadra da polícia... hoje é na maca do Serviço de Urgência. O mesmo se passa com a obstipação. Nunca tratei tanta obstipação na minha vida como nos últimos anos. Sim é verdade, a obstipação é para um número crescente de utentes, uma patologia de urgência e eu tornei-me um verdadeiro desentupidor de canos... Após 14 anos de formação específica e diferenciada, dou por mim a prescrever laxantes como apenas um especialista o saberia fazer. Pai, perdoa-me, a cirurgia também já nao é o que era...

Mas foi apenas nesta última noite que me senti verdadeiramente presenteado com a cereja no topo do bolo. Tinha acabado de cair no cadeirão por volta das 3.30 da madrugada. 10 minutos depois, uma urgência. Um homem, de 45 anos, com dor abdominal. Perguntei-lhe à quanto tempo tinha a dor... Respondeu-me prontamente, à meia-hora !!!! À meia hora e já está no hospital ?!?!? A minha educação impediu-me de partir para a agressão... Então e nesta meia-hora, a dor, melhorou, piorou ou está na mesma ? Por acaso melhorou... depois que deitei uns gases... Gases ???? Ó meu amigo, gases era antigamente. O senhor acabou de expelir uma combinação altamente tóxica de hidrogénio, metano e dióxido de carbono... e sabe que mais...ainda bem que o fez no Hospital !

Atirem-me areia para os olhos... ou parem este mundo... eu quero sair.



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Factor X

Há uma expressão no Colégio Militar que define muito bem o sentimento que hoje me assiste. "A carneirada !"

Sei que não sou o típico adepto de futebol. Sou benfiquista nao praticante e sei o nome de mais jogadores do plantel do Néné, do Chalana, do Bento e do Humberto Coelho do que dos actuais titulares. Naquele tempo o Benfica tinha um ou dois estrangeiros, e o resto da equipa era o esqueleto da seleção nacional. Entretanto a equipa descaracterizou-se, passou a ser o esqueleto da seleção do Uruguai, do Paraguai, da Argentina, do Brasil, do Chile... E eu desliguei. 

O Eusébio já nao é do meu tempo e os da minha geração provavelmente nao se lembram de alguma vez o ter visto jogar, mesmo porque em meados dos anos 70 o Eusébio jogava no Beira Mar e acabou a jogar no União de Tomar que à data, era um clube da segunda divisão.

Reconheço no entanto, que do ponto de vista histórico, o Eusébio da mesma forma que a Amália era um símbolo vivo do estado novo. Portugal definia-se em três palavras, fado, futebol e Fátima e num tempo onde os computadores ocupavam salas inteiras, as comunicações eram escassas, a televisão começava ás 19 horas, e os jornais eram a preto e branco, o Eusébio era a figura nacional mais reconhecida além fronteiras.

Acontece que, por este andar, dentro em pouco, só Fatima nao estará representada no Panteão Nacional, e dai... talvez nos próximos tempos se lembrem da Irmã Lúcia, e encerra-se esta santíssima trindade ali para os lados de Santa Ingrácia.

Hoje idolatra-se tudo o que aparece na televisão mais do que uma vez. Idolatram-se aspirantes a cantores, aspirantes a cozinheiros, aspirantes a actores e personagens de reality shows sem ponta por onde se lhes pegue. Tarólogas, astrólogas, relações públicas, estilistas, jogadores de futebol, gente que aparece nas revistas cor de rosa e nas festas de verão... todos têm o tal factor x que gera a inveja alheia e como tal estão a meio caminho de serem idolatrados. A comunicação social tem culpa. Estas estrelas tipo cadente desviam a atenção dos verdadeiros astros.

Eu não concordo com a ida do Eusébio para o Panteao Nacional. Crucifiquem-me. Chamem-me preconceituoso. O Panteão nao pode ser o cemitério dos famosos. Nao deve. Nao era essa a ideia...Mas a carneirada já decidiu...

Inverteram-se os valores. A fama passou a ser um critério.

Antigamente, era a obra ! A postura ! Os actos de bravura ! Hoje, é o factor x.
Não vejo no Panteão Nacional o Marques de Pombal, o Fontes Pereira de Melo, os nossos prêmios Nobel, o Egas Moniz e o José Saramago, não vejo o Aristides de Sousa Mendes, não vejo o Almirante Gago Coutinho nem o Sacadura Cabral, a Beatriz Ângelo, e tantos outros com obra e feitos que marcaram a história deste pais, que fizeram de Portugal um lugar melhor ou mais culto, reconhecido pela ciência, pela inovação ou pelo humanismo.

Em breve teremos no Panteão Nacional nao só o Eusébio, que marcou muitos golos e levou Portugal ao terceiro, repito, terceiro lugar no campeonato do mundo de futebol, que é um dos melhores jogadores de sempre, sem no entanto ser o melhor, mas teremos também o Cristiano Ronaldo porque vai vaporizar os recordes do Eusébio e já é o português mais conhecido de sempre nos quatro cantos do planeta, teremos a Mariza e a Ana Moura que levam o fado onde este nunca tinha chegado, teremos com certeza o Mourinho, o melhor treinador do universo, Salgueiro Maia e os capitães de Abril, a Maria João Pires, o La Féria o Mário Soares e por aí adiante... a lista cresce todos os dias.

Reconheço que o Eusébio, durante 15 anos da sua vida, foi um grande futebolista, mas nao me reconheço na carneirada. Fica aqui a minha sugestão... Ponham beliches no Panteão Nacional, porque em breve, nao haverá lugar para todas as estrelas, sejam elas cadentes ou incandescentes.



segunda-feira, 11 de novembro de 2013

MIA

Nunca tive animais de estimação na minha infância, ou como se diz hoje em dia "pets". Tive portanto uma infância "petless"... Com 4 filhos em 5 anos, os meus pais devem ter entendido que já existiam demasiados animais à solta na propriedade para ainda adicionarem o que quer que fosse à coleção.
Isso nao quer dizer que não tenha tido contacto de proximidade com várias espécies...

O meu avô volta e meia trazia para casa um saquinho de água com um peixinho vermelho que invariavelmente acabava a nadar em círculos numa taça de vidro algures na cozinha. O mal dos peixinhos vermelhos em taças é que mais dia menos dia acabavam a boiar adornados a bombordo, fosse pela má qualidade da água, fosse por overdose de floquinhos com sabor a camarão. Depois como que cumprindo o seu destino, à água regressavam, fazendo a sua derradeira viagem de regresso ao mar pelo sifão da sanita lá de casa.

Também houve piriquitos. Aliás lembro-me de alguns casais de piriquitos em casa dos meus pais. O problema dos piriquitos é que passávamos o tempo todo à espera que pusessem ovos, e quando finalmente o faziam, ou os atiravam do ninho ou simplesmente os comiam. Qualquer dos cenários era demasiado traumatizante para crianças em idade escolar, e um dia, tal como vieram, os piriquitos, foram-se.

Acho que a primeira relação que estabeleci com um animal foi com o Bolinhas. O Bolinhas era um cão rafeiro branco com manchas castanhas, pelo e pernas curtas, tipo salsicha brasileira. Habitava um armazém de bananas ali para os lados da lapa. O armazém, do qual o meu avô era sócio, fazia paredes meias com uma tasca à antiga portuguesa, com mesas em mármore, bancos de madeira, muita serradura no chão, e grandes pipas de vinho atrás do balcão onde um taberneiro grande e careca envergava um avental tipo talhante com uma toalhinha ao ombro. Comi-se pão com torresmos, pão com chouriço e bebia-se vinho. O meu avô, os seus sócios e demais companheiros passavam horas a jogar dominó, marcando os resultados com um pau de giz nas próprias mesas. O Bolinhas era o meu pet. Eu teria aí uns 8 anos...pegava na trela e ia dar uma volta ao quarteirão, todo orgulhoso, de peito feito, a mostrar para quem quisesse ver que era eu quem levava aquele animal a passear. Um dia cheguei à loja e soube que o Bolinhas fora apanhado por um eléctrico numa das suas saídas habituais sem trela. Desde aí, passaram-se vários anos até que voltei a ter contacto com animais com nome.

Foi no Colégio Militar que voltei a estabelecer algum tipo de vínculo emocional, desta feita com animais de grande porte. Era um belíssimo cavalo chamado "Saturno", castanho, grande, com um galope largo e generoso que me fazia realmente feliz e duas éguas mal cobridas de seu nome "Silvia" e "Rata". A primeira, algo esquizofrénica, tinha surtos psicóticos e quando menos se esperava, largava a formação desatando a correr em sentido contrário aos restantes cavalos, sem que nada ou ninguém a fizesse parar e muitas fezes fazendo o infeliz cavaleiro provar a serradura do picadeiro. A segunda, era pequena, cor de rato, e tinha um trauma sexual, pelo que a simples aproximação de um garanhão pela retaguarda, dava direito a cangochas inopinadas ao estilo rodeo que ficaram célebres pelo número de cavaleiros que levou ao chão. Foi à conta destes três que acabei na escolta a cavalo...

Passaram-se vários anos sem animais e entretanto a personalidade formou-se. Se dividíssemos o mundo em "cat persons" e "dog persons" eu seria certamente uma "dog person". O meu interesse por felinos esgota-se no Jaguar, preferencialmente azul escuro, cabrio, com bancos camel, e nas gatas... louras ou morenas. Paradoxalmente, quis o destino que acabasse com três gatas em casa. Uma, casei com ela, as outras duas são descendência. 

Recentemente, há cerca de dois meses, a nossa vida foi invadida pela Mia. A Mia ao contrário do Bolinhas é uma cadela de marca. É uma Shnauzer, tamanho mini mas sem ser a pilhas e tem pelo preto com madeixas californianas, acho que é assim que se diz, quando o pelo é preto e as pontas são castanhas, mas neste caso é de série. A Mia tem seis meses e nas fotografias aparece sempre como uma mancha negra. Não cheira a cão, praticamente nao se ouve, não deita pelo e nao pedincha à mesa. Tem um olhar carinhoso, e uma cara super patusca, daquelas que só apetece agarrar e já conquistou toda a gente pela sua doçura e simpatia. É uma cadela caseira que está sempre a abanar o rabo de felicidade. Adora enroscar-se no colo de quem quer que seja que esteja a ver televisão e de manhã assim que lhe abrem a porta do terraço corre os quartos à procura dos habitantes para os cumprimentar individualmente pondo-se de pé ou simplesmente saltando para cima das camas e lambendo qualquer cabeça que esteja de fora dos lençóis. É efusiva nas recepções sempre que alguém chega a casa, mas distribui as atenções por todos. Adora correr e derrapar no chão em madeira, fazendo drifting nas curvas. A sua brincadeira preferida é deitar-se de patas para o ar fingindo-se de morta para que lhe façam festas na barriga...Até hoje, eu não sabia que era possível gostar assim de um animal... mas esta, deu-me volta cá com uma pinta... é que só lhe falta falar !


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mercenary Man - Day 45

Quando estamos fora, o tempo conta-se de maneira diferente.
As rotinas, que no princípio estranhamos, agora entranharam-se. Há novos amigos, novas experiências, novos lugares, novas recordações e não menos importante, abrem-se novas portas. Há um ritmo diferente em tudo o que fazemos... Na própria forma como vivemos.

Entre Sudão do Sul e Kosovo, estou praticamente há três meses fora de casa. Longe da família, dos amigos e dos colegas de sempre. Há três meses que não conduzo e no entanto, provavelmente nunca tive uma rotina tão boa de exercício como agora tenho e nunca tive uma alimentação tão correctamente paleolítica. De uma forma aparentemente paradoxal, apesar do contexto das missões, os níveis de stress caíram para valores de mínimos históricos. Há qualquer coisa neste mundo da ajuda humanitária que nos torna diferentes, e começo a perceber o que é...

Saltei do mais jovem país africano, para o mais jovem pais europeu, e há quase três meses que não sinto o cheiro da maresia ou o sabor dos beijos das minhas mulheres. No campo profissional percebi que para alguns paga-se caro a aventura humanitária, mas para lá dos 40 percebemos que tudo na vida tem um preço. O que fazemos paga-se da mesma forma que tudo aquilo que deixamos de fazer.

Quando estamos em missão... encontramos-nos com nós mesmos ! Sem os tradicionais suportes da nossa estrutura social, estamos fundamentalmente sozinhos. Pensamos muito mais, planeamos, recordamos, meditamos, e quase sempre sem querer pomos toda a nossa vida sobre a mesa, tudo, ali, como se de um qualquer festim se tratasse. Com uma atenção redobrada analisamos cada gesto, cada palavra dita ou não dita, percebendo muitas vezes pela primeira vez a posição e a importância relativa de cada coisa. As certezas tornam-se mais fortes, as dúvidas mais ligeiras, e a nossa visão do mundo ganha outras cores. Perceber o porquê do conflito tribal no Sudão ou a razão de ser da segunda républica Albanesa nos Balcãs, pode não parecer muito importante à primeira vista, mas na realidade, é o mais claro espelho daquilo que somos enquanto humanidade.

Um dia, quando forem mais velhas, espero que as minhas filhas percebam o porquê da ausência do pai durante alguns meses e porquê troquei os seus sorrisos pelos sorrisos de crianças anónimas no meio da selva, uma refeição em família por uma ração de combate à volta da fogueira, porquê dormi em tendas em vez do conforto da nossa casa e porquê troquei a água de colónia pelo repelente para mosquitos e o banho quente pela água do rio, e porquê, tantas, tantas vezes, abdiquei do certo pelo incerto correndo riscos aparentemente desnecessários... Na vida, temos que ser generosos e humildes, tanto quanto possível neutrais, e temos que ser tolerantes para com as diferenças, saber descer ao nível dos que precisam de nós e olhar nos olhos... Elas ainda nao sabem, mas o tempo passa a voar e o tempo para fazermos o que gostamos, para darmos o que de melhor há em nós... inevitavelmente esgota-se. É uma das poucas certezas da vida. 

A poucos dias de regressar a casa, deixo um Kosovo à beira de eleições que podem ou nao correr bem e deixo uma pequena comunidade portuguesa tão especial e acolhedora como são todas as nossas comunidades espalhadas pelo mundo, mas faço-o com um sorriso nos lábios. Levo na bagagem uma ideia que nao me sai da cabeça... há muitas outras crises para além da nossa crise, há muita gente a sofrer para além daquilo que se vê no telejornal, e há um mundo inteiro para lá do nosso rectângulo à beira mar plantado. Agora é tempo de regressar. Quem decide abraçar esta vida sabe que nem sempre ganhamos todas as batalhas, mas felizmente, ganhamos muitas guerras. As nossas ações serão sempre uma gota de água no oceano, mas o oceano é isso mesmo...


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Mercenary Man - Day 6

Life in Kosovo...

Para já uma semana marcada por exercícios de prontidão e pela morte a tiro de um funcionário da Eulex que seguia de carro numa caravana oficial. As vésperas das eleições fazem prever um aumento da violência sectária nesta parte da Europa... Ainda há muitas questões mal resolvidas nos Bálcãs...

Após alguns dias de trabalho e outros tantos de folga, esta cidade começa a revelar-se...
Este pessoal adora os seus carros. Um dos negócios mais florescentes por estas bandas são lavagens automóveis tipo "Elefante Azul", e estão sempre cheios. Em compensação o transito é realmente uma loucura. Há muitas estradas em construção, e os troços vão abrindo à medida que vão ficando prontos... No entanto, por algum motivo que ainda não vislumbrei, os motoristas locais entendem que as regras de transito aplicam-se de forma proporcional à percentagem de asfalto colocado. Conclusão, como a maioria das novas vias estão apenas parcialmente prontas, as regras aplicam-se na mesma medida. Dito isto, é possível fazer rotundas pela esquerda, fazer inversão de marcha no meio de uma via rápida, ou simplesmente circular na contra mão em vias com separador central !!! Tudo nas calmas... Ninguém se incomoda, toda a gente faz o mesmo !!! Verdadeira actividade de risco em Prístina... Atravessar ruas !

Já descobri os Táxis ! São modernos com taxímetros digitais no espelho retrovisor. A bandeirada custa 1,5 euros mas como a cidade é pequena, torna-se possível chegar ao destino quase com o valor da bandeirada... Memórias de Macau vieram-me à memória.
À conta do taxi, esta semana descobri "Film City"... a base americana aqui em Prístina, onde estão estacionadas as tropas da KFOR. Ninguém me consegue explicar o porque deste nome, mas basicamente para os outsiders como eu, trata-se de um sítio giro para passear comer e fazer compras nos diversos "BX" que aqui se chamam "PX", os quais são geridos pelas diversas nacionalidades presentes. Não encontrei nenhuma loja portuguesa, apesar de me ter cruzado com alguns dos nossos homens, mas encontrei a loja, americana, alemã, francesa, escandinava e mais umas quantas polivalentes. Basicamente é possível comprar desde pastilhas, a televisões LCD, passando pelas TShirts e perfumes. Enfim, "It's the american way"...

Estou a dividir o apartamento com um cirurgião Checo e estamos em turnos opostos pelo que só nos encontramos à noite. Somos ambos corredores, mas nao corremos juntos. O amigo tem um metro e noventa e cada passada dele são três minhas, pelo que já deu para perceber que estamos em campeonatos diferentes. Ainda assim, cada um vai descobrindo novos percursos nas franjas da cidade e posteriormente experimentamos os trajectos um do outro.

Cozinhamos à vez de acordo com a vontade e o apetite do dia... Isto obriga a fazer compras nos supermercados locais... O que se tem revelado uma verdadeira aventura. As prateleiras estão cheias e é possível comprar quase tudo nestes supermercados... se conseguirmos encontrar o que queremos !!! Não recomendo os congelados, porque o aspecto é assustador... há peças de carne e peixe completamente ressequidos e nao embalados, constituindo verdadeiros blocos de gelo...Acho que ainda nao descobriram as virtudes da ASAE... De resto, há uma qualquer lógica subjacente a esta arrumação e disposição dos produtos que me transcende completamente... Um exemplo simples... É possível encontrar chá em três corredores diferentes, sal em pelo menos dois, azeite em vários... Portanto lá se vai aquela ideia de que é possível comparar e escolher os vários produtos do mesmo gênero. Depois de colocar o que quer que seja no carrinho, é bem provável, numa qualquer outra secção mais à frente encontrar novamente as alternativas ao que tínhamos escolhido com tanto cuidado. Moral da história, ainda vou descobrir que aquilo está tudo arrumado por ordem alfabética... em albanês !

sábado, 14 de setembro de 2013

Mercenary Man - Day 0

A vida dá muitas voltas, mas não é todos os dias que temos a oportunidade de saltar do mais jovem país africano, para o mais jovem país europeu, no espaço de poucas horas.
O Kosovo, à semelhança do Sudão do Sul, é um daqueles países imaginários que, para a maioria dos portugueses, só existe na televisão e habitualmente não pelas melhores razões.

A primeira coisa que me ocorre dizer depois de aterrar em Prístina, capital do Kosovo, é que Prístina fica na Europa, o que não faz dela automaticamente uma capital europeia no sentido "glamoroso" do termo... mas arrisco a dizer que para lá caminha.

Talvez porque o país é "newborn" tem direito a babysitting por parte da Comunidade Europeia e Nações Unidas. A missão da Comissão Europeia chama-se EULEX, e a da ONU, KFOR. A KFOR conta já desde há bastante tempo com tropas portuguesas que espero ter oportunidade de visitar.

O meu hospital é basicamente um centro de trauma nível 2,montado pela EULEX para servir de suporte a todos os expatriados de todas as forças e missões no terreno. É um hospital em contentores, que não parecem contentores uma vez lá dentro... e é provavelmente um dos mais bem equipados que vi até hoje. De vez em quando também sabe bem trabalhar com o topo de gama !

É minha convicção que a melhor forma de se conhecer uma cidade e perder-se nela. Com esta ideia em mente e depois de avaliar as questões da segurança, entendi que estavam reunidas as condições para tentar perder-me. Segui pela Bill Clinton Boullevard, virei algures à esquerda e dai para frente segui os transeuntes. A esmagadora maioria são Albaneses, uma muito pequena minoria é Sérvia, mas à primeira vista, bem podiam ser Portugueses porque os traços, pelo menos dos homens, são muito parecidos com os nossos. Isto digo eu... que devo ser um típico "mediterranean men", uma vez que aqui falam comigo em Albanês e no Egipto falam comigo em Árabe e em Israel em Hebraico...

Sempre que entendi estar razoavelmente perdido, um qualquer chip que me devem ter implantado à nascença, lá me dava a minha posição relativa e estava outra vez orientado. Acho que tenho cada vez mais dificuldade em perder-me de propósito... Provavelmente porque direita, esquerda, esquerda, quer dizer que segui em frente, esquerda, direita, quer dizer que andei na diagonal, e direita, direita, direita, quer dizer que andei para trás...

Neste processo, encontrei a praça principal, o teatro nacional, crianças a brincar nas fontes, casais a namorar, reformados a ver passar a procissão... Encontrei também a Zara, a Bershka, e a Benneton... Estranhamente nada de McDonalds ou PizzaHut mas devem estar ai a rebentar.

As ruas estão esfaltadas, os passeios um pouco menos cuidados, o parque automóvel é semelhante ao português, talvez com um pouco menos de Mercedes, BMWs e Audis, existe comércio, muito comércio, e muitos modernos cafés, muitos restaurantes e muitas esplanadas, aliás, imensas esplanadas. A (re)construçao está em alta por todo o lado, e alguns espaços públicos começam a ter a sua piada...

Para já, uma conclusão. Prístina fica na Europa !